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Vai uma cuia?

Ela já foi renegada pelos jesuítas, foi pivô de ciclos econômicos e se tornou a bebida oficial do tradicionalismo gaúcho. A erva-mate e seu principal derivado, o chimarrão, foi incorporada à cultura da região sul do país e se tornou um ícone, um sinônimo de confraternização cheio de simbolismos, curiosidades e histórias

Ela já foi renegada pelos jesuítas, foi pivô de ciclos econômicos  e se tornou a bebida oficial do tradicionalismo gaúcho. A erva-mate e seu principal derivado, o chimarrão, foi incorporada à cultura da  região sul do país e se tornou um ícone, um sinônimo de  confraternização cheio de simbolismos, curiosidades e histórias

Helmuth Kühl
"O doce desse amargo me faz bem", da canção de Os Mirins

Chimarrão não é uma bebida, é um culto, como quase tudo que faz parte do folclore do tradicionalismo gaúcho. Beber água quente misturada à erva-mate é levado tão a sério que existem até mandamentos do bom consumo; exatamente 10, emulando o código de conduta do cristianismo.“Não peças açúcar no mate”, diz o primeiro deles e um dos vários que avisam que mate é coisa forte, a versão líquida da imponente tradição e do viril imaginário gaudério.

Mas a origem do chimarrão não é gaúcha. Erva-mate é coisa de índio pé-vermelho. As propriedades nada adocicadas da ilex paraguariensis já eram aproveitadas na América do Sul pré-colonial pelos índios que viviam na região onde hoje é o Paraná e o Paraguai. “Eles mascavam a folha da erva-mate para ganhar energia”, conta Airton Ferreira, estudioso da cultura e da história da planta.

O hábito indígena lhe rendeu um apelido: erva do diabo. O rótulo pouco ortodoxo foi obra dos padres jesuítas, que chegaram a proibir seu consumo, o que não impediu que a bebida feita a partir de suas folhas se espalhasse mundo afora. No cone sul, erva-mate é quase um item de cesta básica, seja para ser tomada como chimarrão ou como tereré, a versão da bebida feita com água gelada.

Ferreira afirma que a erva é uma das melhores plantas medicinais que existem, ajudando a controlar o colesterol e a perder alguns quilos. Sendo ou não, o chimarrão tem uma função social mais importante para seus consumidores do que qualquer propriedade fitoterápica. A bebida é pretexto para encontro, um motivo para visitar o vizinho.

O professor

O radialista Airton Ferreira decidiu se especializar no assunto depois de ouvir muita gente reclamando de que o chimarrão na casa dos outros era melhor. Curioso sobre o tradicionalismo e seus símbolos, Ferreira estudou, pesquisou, praticou e fundou a Faculdade do Chimarrão, uma escola itinerante especializada em erva-mate, cuias, bombas e seus derivados.

Rádio Buenas Tchê/Divulgação
De curioso a professor. Airton Ferreira criou a Faculdade do Chimarrão

A “reitoria” fica em Toledo, onde o especialista vive, mas as aulas acontecem em feiras e exposições pelo Brasil. Em algumas horas Ferreira ensina desde história até formas de preparo e decoração de cuias. “Sei fazer mais de 50 desenhos diferentes”, conta. Para ele não existe erva ruim, porém ele desconfia das marcas que prometem um prazo de validade maior do que 30 dias.

A temperatura ideal da água é entre 70ºC e 75ºC, quando a chaleira começa a chiar, descreve Ferreira. Se a água ferver, é melhor esquentar outra.  Misturar água fria ou cuspir as primeiras puxadas é desnecessário. “Basta acrescentar a água quente e pronto”, resume.

Limpeza

Uma das disciplinas mais importantes do curso trata da higiene dos materiais. O ideal é limpar a bomba por dentro, para tirar o excesso de erva e evitar a contaminação por fungos ou bactérias. Já existem no mercado bombas rosqueáveis que facilitam a limpeza interna. E nada de guardá-la na gaveta de talheres. Ferreira diz que bomba deve ficar na geladeira, onde o risco de contaminação é menor.

A cuia deve ser lavada com frequência e deve secar deitada. Deixá-la com a boca para baixo dificulta a secagem e cria um ambiente ótimo para  a proliferação de fungos e bactérias. Essas dicas ajudam a fazer um chimarrão tão bom quanto o do vizinho, apesar de gosto ser algo relativo. Há quem prefira, por exemplo, criar o próprio sabor com matéria prima feita em casa.

O fabricante

A erva-mate favorita da família do auxiliar contábil Luan Carlos Felipe é aquela colhida no quintal de casa. Mesmo com dezenas de marcas disponíveis nas prateleiras dos supermercados, eles preferem colher, processar e armazenar a própria erva, repetindo um ritual que ainda é comum em muitas propriedades rurais.

É preciso uma boa dose de paciência e mão de obra para fabricar um estoque para o ano todo, mas mesmo assim, Felipe garante que o esforço vale a pena. Um dos motivos é a economia. “Hoje a mão de obra corresponde a cerca de 60% do custo de fabricação, e isso acaba sendo repassado ao consumidor final”, justifica.

Luan Carlos Felipe/Reprodução Facebook
Na área rural, muitas famílias ainda fabricam sua própria erva-mate

Mas é a possibilidade de personalizar a própria bebida que mais motiva seus parentes. Felipe explica que basta cortar um pouco mais cedo, expor mais ou menos a torra para chegar a uma erva mais forte, mais leve ou com outras características. A erva-mate é uma árvore, cujas folhas são transformadas em pó. Felipe explica que as folhas cortadas são tostadas em uma fogueira.

Depois os galhos são levados em feixes para um barracão, onde passam a noite assando em uma espécie de grelha. “A folha precisa secar, pois se murchar ela não se transforma em pó”, justifica.

São essas folhas secas que, no dia seguinte, serão amassadas por cerca de duas horas em uma talha até ficarem no ponto de ir para a cuia. O ritual é repetido anualmente, entre junho e julho, e serve apenas para reabastecer a despensa da casa. Felipe explica que a família não costuma vender a erva-mate processada.

O vendedor

Quando Sadi Agostinho Sutili começou a trabalhar como representante comercial de uma ervateira havia uma inquietação nos bastidores da indústria local. Será que as novas gerações iriam continuar bebendo chimarrão tanto quanto seus pais e avós? Dez anos se foram e ele continua rodando as estradas vendendo erva-mate, convicto de que a tradição está se perpetuando.

Sua rota passa por 12 municípios da região de Pato Branco, onde ele entrega cerca de 150 a 200 fardos por mês, dependendo da estação climática, do mês e de outros fatores. “Inverno é tempo de chimarrão, e verão de tereré”, resume.

A variedade de erva-mate disponível no mercado mostra que os consumidores estão se diversificando e se tornando mais exigentes. Existem vários tipos; mais leves, mais amargas, e até as aromatizadas para tereré.

Sadi diz ter aprendido muito sobre o produto que comercializa, desde o comportamento dos consumidores até o mercado agrícola, que lucra com a cultura, segundo sua avaliação. Saber escolher é fundamental, diz Sadi, e basta uma boa lida no rótulo para saber mais sobre o produto.

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