Região

Uma história de afetividade, mas de traumas

Neste dia 8, completam-se 16 anos do cumprimento do mandado judicial de apreensão da balsa, que seria utilizada para travessia do rio Iguaçu ligando Capanema a Serranópolis do Iguaçu
(Foto: Helmuth Kühl)

Nem mesmo com a recente inauguração da Usina do Baixo Iguaçu [em maio deste ano] e anteriormente o início de exploração do turismo em Capanema [iniciada em 15 de fevereiro] no leito do rio Iguaçu, a população apaga o desejo de reabertura de outro símbolo do município, a Estrada do Colono, mesmo que a estrada de fato, esteja na outra margem do rio.

Prova é que no mês de agosto, duas audiências públicas, uma em Capanema e outra em Medianeira reuniu grande número de pessoas, que manifestaram o desejo de reabertura do caminho, que ganhou ainda mais força no mês de setembro, com a tramitação e aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLC 61/2013) na Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado para a criação da Estrada-Parque Caminho do Colono, e que agora está em análise nas comissões de Meio Ambiente (CMB) e de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR).

A historiadora Sharlene Keila Schalindwein, em 2016 estudou a ligação da comunidade de Capanema com a estrada e foi junto à população que encontrou a maior parte dos registros da sua existência, seja por materiais de divulgação, recortes de jornais ou até mesmo imagens feitas nos momentos que a estrada esteve aberta.

Por outro lado, Sharlene pontua que tanto Capanema, como os municípios de Medianeira e Serranópolis do Iguaçu, no Oeste, não possuem acervos que possam precisar a real criação do traçado da estrada, que por alguns é atribuída a passagem da Coluna Prestes na região na década de 1920.

Ela também relata que os primeiros registros passam a ser da segunda metade da década de 1950, mais precisamente em 1957, com a Revolta dos Colonos, ou Revolta dos Posseiros, se estendendo ainda no período da Ditadura Militar e posteriormente no trabalho de investigação do jornalista Aluísio Palmar, que resultou na recuperação de alguns corpos de guerrilheiros que foram deixados na área do parque [Nacional do Iguaçu], que foi criado em 1939.

Afetividade

De acordo com a historiadora, por ter permanecido aberto por um longo período, —o primeiro fechamento da estrada foi em setembro de 1986 —, e posteriormente reaberta em 1997, e com o debate se estendendo ao longo dos anos, “a população tem uma memória extremamente afetiva com a estrada [do Colono]”.

Sharlene pontua também, que em meio a todo o sentimento de afetividade, existem traumas, principalmente aos registrados no início dos anos 2000, como o episódio de 2001, com a implosão da balsa no próprio leito do rio Iguaçu, a tentativa frustrada de reabertura; e em 8 de outubro de 2003, o cumprimento de decisão judicial por parte da Polícia Federal (PF) que determinou a apreensão da balsa que estava sendo soldada, para mais uma tentativa de reabertura da estrada, já que a navegação e transporte de veículos para a outra margem do rio Iguaçu era feita por balsa.

“É um momento muito traumático, uma vez que teve uma ação policial e algumas pessoas saíram de fato algemadas da área central”, pontua a historiadora, relatando que não é difícil encontrar em Capanema, moradores que não gostem de comentar do episódio que completa neste dia 8, 16 anos.

Hoje aposentado público, Manuel Pedro Berticelli, em 2003 era comerciante e se sentiu na obrigação de ir à praça defender o que considerava um símbolo de esperança para a reabertura da Estrada do Colono.

“Eu me senti no dever, na obrigação, participar junto com todos, porque estavam havendo agressões inclusive aos cidadãos”, afirma 16 anos depois o homem que foi algemado e levado para um camburão da PF, das 9h até às 17h do dia 8.

Hoje Berticelli reconhece que “foi apoiar essas pessoas que estavam lá se manifestando, e, ao chegar lá, na verdade eu me empolguei um pouco”, pondera ele, relatando ter questionado os policiais, o por que eles estavam batendo na população.

O aposentado afirma que da manifestação e de sua detenção não lhe restaram nenhuma ação judicial, e é enfático em afirmar que se a ação de 2003, fosse atualmente voltaria a praça para a manifestação, “hoje com muito mais vontade e ênfase. Com certeza, faria tudo de novo, mas, talvez hoje com um pouco mais de inteligência usando mais de diplomacia.”

Atualmente Berticelli diz se sentir “traído”, até mesmo pela legislação que estabelece as duas margens do rio Iguaçu integrante do Parque Nacional do Iguaçu, o que na prática, o impede até mesmo de momentos de lazer e pescaria. “Meu sentimento é um só. A estrada [do Colono] tem que ser reaberta e reutilizada” e completa “não vai parar nunca, enquanto tiver o último capanemense vai ter esse desejo [de reabertura da estrada].”

Economia

Para os moradores de Capanema, o fechamento da Estrada do Colono, interferiu e segue causando prejuízos econômicos para o Município.

Segundo Sharlene, o primeiro indicativo de um dano econômico foi que a região do Porto Moisés Lupion, onde atracava a balsa, já em 1986, teve uma grande redução populacional e comercial, restando nas proximidades apenas famílias de agricultores.

Ela ainda relata que a redução do número de pessoas, já que existem indicativos que em algumas oportunidades cerca de 800 pessoas transitavam por dia entre os municípios, também contribuíram para as perdas de caráter financeiro do comércio.

O presidente da Associação Comercial e Empresarial de Capanema (ACEC), André Felipe Muller afirma que o que movia o município anteriormente era a esperança e a vontade de reabertura da Estrada do Colono, contudo, segundo ele, “hoje, nosso desejo é por uma estrada ecológica. Diferente da realidade de antes, que passava caminhão, cargas (...).”

De acordo com Muller oura forte interferência no município resultante do fechamento da estrada, foi a queda populacional, uma vez que o município possuiu na época cerca de 30 mil habitantes e atualmente a estimativa populacional é de 19 mil. “Muitos por não terem oportunidades deixaram o município, assim a população caiu muito”, diz ele apontando até mesmo um comportamento de fechamento de empreendimentos.

Para Muller, “o projeto que está no Senado compreende a natureza e a vida humana. Não existe mais povo que pensa em destruição. Pensa sim na preservação. É sim possível a gente completar o que que é bom para a natureza e o que é bom para o ser humano”, afirma, ponderando que o desejo é de que com a criação da Estada-Parque Caminho do Colono o tráfego de veículos e pessoas somente seja permitido das 7h às 19h, e ainda com monitoramento no percurso, além da implantação de guaritas nas duas extremidades do parque.

Com os mais recentes encaminhamentos e até mesmo a declaração em maio do presidente da República, Jair Bolsonaro, que se demonstrou favorável a reabertura do caminho por meio de uma estrada-parque, Muller afirma que atualmente, o Porto Moisés Lupion simboliza esperança. “Antes destes últimos acontecimentos, as casas do porto estavam em ruinas, hoje chega lá e já tem muitos dos capanemenses já fizeram investimentos, melhoraram sua casa”, pontua, relatando que com o turismo do local e uma nova possibilidade de reabertura da estrada vem gerando novos investimentos como a também reabertura do antigo restaurante às margens do rio Iguaçu.

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