Vanilla

Samu 192

Acompanhamos o trabalho dos socorristas do Samu, e conhecemos os desafios, as recompensas e as histórias dos profissionais cujo dever é salvar vidas

Matéria publicada originalmente na revista Vanilla em outubro de 2017. Fotos: Helmuth Kühl

Era pouco depois das sete horas de uma manhã fria de terça-feira, fim de setembro, e o condutor socorrista Juarez Miniuk de Arruda limpava o piso de uma ambulância estacionada no pátio da central de regulação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, em Pato Branco. Ele recém havia assumido seu turno, e verificava se o veículo estava em ordem para a próxima ocorrência, que poderia acontecer a qualquer momento. 

A ambulância havia sido utilizada na noite anterior para socorrer a vítima de um acidente de moto, e algumas poucas manchas de sangue ainda restavam do atendimento. Após o serviço de limpeza e desinfecção, ele se dispôs a responder algumas perguntas.

Profissionalmente, Juarez já atuou como vigilante em diferentes órgãos públicos, e decidiu prestar o concurso para o Samu por gostar de trabalhar próximo às pessoas. E ele acrescenta que este é um critério fundamental para ser “samuzeiro”. “Primeiramente é preciso gostar”, frisa.

Vanilla acompanhou uma manhã de trabalho dos profissionais do Samu, e é fácil entender o que Juarez quis dizer. Apesar do treinamento, de fato não é para qualquer um estar exposto a situações de alta tensão, onde vidas dependem do seu trabalho e exercer sua função com serenidade.

Para quem vê de fora, Juarez é apenas um motorista, mas seu trabalho é bem mais complexo do que parece. Sua rotina começa com a verificação das condições mecânicas da ambulância, itens como água e óleo do motor, e outras análises de praxe para o bom funcionamento de qualquer veículo.

Juarez Miniuk de Arruda, condutor socorrista


Em seguida vem o checklist de equipamentos, desde cones de sinalização até pranchas e equipamentos de socorro. Juarez, assim como qualquer outro condutor do Samu, precisa ter o curso de socorrista, e além de guiar bem, conhecer o trânsito e a região onde deve circular, precisa conhecer todos os equipamentos da unidade, caso seja necessário, por exemplo, levar uma sonda ou um aspirador portátil até o médico. Apesar disso, cada profissional possui suas atribuições, limites estabelecidos por protocolos e que não podem ser ultrapassados.

Isso foi tudo o que ouvimos do condutor até a conversa ser interrompida para o atendimento de um chamado. Era o primeiro daquele turno, e dos três que aconteceriam enquanto estivemos na central. 

O número nos surpreendeu, por estarmos longe do dia e horário de maior movimento, geralmente após às 18h e principalmente às sextas-feiras. Logo nos foi esclarecido que não havia nada de extraordinário, pois não há dias sem ocorrência, e nunca é apenas uma. 
 
Ao receber o alerta, com informações sobre o que se tratava, a equipe adentrou a ambulância, e em poucos segundos estava a caminho. Mas diferente do que se costuma imaginar, o atendimento não começa com a partida do veículo. Juarez e seus colegas de unidade móvel são engrenagens de uma estrutura maior e mais complexa.

“Samu, 192”
No prédio anexo ao pátio onde ficam as ambulâncias está a central de regulação, onde ficam os profissionais que aguardam o telefone tocar. De acordo com Gerson Luiz Leonarski, Coordenador Geral de Enfermagem, é nessa sala que caem os telefonemas vindos de toda região. Gerson acompanhou nossa equipe durante a visita, e forneceu várias informações a respeito do funcionamento do serviço.

O Samu no Sudoeste é gerido por um consórcio intermunicipal, o Ciruspar, que envolve os 42 municípios da região. Ao todo são 16 ambulâncias, distribuídas em 10 bases descentralizadas: Realeza, Santo Antônio do Sudoeste, Francisco Beltrão, Dois Vizinhos, Pato Branco, Coronel Vivida, Chopinzinho, Mangueirinha, Clevelândia e Palmas. São localizações estratégicas para atender a uma população de mais de 600 mil habitantes.

Ao discar 192, o solicitante será atendido por profissionais como Elisangela Grando e Edilaine Aparecida Luz, técnicas de enfermagem, que no Samu exercem a função de Técnicas Auxiliares de Regulação Médica.

Central de regulação do Samu no Sudoeste


São elas que vão investigar informações preliminares como o motivo da ligação, se o solicitante está perto do paciente, sua idade aproximada, sexo, e um dado essencial: o endereço da ocorrência. 

Em cinco anos de funcionamento, os profissionais do Samu precisaram – e ainda precisam - lidar com um desafio: a falta de informação a respeito de seu trabalho. O entendimento geral da população com relação a atendimentos de urgência se resume a acreditar que basta dizer “preciso de uma ambulância” para que o veículo seja encaminhado, carregue a vítima e siga correndo para o hospital mais próximo.  

Tal crença mostra suas consequências já no telefone. Elisangela conta que em alguns casos, a informação sobre o endereço chega imprecisa ou incompleta. Também há quem questione o porquê de tantas perguntas, já que se trata de uma situação urgente. 

Equipe rumo a mais um atendimento


Elisangela explica que sem os dados sobre o endereço, por exemplo, a ambulância pode não conseguir chegar ao local, e que entender o contexto da situação é fundamental para o início do trabalho de regulação, feito pelo médico. É para ele que a ligação é transferida, assim que o técnico auxiliar obtém as informações que lhe são necessárias.

Ao médico, não cabe apenas aplicar seus conhecimentos técnicos. Ele precisa conhecer profundamente a estrutura de saúde do Sudoeste. Saber, por exemplo, onde estão os hospitais com os especialistas necessários para atender a cada situação.

É também o médico da regulação que vai orientar o solicitante sobre como proceder com a vítima até a chegada do socorro, isso se o envio da ambulância for necessário. Ainda por conta do senso comum, não raro, tais etapas são entendidas pela população como fator de atraso, que colocariam a vida da vítima em risco.

Raquel Caleffi, médica do Samu, garante que é exatamente o contrário. O trabalho de triagem é feito exatamente para prestar o atendimento e os encaminhamentos mais adequados para cada situação. 

Ela conta, que na central do Serviço chegam diversos tipos de solicitação, desde febres e gripes até acidentes de trânsito ou problemas clínicos graves. Para o médico, portanto, é fundamental ter informações - como por exemplo, se o paciente está respirando e conversando - pois é através delas que o atendimento será feito. “Cabe a nós selecionar as informações importantes, e trabalhar com elas, pois vamos assimilar o que foi dito e optar por mandar (uma ambulância), somente orientar, ou buscar outros meios. Pois não é só enviar a ambulância, temos que selecionar a informação, para mandar corretamente a ajuda”, completa a médica.

Enquanto nos guiava e explicava a estrutura do Samu, Gerson citou um exemplo que ilustra a importância da regulação. Em um acidente de trânsito hipotético entre Pato Branco e Coronel Vivida; se a vítima precisar do atendimento de um médico especialista, pode ser mais adequado encaminhá-la para um hospital de Pato Branco que tenha o profissional à disposição, mesmo que o local do acidente esteja mais próximo de Coronel Vivida.

Da direita para a esquerda: Gerson Leonarski, coordenador geral de enfermagem; Sandra Ferreira, técnica de enfermagem; e dois profissionais recém admitidos na ocasião


O Samu não atua de forma isolada. Também cabe ao médico articular a atuação com o Corpo de Bombeiros, e a estrutura das secretarias municipais de saúde quando necessário. Raquel  explica ainda que as ambulâncias também realizam transferência de pacientes entre Unidades de Terapia Intensiva de hospitais.

De acordo com informações do Ciruspar, nos meses de agosto e setembro de 2017, a grande maioria das ocorrências registradas pelo Samu na região foram de problemas clínicos – cerca de 1600 no total. Em seguida, vem os traumas – 793 no total. Aqui entram as consequências de acidentes de trânsito ou mesmo quedas que resultam em fraturas. Foi um desses casos que acompanhamos.

Atendimento
A estrutura do Samu conta com dois tipos de ambulâncias, a Unidade de Suporte Básico, chamada internamente de Bravo, e a Unidade de Suporte Avançado, chamada de Alfa. 

A unidade básica conta com dois profissionais: um condutor socorrista e um técnico de enfermagem socorrista, que atendem situações de menor gravidade, e está equipada para tal. Já a unidade avançada é conhecida popularmente como UTI móvel, e conta com um médico e um enfermeiro, além do condutor socorrista. Nela estão os equipamentos e medicamentos encontrados em qualquer UTI hospitalar.

Interior de uma das unidades de atendimento móvel


Por volta das nove da manhã, uma unidade básica foi encaminhada para uma escola de Pato Branco. Uma criança havia caído e fraturado o braço. A equipe era formada por Sandra Ferreira, técnica de enfermagem, e Gauer Polo, condutor socorrista. 

Sandra atua na área da saúde há 21 anos, e interessada pela área de urgência e emergência, prestou o concurso para o Samu, onde trabalha há cerca de quatro anos e meio. Para ela, estar no atendimento pré-hospitalar é algo gratificante. “Você atende um paciente e vê-lo bem depois de um tempo é uma recompensa”.

Ela lembra de uma situação em especial. A de um senhor que estava em um consultório médico para uma consulta de rotina e apresentava um quadro de parada cardiorrespiratória. O paciente foi atendido, encaminhado para o hospital e seu quadro foi revertido. Seis meses depois da ocorrência, Sandra soube que o senhor está vivo e se recuperando. 

Seu colega, Gauer, lembra de uma ocorrência parecida, que marcou por ser a primeira que atendeu enquanto profissional do Samu, onde trabalha há um ano e meio. Antes, era motorista de ônibus.  

A situação aconteceu em Palmas, onde estava por conta do deslocamento de um técnico. A vítima era uma senhora, idosa e acamada há muito tempo, que sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

Gauer conta que a experiência contribui para o controle da tensão, que costuma ser maior nas primeiras ocorrências. Também ajuda o fato de trabalhar com uma equipe altamente profissional, diz ele, que estão em constante diálogo e cooperação.

Gauer Polo, condutor socorrista


No trajeto até a escola, Gauer e Sandra conversaram sobre os procedimentos que tomariam assim que chegassem ao local. Chegando lá, ambos desembarcaram com os equipamentos e seguiram até onde a vítima estava. A criança parecia calma, possivelmente resultado do trabalho feito por regulação e professores. Ambos realizaram o atendimento, e o menino foi levado de maca até a ambulância, a essa altura já na companhia do pai. 

Desde a saída da base até o retorno, os profissionais atuaram com extrema serenidade. Mesmo para uma situação aparentemente simples - ao menos de um ponto de vista leigo – foi difícil para mim se desfazer da ideia de que era uma criança em sofrimento. Novamente fui convencido de que o trabalho exige um grande profissionalismo.

Após o primeiro atendimento, a equipe realiza uma segunda avaliação, mais minuciosa, informações que ajudarão o médico na central a decidir qual o local mais adequado para encaminhar o paciente. Nesse caso, foi a Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

É por essa razão que muitas vezes a ambulância não parte imediatamente até o hospital, como quer o senso comum. Ainda na base, Gerson nos mostrou um sinal de amassado na UTI móvel, deixado pelo soco de um popular inconformado com a permanência da ambulância em um local de ocorrência.

Sandra e Gauer em atendimento


Entre a escola e a UPA, passamos por um trecho de calçamento, cruzado devagar por conta da pouca gravidade da situação. Gauer explica que a trepidação pode ser prejudicial ao paciente imobilizado, e que dependendo da situação, trechos assim são até evitados.

Após ser entregue aos cuidados dos profissionais da UPA, a dupla revisa o interior da ambulância, pois uma nova ocorrência pode chegar antes mesmo do retorno à base. Ocorrências também aparecem na troca de turnos, e nesse caso, o dever sempre vem primeiro, e a ida para casa precisa esperar.

Naquela manhã, o retorno foi direto para a base. Para nós, o trabalho havia acabado. Para Gauer, Sandra, Raquel, Juarez, Elisangela e Edilaine, o dia estava apenas começando.

Febre, dor de dente e trotes

Como o próprio nome do serviço acusa, o Samu realiza atendimentos de situação de urgência e emergência. A médica Raquel Caleffi explica que até é possível ligar para obter orientação médica. Porém, a prioridade é o atendimento de casos como traumas, acidentes, desmaio, infarto, AVC, suspeita de fraturas, entre outros. 

De acordo com dados do Ciruspar, entre janeiro e junho de 2017, a central recebeu mais de 25 mil telefonemas. Algumas delas, curiosas. Elisangela conta que já atendeu vários relatos de febre, e até de dor de dente. Edilaine lembrou de pessoas solicitando transporte para consultas médicas, algumas ligando até no dia anterior, para “agendar o transporte”.

Se por um lado há quem desconheça as atribuições do serviço, há quem use da má fé e minta sobre a real gravidade de uma situação para forçar o envio de uma viatura. Nesse caso, a consequência imediata é clara: alguém que realmente precise pode ser prejudicado. 

Na estatística também há um dado surreal. Nos seis primeiros meses do ano, o Samu recebeu 3.049 trotes. O número é maior do que as ligações classificadas como “informação” no mesmo período – 2835. A grande maioria das ligações, porém, são de atendimentos, foram mais de 15 mil no período. 

Central de regulação do Samu. A esquerda, Edilaine e Elisangela

Elisangela e Edilaine contam que as reações dos solicitantes são variadas. Há quem esteja calmo, mas também há quem ligue repetindo que a situação é urgente. 

Elas comentam que é importante que o solicitante mantenha a calma, ou procure passar o telefone para alguém que esteja, se possível. Também é muito importante saber o endereço da ocorrência, preferencialmente indicando pontos de referência. Informar o município também é importante, pois a central fica em Pato Branco.

Por serem técnicas em enfermagem, ambas dizem ter recebido o preparo para lidar com situações de tensão, como a ligação de alguém aflito por ajuda. Elisangela confessa, porém, que precisa de pelo menos uma hora para desligar a mente da jornada de trabalho.  Mesmo com o treinamento e a experiência, ambas concordam que é difícil não se comover com situações envolvendo crianças.

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