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Uma cratera no meio do caminho

Há milhões de anos, a queda de um corpo celeste deixou uma enorme marca no relevo da região. É a cratera de Vista Alegre, a lembrança de um violento fenômeno, impressa no interior de Coronel Vivida

Fotos: Helmuth Kühl

De uma cadeira de plástico, no pátio de um posto de combustíveis, Adir Miolla acompanha o movimento da rodovia PR-562, que cruza o distrito de Vista Alegre, no interior de Coronel Vivida. 

Mesmo com o aparente clima de calmaria da vizinhança, a estrada é movimentada. Ônibus, carros com adesivos de cerealistas e caminhões passam com frequência pelo caminho, margeado por casas de alvenaria, uma escola de ensino fundamental e médio, um minimercado, bar, uma igreja e seu pavilhão de eventos.

Rodovia que cruza o distrito

“É uma cidadezinha”, conta com certa satisfação o senhor de 80 anos de idade, que vive na comunidade desde 29 de maio de 1970. Como muitos pioneiros ali, Miolla veio do Rio Grande do Sul com a família, atraído por uma região com relevo mais próspero para a agricultura, segundo ele. Naqueles tempos, o negócio da madeira estava sendo substituído pelas lavouras de cereais, onde ele trabalhou boa parte da vida. 

Hoje, os moradores locais julgam que os frigoríficos instalados nos municípios vizinhos tenham contribuído para o aumento da população, de cerca de 500 habitantes, contando moradores da vila e das propriedades rurais. Ajuda também o fato de Vista Alegre ser um ponto de convergência. Seu trevo está a menos de 20 Km de três municípios: Coronel Vivida, São João e Itapejara D`Oeste.

Até cerca de 13 anos, os assuntos nos bares de Vista Alegre iam pouco além das trivialidades da vida cotidiana. As coisas mudaram quando o vilarejo passou a ser frequentado por visitantes pouco comuns: cientistas, alguns estrangeiros, com um interesse particular por pedras. Seu Miolla lembra, inclusive, de ter ciceroneado um japonês até uma pequena pedreira existente nas redondezas. 

Aos moradores diziam que a curiosidade estava em uma cratera na região, gerada há muito tempo pelo impacto de um meteorito. Em quase 50 anos de moradia, nem Miolla nem nenhum outro morador havia imaginado algo assim, tanto que muitos demoraram para se convencer. 

Adir Miolla mora na comunidade há 47 anos

 

O pioneiro conta que até hoje tem gente que não acredita na tal cratera. Dona Cecília, outra moradora há décadas de Vista Alegre justifica a descrença de alguns: não dá para ver o buraco, então onde ele está? A questão é que a cratera não está em Vista Alegre, é a vila que está dentro dela.

Bordas
Partindo de Coronel Vivida pela PR-562 é possível notar diferenças significativas e abruptas no relevo. A começar pela serra de São Braz, onde a estrada se transforma de um declive cheio de curvas para uma linha relativamente reta em seu pé. 

O caminho permanece praticamente assim até o trevo de Vista Alegre, no outro extremo da cratera. Ao redor e ao longe se vê uma borda de colinas. À esquerda está o Rio Chopin, e à direita, nos morros, um mirante, de onde se pode ver a dimensão da cratera, e também imaginar o tamanho do estrago. São cerca de 10 km de diâmetro, uma cicatriz gigantesca de um impacto muito violento.

Vista, a partir do mirante da Cratera de Vista Alegre

 

Impacto
Quando o objeto que gerou a cratera de Vista Alegre atingiu o solo, a região era bastante diferente. Não havia por ali a paisagem e a vida animal de hoje, e muito menos gente. 

Coronel Vivida e o Paraná eram provavelmente uma grande superfície de basalto, uma vista mais próxima de algo desértico, plano com relevo suave. Provavelmente, pois por enquanto tudo o que se pode dizer a respeito das características do terreno no momento do impacto é especulação. Isso porque a própria idade da formação ainda é provisória: 114 milhões de anos.

Quem calcula é Alvaro Penteado Crósta, o cientista que provavelmente conhece melhor as características da formação. O geólogo e professor-titular de Geologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi o responsável pela descoberta da cratera. “Como as rochas da superfície encontram-se relativamente alteradas por intemperismo químico, não foi possível obter uma idade precisa”, justifica.

Para chegar mais perto do tempo de existência de Vista Alegre será preciso cavar um pouco mais, cerca de 100 a 150 metros, e analisar rochas sem alteração, algo que Crósta pretende fazer assim que obter recursos.

A cratera em foto de satélite. Imagem mostra o tamanho da formação
(Imagem: Google)

Vista Alegre faz parte de um grupo particular de crateras. Além dela há apenas outras duas crateras de grandes dimensões formadas em rochas basálticas em todo o mundo: a de Cerro do Jaraú, no Rio Grande do Sul, e a de Vargeão, em Santa Catarina. As três estão na chamada Formação Serra Geral da Bacia Sedimentar do Paraná.

“Por esse motivo, elas têm uma importância grande para os estudos comparativos das superfícies de outros corpos planetários, inclusive a Lua, Marte, Vênus, cuja composição é semelhante aos basaltos”, explica o geólogo.

Até dá para estimar o tamanho do objeto que atingiu Vista Alegre: aproximadamente 600 metros de diâmetro, o equivalente a cerca de quatro quadras da região central de Pato Branco. 

O que era o objeto, se cometa, ou asteroide, por exemplo, já é outro assunto. Isso porque não sobrou muito dele para contar história. A violência do impacto foi tão grande, que o corpo literalmente virou pó. 

Segundo Crósta, o impacto gerou uma intensa onda de choque, seguida de uma onda de calor, e depois uma chuva de rochas, sólidas e incandescentes. Quanto mais perto do epicentro, maior o estrago, que pode ter se alastrado por um raio de cerca de 150 km. 

“Em um raio de até aproximadamente 50 a 75 km a partir do ponto de impacto, seres vivos, árvores e estruturas (construções) que porventura pudessem existir no momento do impacto teriam sido completamente destruídos”, completa Crósta. Ou seja, se fosse hoje, não sobraria muita coisa em pé em algumas das principais cidades da região Sudoeste.

E as consequências não pararam por aí. O impacto também gerou uma nuvem de poeira, que ficou em suspensão na atmosfera por alguns meses, o que seria um problema, por exemplo, para a agricultura, caso imaginássemos o fenômeno acontecendo atualmente.

Apesar do cenário desolador e do tamanho de sua marca, o impacto de Vista Alegre é considerado relativamente pequeno pelo especialista. Vale lembrar que um evento parecido pode ter causado a extinção dos dinossauros.

Transformação
Além do buraco propriamente dito, a região de Vista Alegre ainda possui outros vestígios do ocorrido, como fragmentos gerados pelo impacto. O fenômeno também trouxe para a superfície rochas de camadas mais profundas do solo, como arenitos da chamada Formação Botucatu. Tais fragmentos, esbranquiçados, também podem ser encontrados em alguns locais da cratera.

Rochas polimíticas de impacto, formadas pela fragmentação das rochas basálticas e areníticas do local
(Foto: Acervo de Alvaro Penteado Crósta)

 

Crósta explica que a cratera foi preenchida parcialmente pelos fragmentos do impacto, e sua forma foi sendo redesenhada pelos efeitos de milhões de anos de erosão, o que a deixou, por exemplo, menos profunda.

Na avaliação de Eduardo Salamuni, professor doutor do curso de Geologia e da pós-graduação em geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as transformações decorrentes do impacto podem ter favorecido a qualidade do solo no local. 

De modo geral, o intemperismo químico no terreno basáltico do Paraná, causado especialmente pela água, gerou a característica e fértil terra roxa do estado. O impacto e o gradativo colapso das bordas deu uma força para o processo de intemperismo no local. “A cratera é uma grande bacia, que recebe água e o colapso das rochas de cima. O formato auxilia um intemperismo maior, e tendo, por exemplo, espessura de solo um pouco melhor do que nas bordas”, analisa.

Alguns exploradores de cachoeiras de Coronel Vivida especulam se a abundância de quedas d´água na região não seria também uma consequência do impacto. Um antigo levantamento feito no município apontou a existência de pelo menos 90 cachoeiras, que vão de dois a até 60 metros de altura.

Salamuni diz que não é improvável, mas não é possível validar a hipótese. “Há muitas cachoeiras no Paraná inteiro, que são decorrentes de fraturas geológicas, e também do avanço da erosão em função das camadas basálticas. Um local mais fraturado tem mais condições de observar cachoeiras, que é o caso de Coronel Vivida, em função do impacto. Agora, creio que não haja nenhum estudo que correlacione isso. Então não é possível afirmar”.

Grande parte dos moradores da comunidade são agricultores e operários, principalmente de indústrias avícolas 

 

Na ocasião da descoberta da cratera, Salamuni era presidente do Mineropar, empresa do Governo do Paraná então responsável por assuntos relacionados a geologia e minérios no estado. A entidade foi agregada recentemente ao Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITC), fusão que resultou na criação do Instituto de Terras, Cartografia e Geologia do Paraná (ITCG). À época se pensou em um projeto de turismo para a área, considerada pelo instituto um sítio geológico de interesse turístico. 

Descoberta
Julho de 2004, essa é a data que marca a descoberta da cratera de Vista Alegre. Alvaro Crósta determinou o achado por meio de um levantamento in loco, feito por ele e por membros de seu grupo de pesquisa na Unicamp.

A comitiva seguiu a pista de alguém que viu a formação de um ângulo privilegiado. Muitos anos antes, Osmar Kretschek, engenheiro florestal, havia identificado em fotos aéreas uma estrutura circular na região. 

A comunicação oficial da descoberta foi feita ainda em 2004, por meio de um trabalho apresentado por Crósta no congresso anual da Meteoritical Society, que naquele ano foi no Rio de Janeiro.

Segundo o especialista, a análise da formação envolveu a interpretação de imagens de sensoriamento remoto, que revelaram a estrutura circular. Em seguida, houve o levantamento de campo para coletar amostras e identificar rochas e deformações características de um impacto. Também foram feitas análises do material nos laboratórios da Unicamp.

A cratera de Vista Alegre ainda guarda várias incógnitas. Além da idade da cratera, as amostras de camadas mais profundas do solo também poderiam revelar a identidade do corpo celeste que atingiu a região, pois parte de sua “poeira” pode estar lá.  

Por enquanto, é possível contemplar a formação. A vista do mirante permite perceber o tamanho da transformação causada por um fenômeno tão extremo – de lá é possível ver inclusive algumas cidades. Vista Alegre é uma bela e rara lembrança do longínquo passado da região.

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