Saúde

Terapia acessível

Desde que faz parte da comunidade de surdos, a psicóloga Luciana Bica sempre lutou para que o sujeito surdo tivesse os mesmos direitos e oportunidades que o ouvinte

Há algumas décadas, os cuidados com a saúde mental vêm ganhando um espaço crescente na vida das pessoas. Não sem motivo: o dia a dia é uma correria, vivemos sobrecarregados e sempre sofrendo pressão para produzir mais, para fazer mais, para realizar mais, para sermos melhores. Com tantas cobranças, não há cabeça que aguente, e problemas como estresse se popularizaram.

Mas não é só o corre-corre que nos afeta. Há diversos fatores, inclusive genéticos, que pedem acompanhamento psicológico.

Conforme a pedagoga e psicóloga, que também é graduada em Letras – Libras, Luciana de Freitas Bica, a psicoterapia é indicada para qualquer pessoa. “Ao contrário do que alguns pensam, não precisamos estar fora de nós para procurarmos ajuda. Talvez para que isso não aconteça, a terapia é indicada”, diz.

Isso porque esse tipo de acompanhamento, conforme diz Luciana, é uma ferramenta para poder analisar nossos problemas a partir de um outro olhar, onde não exista julgamento.

“É um processo de autoconhecimento, conexão e regulação das emoções, ressignificação de crenças, compreensão das relações, avaliações de papéis abertura a mudanças e empoderamento”.

A psicóloga explica que a terapia é um processo onde o paciente, com a ajuda de um profissional treinado e capacitado, entende os motivos, ou causas, dos problemas que podem ser um bloqueio em sua vida, podendo descobrir novas maneiras de reagir em certas situações, a partir de uma nova compreensão de seu modo de funcionar emocionalmente.

Justamente por isso, a terapia funciona como prevenção, e essa deve ser a maior preocupação de todas as pessoas quando o assunto é saúde mental. Reforçando: de todas as pessoas.

Mas se a terapia consiste em uma conversa, como ficam os deficientes auditivos?

A diferença está na língua

Foi para atender a essas pessoas que, durante a graduação, Luciana fez um curso de Libras básico. “Encantei-me com a língua, e desde então, há sete anos, estudo Libras”, conta.

Há quatro anos, ela foi convidada a conhecer a Feneis (Federação Nacional dos Surdos), que tem sede em Curitiba, e desde então atua como voluntária. Também já ministrou aula de Psicologia da Educação, no curso de Instrutor Surdo, para alunos surdos.

E como a psicoterapia pode ajudar a mudar a realidade de qualquer pessoa, o ser humano pode trazer problemas ou traumas da infância. No caso dos deficientes auditivos, isso pode ser ainda mais comum, com uma emoção forte atrelada à sua condição, que não foi devidamente acolhida ou elaborada na época e que acabam refletindo em situações menos favoráveis.

“Quando o problema é compreendido na terapia, tudo vai acomodando-se, dando sentido a várias outras situações e emoções até então não entendidas. A partir daí, a pessoa pode escolher como continuar vivendo, geralmente com mais autenticidade, e confiança em si, aprendendo a colocar-se no lugar do outro, assumindo a responsabilidade por suas decisões, tendo mais clareza de seus sentimentos e entendendo o porquê de muitas atitudes, vivenciando cada escolha que faz com responsabilidade”, afirma a especialista.

Em um processo psicoterapêutico, existem várias possibilidades, todas elas exigem uma relação intersubjetiva, para que esse tão sonhado autoconhecimento aconteça. “É sabido que ninguém pode transformar ninguém, mas dificilmente alguém se transforma sozinho. No caso do paciente surdo, eu trabalho a demanda trazida por eles, que não difere em nada das que os clientes ouvintes trazem para sessão”, define.

Atendimento

Para atendê-los, Luciana costuma utilizar a abordagem Sistêmica. “A Terapia Relacional Sistêmica foca nas relações, entende que o indivíduo é integrado ao seu meio familiar e sociocultural. O paciente em processo terapêutico precisa tomar consciência do seu funcionamento e das suas dificuldades para que as mudanças ocorram e, assim, ter como treinar os novos comportamentos, atitudes, sentimentos e responsabilizar-se por elas”.

No entanto, ela não se limita a somente essa abordagem. “Durante a graduação, os meus atendimentos eram baseados no Psicodrama”, lembra.

No caso de atendimentos aos surdos, ela considera vários aspectos, como se o paciente é de uma família ouvinte ou de família com pais surdos; o ambiente socioeconômico; o nível de capacidade auditiva (leve, moderada, severa, profunda, uni ou bilateral); o nível de oralidade/ leitura labial e sinalização em língua de sinais, por exemplo.

Isso porque, explica Luciana, todas essas peculiaridades exigem do profissional uma postura maleável, eclética, além da possibilidade de ter que intervir em conflitos familiares, por isso é necessário um olhar ao sujeito como um todo.

“Com base em minha experiência clínica de atendimento ao surdo, iniciada em 2014, já consigo fazer uma avaliação desse período, das dificuldades enfrentadas nesses atendimentos. Poucos são os profissionais de psicologia que se interessam de forma definitiva por esse novo desafio, provavelmente pela dificuldade do aprendizado da Libras, indispensável ao trabalho terapêutico com os surdos”, reflete.

É importante salientar que não basta aprender Libras e iniciar o atendimento. Para atender deficientes auditivos é essencial uma constante convivência com a comunidade surda, para que se possa compreender sua cultura e identidade, além da habilidade para lidar com as diferenças. “No meu caso, é uma constante troca. Evoluímos juntos durante a psicoterapia, é um aprendizado diário”.

Inclusão

Conforme a experiência de Luciana, o deficiente auditivo tem uma dificuldade enorme de lidar com as emoções e sentimentos. “Não porque seja diferente dos ouvintes, mas pela carência de profissionais que contemplem suas peculiaridades, no caso Libras”.

Ela diz que, durante esses anos que tem contato com a comunidade surda, conheceu alguns profissionais que fazem atendimentos com a presença de intérpretes, e acredita que essa prática limita e dificulta o processo terapêutico.

Para tentar reduzir essa limitação, Luciana, que também trabalha na Fadep (Faculdade de Pato Branco), é responsável, ao lado do professor Heron, pelo curso de extensão de Libras na Instituição. “Esse ano temos três formandos em psicologia na turma. Sempre que possível, incentivo os acadêmicos de psicologia a conheceram Libras”.

Ela diz que a procura de terapia por deficientes auditivos é grande, tanto de surdos quanto comunidade surda, que são os ouvintes que participam de associações ou tem contato nas escolas, faculdades, amigos surdos. “A maior parte do meu atendimento é por indicações, atendo regularmente pais ouvintes com filhos surdos”, revela.

Feneis

Hoje, Luciana está à frente da Feneis, uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, que tem por finalidade a defesa de políticas em educação, cultura, saúde e assistência social, em favor da comunidade surda brasileira, bem como a defesa de seus direitos.

“Temos sete sedes no Brasil, no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e no Ceará. No Paraná, no mês de setembro, faremos 16 anos. Vamos ter um seminário comemorando essa data em Curitiba”, informa.

Pela Feneis, Luciana viaja para o Brasil todo ministrando palestras. “Já fiz atendimentos em outras cidades do Paraná, mas agora, com o site, ficou mais fácil oferecer acessibilidade ao sujeito surdo de qualquer lugar do Brasil”, diz.

Site

O Conselho Federal de Psicologia já autorizava o atendimento online há alguns anos, e até esse momento Luciana estava viajando e fazendo o possível para atender a demanda. “Foi o pedido de um paciente surdo do Rio de Janeiro que de fato fez com que pensasse seriamente na ideia. Então entrei com a solicitação no Conselho Federal”, comenta.

Há duas semanas, Luciana colocou o site na rede, e ele está sendo acessado por ouvintes e surdos de todo o país, inclusive por colegas solicitando informações sobre a formação em Libras e também pedidos de supervisão de recém-formados em psicologia. “É um projeto pioneiro na região e motivador para qualquer profissional dessa área”, revela.

Quem quiser conhecer melhor o trabalho de Luciana pode acessar www.psicolibrasluciana.com.br, ou sua página com artigos sobre o trabalho, em facebook.com/psicolibras.

 

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