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Roda de exercícios

Nada de esteiras, bicicletas ergométricas ou pesos. Na malhação do circuito funcional os aparelhos são pneus, cordas e toras. O grupo, coordenado por um bombeiro voluntário, atrai adeptos de meios alternativos de suar a camisa

Helmuth Kühl

Aparelho de exercícios no Circuito Funcional

O que um pneu de trator, uma marreta, uma enorme corda de sisal e mochilas de viagem tem a ver com exercício físico? Tudo, e não estou falando de trabalho pesado no campo ou em uma obra.

Alguns dos integrantes do grupo “Circuito Funcional White Duck” trabalham de segunda a sexta em confortáveis salas com ar condicionado, e aos sábados se apresentam voluntariamente para uma sessão a céu aberto de marretadas em pneus, levantamento de mochilas e troncos e outros serviços pesados.

Tudo isso para fugir do sedentarismo por uma via alternativa, saindo pela tangente das tradicionais academias. O circuito funcional surgiu há pouco mais de um ano como uma prática entre amigos, que ganhou força com as redes sociais e se tornou um grupo aberto que já chegou a reunir cerca de 40 pessoas em uma única tarde.

João Carlos Alves Junior, Wellington Fialho e Dorival Graciano Junior, todos bombeiros, deram o pontapé inicial. Eles se reuniam com esposas, amigos e colegas de trabalho para realizar o circuito no gramado do complexo esportivo de Pato Branco, onde também fica o Ginásio Patão. “Um amigo foi chamando outro, que postava uma foto no Facebook, que chamava a atenção de outro e assim foi”, explica Alves, que também é profissional de educação física.

Em menos de um ano, um perfil na rede social foi criado, o número de participantes aumentou, o White Duck ganhou uma logomarca, uma camiseta, e seus responsáveis foram convidados a apresentar o projeto em uma sessão da Câmara de Vereadores de Pato Branco.

Ilhas

Exercícios físicos feitos em circuito são comuns em treinos de modalidades esportivas como o futebol, explica Alves. A atividade, porém, ganha cada vez mais adeptos fora das quadras e campos profissionais. “Os técnicos já organizavam ilhas de exercícios voltadas para as modalidades. Aqui o exercício é voltado para grupos musculares”, detalha.

Helmuth Kühl

Alves coordena uma rodada de abdominais

No circuito White Duck são montadas geralmente nove ilhas de exercício que são distribuídas pelo gramado, respeitando uma sequência. Em uma delas, o participante usa uma marreta de ferro para acertar um pneu repetidas vezes; em outra realiza agachamentos segurando um tronco.

Segundo Alves, o exercício de cada ilha é repetido por um minuto. Depois disso, todos fazem um minuto de abdominais e passam para a próxima ilha. A rotina é repetida até que todos terminem o circuito.

Alves conta que passou a aplicar exercícios em circuito quando ainda trabalhava em uma academia, em Londrina, a pedido de alunos entediados com os aparelhos tradicionais. “O circuito funcional trabalha várias capacidades motoras, como equilíbrio, coordenação motora, agilidade, resistência. Também dá mais resistência cardiovascular, contribui com a saúde e o bem-estar, enfim, os benefícios do exercício físico”, acrescenta.

Ar livre

Alves acredita que os adeptos também se sentem atraídos pelo Circuito Funcional por ser uma atividade ao ar livre. Fazer amizades e descontrair são outras razões que atraem participantes. A estudante Caroline de Souza participou de um circuito e destacou o espaço aberto como um dos pontos positivos, assim como a prática coletiva.

O estudante Jorge Silva disse ter aprovado a experiência. “Não achei que ia cansar tanto”, completa o jovem, que também frequenta academia e pratica basquetebol. Participar do circuito não exige inscrição prévia, basta apenas comparecer. Os eventos são criados pelo perfil do grupo no Facebook.

 

Helmuth Kühl

O sobe e desce de mochilas, em uma das ilhas do circuito

 

Não há restrições por idade, mas Alves solicita a apresentação de um certificado de aptidão física àqueles que pretendem continuar no grupo por mais tempo. O exame pode ser feito em academias de musculação.

O bombeiro não cobra nada por montar, desmontar, aplicar e orientar os exercícios, seja para um grupo pequeno ou grande de participantes. “Me motiva ver os meus filhos participando, receber o agradecimento das pessoas que estão aqui por várias motivos. No meu trabalho estou sempre voltado à sociedade. Então é como se fosse um trabalho social”.

Eu fiz

Como entrei e como saí de uma tarde de circuito funcional

“Já venha preparado para fazer”, avisou o soldado Alves, deixando claro que para a matéria não bastaria assistir ao circuito, fazer algumas perguntas e voltar para casa belo e formoso.Era uma tarde quente de fim de dezembro e meu nível de atividade física beirava o iniciante.

Preparei bloco de anotações, caneta, gravador, vesti bermuda, camiseta e tênis, figurino bem incomum para um dia de trabalho como jornalista.No fim do ano tudo começa a desacelerar com férias e preparativos para as festas. Foi o que especulamos quando menos de meia hora antes do início programado havia apenas um participante: eu.

Um casal de iniciantes apareceu e se dispôs a participar quando eu já acreditava que teria uma aula particular.Alves explicou como o circuito funcionava, demonstrou o modo correto de fazer cada exercício, e coordenou um alongamento.

 

Helmuth Kühl

Repórter trabalhando

 

Toda a rotina não deveria passar de uma hora. Moleza, impossível que erguer algumas mochilas e se equilibrar em uma fita de slackline pudesse ser mais cansativo do que uma série de exercícios em uma academia.Algumas voltas na pista de atletismo, subidas e descidas na escadaria de acesso ao ginásio Patão, foram suficientes para mudar de ideia. Era só o aquecimento. Culpei os meses sem exercícios regulares pelo cansaço.

Escolhi começar o circuito na ilha da marretada no pneu, parecia ser o mais divertido. Senti o corpo funcionar, o que foi muito bom.As abdominais vieram depois. Torci a cara, nunca gostei desse exercício que costuma gerar as dorzinhas mais chatas, mas vamos lá. Depois veio a corrida em que o participante dribla uma fila de cones em linha reta, e mais abdominais. Até a ilha de levantamento de mochilas sentia um cansaço moderado.

Alves preparou mochilas com alças estratégicas carregadas com pesos diferentes. O que se deve fazer é pegá-la, erguê-la até o ombro e devolvê-la ao chão. Mais abdominais. Olhando o circuito em repouso tudo parece muito fácil de se fazer, e de fato é.

Não achei os exercícios pesados, mas o conjunto do esforço não é moleza. Fazer ondinha na corda de sisal, o que parecia  fácil, foi um suplício, e era a quinta ou sexta ilha. No fim, estava convencido de que havia me mexido bastante, pelo cansaço e pela sensação de prazer que sempre aparece depois de uma atividade física.

Realizar o circuito é muito divertido. Estar na grama e debaixo de árvores é estimulante, mas o trabalho coletivo é o grande motivador. Os exercícios são individuais, mas saber que há outras pessoas percorrendo um mesmo caminho é um grande incentivo.

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