Entrevista

“Tive mágoas do Carlos Alberto e do Sílvio Santos, mas superei”

Sabe quando você conversa com uma pessoa pela primeira vez e parece que a conhece há muito tempo? Foi exatamente esta a impressão que tive ao entrevistar o Ivanildo Gomes Nogueira, que, por considerar o seu nome o mais feio do mundo, prefere hoje ser chamado de Batoré.

O humorista com 35 anos de história nasceu no dia 17 de abril de 1960, em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Quando tinha apenas 11 anos, ele e sua família resolveram “fugir” da seca para morar em Mauá/SP, local em que reside até hoje.

Paloma Stedile
Neste ano, o humorista completa 35 anos de carreira

Assim como a maioria dos nordestinos que se mudou para o Sul do país, buscando melhores condições de vida, Nogueira e sua família passaram por necessidades. Com isso, ele e seu irmão mais velho auxiliavam no sustento da casa, tanto engraxando sapatos, como vendendo amendoins, doces e limões, sendo que desde pequeno encarava a vida com bom humor e fazia suas “graças”.

Ainda na adolescência o garoto fez testes em alguns times de futebol, inclusive chegando a jogar profissionalmente. Contudo, aos 21 anos precisou abandonar o esporte, uma vez que sofreu uma grave contusão, em que quebrou seus dois tornozelos. A partir daí resolveu migrar para um novo caminho: o do humor.

Batoré está no Sudoeste neste fim de semana, apresentando o espetáculo “Simples assim”. O show de humor, como define, marca o seu retorno aos palcos, sendo que a estreia ocorreu em São Lourenço do Oeste, na quinta-feira (13).

Nesta sexta (14), por sua vez, os pato-branquenses tiveram a oportunidade de rir com seus “causos”, no Teatro Municipal Naura Rigon. Já neste sábado (15), a apresentação passa por Francisco Beltrão, no Espaço da Arte Eunice Sartori; enquanto no domingo (16) ocorrerá no Centro Cultural Arte e Vida, ambos às 20h.

Em sua passagem por Pato Branco, o humorista esteve no Diário do Sudoeste para conceder uma entrevista exclusiva. Nela, ele conta um pouco da sua trajetória, bem como o motivo de sua saída do programa “A praça é nossa”, no SBT, e o retorno às telinhas na recente novela “Velho Chico”.

Diário do Sudoeste: Como tudo começou na área do humor?

Batoré: Fui jogador de futebol até os 21 anos. Tive uma contusão muito séria e parei de jogar. E aí têm duas coisas, que geralmente conto no meu show e jamais tive coragem de fazer na minha vida e jamais farei: acordar cedo e trabalhar. Isso aí não está em mim, entendeu? (risos). Assim, como eu já contava piadas na roda dos amigos, só passei a cobrar, já que não ia ter coragem de trabalhar mesmo.

Na verdade eu comecei no programa “Barros de Alencar” da TV Record, na década de 80, participando de shows de calouros. Devido à dificuldade em andar com os gessos, que usei após a contusão no jogo, criei o personagem Câmera Lenta, que venceu o concurso neste programa. Com isso, surgiu o contrato no programa “Viva a noite”, no SBT, com esse mesmo personagem, entre 1988 e 1993.

Na sequência fiz figuração no “A praça é nossa”, no SBT, sendo que depois de seis meses o Carlos Alberto de Nobrega me deu a oportunidade de apresentar o Batoré, que foi o maior sucesso na praça nos 11 anos que fiquei lá, entre 1993 e 2004.

Como surgiu o Batoré? Foi criado específico para a Praça?

O Batoré surgiu porque eu lia muito gibi. Então é “Ba” de Batman, “to” de capitão Thor e o “ré” de “rédiculo”. Então ficou Batoré. Na verdade eu imitava um amigo, um vizinho que andava todo tortinho. Aí foi que eu criei o personagem, com biotipo nordestino, com roupas nordestinas, mas com o cotidiano nacional. Então tanto o cara do Rio Grande do Sul, como do Rio de Janeiro, tinha o cotidiano que o Batoré tinha.

Eu o criei para o “A praça é nossa”, mas ainda penso em fazer um filme de despedida dele, por meio de um longa-metragem. Afinal, o Batoré marcou a geração, porque é um personagem que não merece acabar sem ser coroado.

Mas o apelido ficou para sempre?

Sim, tanto é que eu fiz questão que Batoré fosse o nome que aparecesse nos créditos da Globo, quando fiz recentemente a novela “Velho Chico”. A princípio, eles queriam colocar Ivan Gomes ou Ivanildo Gomes Nogueira. Mas eu insisti que fosse Batoré.

Você não gosta do seu nome?

Ivanildo é o meu nome de batismo, mas é o nome mais feio do mundo. Eu não falo para ninguém, mas eu tenho vergonha. Ivanildo parece nome de comprimido para dor de cabeça. Então meu nome hoje é Batoré e não tem jeito.

Após 11 anos de história no “A praça é nossa”, você encerrou a sua participação no SBT. O que motivou a sua saída?

Em 2004, a emissora passou por um momento de contenção de despesas. E para algumas pessoas eu tinha um salário alto, o que eu não acho, porque eu dava resultado. Acredito que caro é quando não te dá retorno. E aí eu fui colocado em uma relação de artistas que foram desligados, isso me chateou no momento, claro!

Afinal de contas, um pai de família ficou desempregado, sendo que não me via em outra emissora. Tanto que, antes disso, rejeitei dois convites da Globo, por amor e fidelidade ao “A praça é nossa”. E no fim aconteceu isso.

Não vou ser hipócrita em dizer que não tive mágoas do Carlos Alberto de Nóbrega e do Sílvio Santos, porém hoje superei isso. Tanto que outro dia Carlos Alberto e eu nos falamos por telefone e ele me elogiou muito quanto ao “Velho Chico”. Enfim, não temos mais idade para ficar brigando.

E você voltaria para o “A praça é nossa” hoje, se eles te convidassem?

Hoje estou em outra vertente, inclusive à beira de outro trabalho com a Rede Globo. Ainda não sei o que é ainda, pode ser uma novela, uma série ou um programa de humor. Eles só me falaram para eu descansar, porque realmente é exaustivo. Ficaram surpresos com o que eu fiz.

Meu contrato hoje com a Globo é por obra, mas eles pediram para eu não me amarrar com ninguém. E, como não há como emendar uma obra na outra, estou tendo esse intervalo.

Essa foi a sua primeira atuação em novelas?

Isso, “Velho Chico” foi a minha primeira novela. Isso me deixou muito feliz. A princípio faria uma participação na primeira fase e acabei ficando a primeira fase inteira com o delegado Queiroz. Depois acabei sendo convidado para ingressar na segunda fase, que se passavam 30 anos,  e virei o secretário de Segurança Pública, que era um “secretino”, na verdade.

Graças a Deus, o personagem cresceu muito, pois eles me deram a oportunidade de improvisar. Claro que eu não podia fugir do conteúdo da obra, não poderia comprometê-la. Mas nos momentos que não fossem tão intensos, tão sérios, eu poderia fazer humor com algum cuidado.

Assim, o personagem cresceu e caiu na graça popular. Tanto que uma pesquisa que a Globo fez me deixou muito orgulhoso, porque eles dizem que eu consegui algo que pouquíssimas pessoas conseguem, que é ser amado e odiado pelas mesmas pessoas. Então isso foi uma surpresa muito grande.

Voltando um pouco na questão de sua saída das telinhas, em 2004. Você parou de atuar como Batoré nesse período? Como foi essa fase?

Por um período segui na política, como vereador em Mauá/SP. Resolvi parar um pouco com a atuação, pois precisava viver. Não parece, mas apesar de ser algo que não carrega peso, há desgaste psicológico e físico, com viagens de avião (que morro de medo). Eu precisava viver um pouco.

Agora, com a novela, estou me sentindo como se estivesse começando outra carreira, porque novela é outra vertente. Para vocês terem ideia, nesses cinco meses de Rede Globo a minha projeção foi maior do que a minha carreira inteira. É uma coisa impressionante.

E como jamais largarei o humor, agora estou voltando aos palcos também, porém sem mais aquela necessidade da sobrevivência, estou mais maduro também. Agora a ideia é trabalhar, de maneira mais prazerosa, saboreando esse novo momento em minha vida.

Esse espetáculo que você está apresentando no Sudoeste do Paraná então é sua reestreia nos palcos?

Exatamente, estamos retomando agora. A pedido do professor Rogério de Moura Izidoro (Jamelão), amigo de infância, resolvemos estrear esse show de humor aqui, denominado “Simples assim”. Em 2002, passei por aqui, em outra apresentação, e foi muito bom, com teatro cheio. Depois dessa passagem pelo Sudoeste, o nosso destino será Alagoas, com apresentações entre os dias 19 e 21 de outubro.

Como você define seu show?

Simples! Nunca fiz questão de ter cenário, até para quem vá se identifique. Para que a pessoa não tenha a impressão de que o teatro é para o “granfino”, o rico. Porque, por exemplo, se uma pessoa que não tenha um nível cultural elevado vai ao teatro pela primeira vez e assiste William Shakespeare, nunca mais volta. O show de humor não, faz com que as quatro paredes se tornem algo que possa fazer parte da vida dela.

É um humor semelhante aos de Stand Up?

É um show de humor, sendo que quem tem bexiga solta deve levar um pinico ou uma garrafa pet. Está muito em moda o Stand Up, uma americanização que se intitula no humor americano.

Porém, o meu é um humor na linha do Chico Anysio, na linha do Tom Cavalcante. Eu acho que o importante do humor é ele ter graça ou não ter graça, são dois tipos pra mim. O meu tem (risos).

Entretanto, vale destacar que o Stand Up também tem um benefício muito grande para o humor, porque  rejuvenesceu o público de teatro. Também tirou aquele estigma de que tinha que ser feio para ser engraçado.

Eu peguei a época que tinha que ser feio. Eu não sou feio, então eu tive que me fazer feio para poder ser engraçado (risos). Então, se eu pegasse a época que não precisasse ser feio, hoje eu não seria tão feio assim...

Quem você acredita que seja promissor hoje?

O Danilo Gentili é um cara bem aparentado. É diferente de mim, que sou um cara bem apanhado. Apanhei bastante, principalmente na cara. E o Danilo eu acho que é o melhor humorista dessa nova geração do Stand Up.

Como também tem o Rafinha Bastos, que eu acho ele bastante inteligente, mas ele tem um humor muito ácido. Ele não está preocupado se vai denegrir você, se vai te ofender. Ele quer fazer graça. Aí eu acho que não é legal.

Mas têm outras pessoas muito talentosas, como o Fábio Porchat e o Marcelo Adnet. Porém, o Adnet gostava mais quando estava na MTV, quando ele era ele. Acho que a Globo não achou ainda um programa ideal para ele. Mas ele é muito bom.

E quanto aos antigos, quem você considera o melhor?

Não podemos, em momento algum, achar que há alguém melhor que o Chico Anysio. Ele foi o melhor humorista do mundo. Foi o único cara que conseguiu fazer 248 personagens, você sabendo que era o Chico Anysio, mas você não via o Chico atrás do personagem.

O que o Ivanildo Gomes de Nogueira tem em comum com o Batoré?

Ah, eu acho que consigo passar para o Batoré a visão que eu tenho das coisas. Da forma que eu vejo as coisas ao meu redor. Sou muito atento, tenho raciocínio muito rápido, daí vem a dificuldade que eu tenho para decorar. Mas hoje eu tenho um nome, o cidadão é Batoré, o humorista é Batoré, o ator é Batoré, enfim, eu sou o Batoré.

Classificados