Entrevista

“Uma solução que você adota no Brasil pode ser replicada na Índia”

Avishek Nigam nasceu na Índia e atualmente mora em Bangalore, mas com um ano de idade se mudou com os pais para o Brasil. Foi residir em João Pessoa, na Paraíba, e por isso se considera tão brasileiro quanto indiano.

Assessoria/Sebrae
Empresário indiano Avishek Nigam veio a Pato Branco a convite do Sebrae

 

Nessa semana, a convite do Sebrae, esteve pela primeira vez em Pato Branco. O empresário veio ao Sudoeste para falar com empresários do setor de TI (Tecnologia da Informação) e marcar o lançamento oficial do Programa de Desenvolvimento das Empresas de TI, promovido pelo Sebrae/PR na região Sudoeste.

A palestra de Avishek tratou da realidade político-econômica da Índia, país asiático com mais de um bilhão de habitantes e reconhecido mundialmente nos setores de TI, biotecnologia e tecnologia aeroespacial. O empresário, que é filho de professor universitário, depois de presenciar tantas oportunidades perdidas, decidiu abrir uma empresa que aproximasse empresários dos dois países. Avishek é engenheiro eletricista, com mestrado na área e integrante da Câmara de Comércio Brasil Índia.

O gestor do projeto de TI do Sebrae/PR na região Sudoeste, Cesar Colini, afirma que ao trazer a palestra de Avishek para o Sudoeste, a principal intenção é mostrar aos empresários que é possível ter a visão internacional de seu negócio. O que se quer saber é: “as empresas da região têm condições de chegar ao mercado exterior?”.

E a resposta é clara: empresas organizadas, com modelo de excelência em gestão, com processos e planejamentos com indicadores de TI, têm toda chance de lançar seus olhos ao mercado internacional. É nessa hora que entra em cena a internacionalização, palavra chave da palestra do indiano.

A palestra com Avishek Nigam teve apoio da governança do Vale Digital - Arranjo Produtivo Local em Tecnologia da Informação do Sudoeste do Paraná, do NTI (Núcleo de Tecnologia da Informação) de Pato Branco e demais núcleos do APL de TI.

Na redação do Diário do Sudoeste, pouco antes de conversar com os empresários do Sudoeste, o indiano falou sobre tecnologia e como é possível ampliar as fronteiras. Confira o que disse o fundador da Adhrit Solutions, uma empresa que pretende oferecer serviços de desenvolvimento e teste de software a partir de uma rede de parceiros indianos.

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Diário do Sudoeste- A conversa com as empresas de TI de Pato Branco e região Sudoeste traz essa ideia de que é possível internacionalizar e expandir o mercado?

Avishek Nigam- Primeiro, será uma troca de informações e posso já adiantar, que a iniciativa do Sebrae em Pato Branco é fenomenal. Demonstra que hoje não é só o tamanho de uma empresa, mas sim sua visão e a maneira que se organiza é que vai para levá-la ao mundo. Hoje, quando falamos em termos de mundo, a Índia é o país que mais cresceu economicamente nos últimos dois anos, mais até que a própria China. Cresceu próximo dos 8%. E isso é um mercado fenomenal, porque este mercado também precisa de parcerias, soluções, tanto para o mercado brasileiro quanto para o indiano.

O que Brasil e Índia têm em comum, já que são países tão diferentes?

Avishek- São dois países que enfrentam realidades muito similares. Em termos da TI temos uma visão muito americana e europeia do que tem que ser feito e como deve ser as coisas. E a gente sabe que a realidade no Brasil é muito distinta, nossas leis, regulamentações e necessidades são muito diferentes da europeia e americana, mas como um país emergente, a Índia também tem situações similares ao Brasil. Ou seja, uma solução que você adota no Brasil pode ser replicada na Índia. Porque são países, que por serem emergentes, enfrentam situações similares neste mundo globalizado. Além de a Índia ser um mercado muito atraente, por ter número de consumidores, também pode precisar de soluções que os americanos não irão saber entender tão bem quanto os brasileiros. Isso pode ser refletido tanto em âmbito rural quanto urbano, e a Índia precisa muito se desenvolver em termos de tecnologia, pois, apesar de ser exportadora de tecnologia, ainda consome muito pouco.

Ela exporta, mas não consome. Pode-se dizer que a Índia sofre um paradoxo?

Avishek- É um paradoxo, e é justamente o contrário do que acontece no Brasil. O mercado brasileiro é muito consumidor e pouco exportador. A Índia é o contrário. As soluções brasileiras podem então, em alguns momentos, auxiliar as empresas indianas e até mesmo terem um contexto relevante na Índia. É por isso que estamos tentando fazer a integração entre os dois países.

Mas hoje, quando falamos de TI se lembra da Índia.

Avishek - Quando falamos em produtos manufaturados pensamos em China, e quando falamos de TI temos que tem um dedo indiano em algum lugar. Ou seja, as grandes empresas têm usado os recursos indianos, por causa do alto grau de tecnologia e mão de obra qualificada existente na Índia, como engenheiros, principalmente na área da Ciência e Computação e Tecnologia de Informação.

E onde o Brasil entra nessa história?

Avishek - O Brasil pode se aproveitar disso, porque a Índia tem escassez, mas tem demanda enorme. Tudo hoje é computadorizado, é automático e é cada vez mais ligado à internet. O que chamamos de IOT (Internet das Coisas ou Internet of Things) - que diz que todas as coisas estarão ligadas à internet - irá gerar um grau de conhecimento e desenvolvimento em tecnologia que é necessário para o Brasil e para o mundo. E os recursos estão na Índia, mas a visão pode ser brasileira, isso que é bacana.

A visão pode ser sudoestina, estar aqui nas empresas da região?

Avishek- Pode, por que não? Senti um clima muito positivo em Pato Branco, gostei muito da forma que o Sebrae tem tido essa visão. Inclusive, as empresas de Pato Branco foram à Índia numa missão há duas semanas, onde tive a oportunidade de conhecê-las. E eles trouxeram isso para as associações, já se conectaram e eu já estou aqui, três semanas depois, a convite do Sebrae. O meu objetivo é ajudar no máximo possível e montar um planejamento.

Como uma empresa pode tentar se internacionalizar?

Avishek- Quando falamos de internacionalização, muitas pessoas se sentem tímidas, porque não querem fazer investimento, sem ter o conhecimento prévio dos mercados. Para isso é necessário ter a estratégia correta, alguém que possa ajudá-los. Hoje, para saber multiplicar, também é preciso saber dividir. O mais importante é entender porque eu estou fazendo algo, pois sabemos que o mercado é comprador em lugar do mundo. E atualmente, o maior mercado comprador está na Índia. Então, existem soluções que podem ser levadas a um mercado que está em pleno crescimento. Se você tem uma empresa em Pato Branco, e está bem sucedida e a mesma tem oferecido algo que os outros não ofereceram ainda, isso pode ser replicado e temos que analisar se é relevante ao mercado internacional. Tem que se fazer uma análise. Se for relevante, vá com tudo, pois o mercado vai entender e vai comprar sua solução. Não se limite a geografia, e expanda. O mais bacana é que considero as empresas de Pato Branco, empresas irmãs da Índia.

É importante que as empresas certifiquem seus processos para atingir mercados internacionais?

Avishek - Na verdade, o produto é um aspecto, conhecimento de mercado é outro, mas processos são muito importantes, é outro pilar. É o processo que vai determinar quão sério é a empresa. Analisam-se todos os aspectos e principalmente os processos. Qual é o processo da empresa, se está bem implementada ou não, e assim por diante. Uma certificação do Sebrae, por exemplo, dá uma segurança a própria empresa e os próprios colaboradores vão se sentir mais confiantes, ter orgulho da empresa e isso tudo só soma. E na soma acabamos ganhando novos mercados, oportunidades. É uma combinação de tudo isso. No futebol, por exemplo, todas as áreas têm de ter cobertura, caso contrário não há gol, ou se leva gol.

 

"O mercado brasileiro é muito consumidor e pouco exportador. A Índia é o contrário. As soluções brasileiras podem então, em alguns momentos, auxiliar as empresas indianas e até mesmo terem um contexto relevante na Índia. É por isso que estamos tentando fazer a integração entre os dois países."

 

A tecnologia está em todos os lugares. Não tem mais como viver desconectado?

Avishek- Uma vez inventada, não pode viver sem a tecnologia. Há 30 anos, não tinha celular, e todo mundo vivia bem. Uma vez inventado o aparelho, ninguém pode viver sem. Tecnologia é assim mesmo. Havia um tempo em que não havia WhatsApp, e todos viviam bem, hoje inventaram, e todos usam. Se não usa, está desconectado, você sente isso. Isso acontece porque a tecnologia conecta as pessoas, conecta realidades.

Há como resistir à tecnologia, mesmo diante de nós, o tempo todo?

Avishek- Você pode resistir o quanto quiser, os seus filhos vão aderir (risos). Quantas pessoas no passado você deve ter ouvido falar que não queriam celulares, dizia que nunca iriam ter, e agora têm. A maioria pode até não usar muito, mas em algum momento da vida fará uso. A tecnologia é isso, integra e aproxima as pessoas. Num clicar de botão você comunica ao mundo o que está fazendo, e isso é fundamental. Precisamos usar a tecnologia a nosso favor. Hoje, sem a tecnologia você se sente desconectado.

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