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Suingue estrangeiro

Eles vieram para o Brasil trazendo na bagagem sonhos, vontade de trabalhar e também música. Esses são os integrantes da Nu.K.Fel, uma banda de imigrantes haitianos

Helmuth Kühl

Abelandy Thelot, jornalista diplomado, operário e vocalista da Nu.K.Fel

Jean Innocent Weslet caminha pela rua vestindo uma camiseta amarela berrante, bermuda e boné, um look simples que se tornou uma espécie de uniforme dos imigrantes haitianos em Pato Branco. Por isso, ele pode passar despercebido, como mais um trabalhador que deixou sua terra natal desolada para ganhar a vida no Brasil. Ele é isso e mais um pouco.

Jean é mecânico, tem 30 anos de idade e saiu do Haiti há cerca de 5 anos. Buscou saber em quais países encontraria mais oportunidades com menos burocracia. Morou no Equador por alguns meses e depois embarcou para Manaus. Não aguentou o calor da Amazônia e decidiu se mudar para Pato Branco, onde de segunda a sexta trabalha no setor de assistência técnica de um frigorífico.

Aos sábados ele descansa e ensaia. Jean é baterista desde criança, e um dos líderes da banda Nu.K.Fel, um supergrupo com nove integrantes, todos haitianos. A turma se ajeita para caber no estúdio de uma escola de música no centro de Pato Branco, onde os ensaios acontecem. Naquele dia a preparação era especial, já que horas depois eles fariam um show em Itapejara d´Oeste.

São dois vocalistas, dois percussionistas, dois tecladistas, um contrabaixista, um guitarrista e um baterista, que pelo jeito trabalham muito bem. “A banda é um reloginho”, opina Jean Venâncio, proprietário da escola, querendo dizer que o som dos instrumentos não se sobrepõem.

Conheci a Nu.K.Fel em um evento no Teatro Naura Rigon e também gostei do que ouvi. Havia vários haitianos na plateia, extasiados com aquele som enraizado na música caribenha, mas moderno o suficiente para tocar na rádio. Era a kompa, a música tipo exportação do Haiti e paixão nacional. Foi difícil manter a compostura e não sair dançando.

Helmuth Kühl

Jean, na bateria, e Ronald, na percussão. Núcleo base da banda

Jean Weslet e seu grupo não são apenas “brothers que tocam juntos no fim de semana”. Para eles, música sempre foi coisa séria. Boa parte estudou formalmente, fez parte de outras bandas e alguns eram músicos profissionais. O núcleo base da Nu.K.Fel é formado por Jean e Ronald Francois, 27, percussionista. Ambos são amigos de infância e filhos de músicos, mas foi na igreja que aprenderam os primeiros acordes. Tocaram juntos em vários grupos, gravaram um EP e chegaram a se apresentar na República Dominicana, vizinha do Haiti.

Ronald vivia só de música, e Jean, além de mecânico, também trabalhava na polícia. Essa era a vida, até que em 2010 um terremoto de magnitude 7 matou cerca de 300 mil pessoas, e complicou ainda mais a situação do país, que já sofria com uma grande instabilidade política.

Brasil

As imagens de cidades destruídas e de pessoas em estado miserável divulgadas pela imprensa brasileira mostram apenas uma face da tragédia no Haiti. Há pessoas no país que sofreram mais no bolso do que na pele as consequências do terremoto, principalmente em cidades mais distantes do epicentro. Foi a economia em frangalhos que motivou a imigração dos músicos e alguns outros conterrâneos, que na grande maioria ocupam vagas em linhas de produção industrial, na construção civil e outros setores.

Abelandy Thelot, 26, um dos vocalistas da Nu.K.Fel, é filho de um advogado, jornalista diplomado e trabalha como assistente de produção no Brasil. Começou cantando na igreja antes de migrar para as bandas de kompa e se apresentar em casas de show. Ele está no Brasil há um ano, e entrou para a banda em Pato Branco, assim como parte dos outros integrantes.

Helmuth Kühl

Grupo é formado por nove integrantes

Jean David Destin, tecladista virtuoso, é engenheiro civil. A maioria deixou pais, filhos ou mulheres no Haiti. Ronald trouxe a mulher, e quer comprar uma casa para trazer o filho. Segundo ele, o povo haitiano já gostava do Brasil antes mesmo de as relações entre os países se estreitarem - a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) é comandada por militares brasileiros – e foi o futebol quem fez nossa propaganda.“Todo haitiano gosta do Brasil. Quando houve o amistoso entre a seleção brasileira e a do Haiti, todos pararam para assistir”, lembra Ronald.

Música

Os clássicos de grandes grupos e artistas de kompa formam a base do repertório da Nu.K.Fel, que tem uma composição própria. Como quase toda canção pop chiclete, as letras falam de romance, de amores idealizados ou relacionamentos interrompidos.Na música brasileira, os artistas identificaram no sertanejo universitário um correspondente direto, tanto que em seus shows arriscam um cover de “Fui Fiel”, de Gusttavo Lima.

Jean conta que a banda está ensaiando outras músicas, e já tem uma composição em português, “Eu quero você”, que fala sobre a vontade de permanecer ao lado de uma mulher. “Queremos que os brasileiros nos entendam”, justifica o baterista sobre a canção. A vontade não é só uma questão de diplomacia. Ninguém pensa em voltar pra casa tão cedo, e Jean até sonha em viver de música ou conquistar uma renda extra com ela. Quem sabe a música ajude a aproximar ainda mais o Brasil de seus visitantes.

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