Especial

Revolta dos Posseiros, o levante vitorioso dos oprimidos

["Revoltosos em apoio ao movimento que expulsou as companhias colonizadoras do Sudoeste"] (Foto: Acervo histórico)

Há 60 anos os colonos do Sudoeste precisaram pegar em armas para proteger suas terras e a vida de suas famílias, e acabaram protagonizando o primeiro confronto armado do Brasil onde os oprimidos venceram a luta contra os opressores.

Nesta segunda-feira (9) a Revolta dos Posseiros de 1957, como é conhecido o levante, completa seis décadas de história e foi marcada por uma luta sangrenta entre os colonos da região e os jagunços sanguinários que agiam a mando das companhias colonizadoras.

Cansado do massacre que tirou a vida de muitos inocentes, o povo se rebelou contra as companhias que estavam obrigando os posseiros a comprar, por meio de notas promissórias, lotes em que eles já residiam. Os que se negavam a pagar pelas terras, eram expulsos ou mortos cruelmente.

Graças a muitos heróis, conhecidos e anônimos, os jagunços contratados pelos latifundiários foram capturados e foi dado um basta na violência que imperava na região.

Contam os historiadores e os colonos que sobreviveram ao massacre que foi uma época sangrenta. Os posseiros que se negassem a comprar a terra que, em tese, já pertencia a eles, eram vítimas de uma violência inimaginável. Meninas e mulheres foram estupradas, crianças e jovens apanharam de corrente. Também houve chacinas com dezenas de mortes.

Cansados de conviver em uma terra de ninguém, os posseiros se rebelaram contra os atos bárbaros dos jagunços que já perduravam por meses na vida da população.

Muitos desses homens que foram contratados pelas companhias de terra eram egressos do sistema prisional e estavam acostumados a praticar atos truculentos e cruéis. Depoimentos de pessoas que viveram nesta época dão conta de que os jagunços usavam casaco sobretudo e andavam armados, para provocar ainda mais medo na população.

Policiais com jagunços presos em frente à Delegacia de Policia

Fatos históricos

Dentro da programação em homenagem aos 60 anos da Revolta dos Posseiros, em Pato Branco, o escritor Luiz Marini lança o livro “1957 – Revolta dos Colonos – Lembranças de um Idealista”, nesta segunda, às 19h, no Teatro Municipal Naura Rigon.

No livro, Marini reuniu fatos da história contada pelos protagonistas do levante, como Jácomo Trento, o Porto Alegre, além de Ivo Thomazoni e outros heróis da época. “O conflito foi acentuado por inúmeras mortes, até que no dia 9 de outubro de 1957 explodiu a Revolta dos Colonos em Pato Branco, e nos dias seguintes em Francisco Beltrão e nas cidades da fronteira: Barracão, Capanema e Santo Antonio do Sudoeste”, relatou Marini.

Segundo o escritor, os relatos apontados no livro contam que os escritórios das companhias de terras foram invadidos e os documentos espalhados nas ruas. Os funcionários e jagunços foram presos e retirados da região.

“O governo do Estado deu um ultimato e o general do Exército viu-se obrigado a retirar do Sudoeste as companhias de terras. A primeira etapa da Revolta dos Colonos estava vencida. Na região de Pato Branco e seus distritos (Verê e Dois Vizinhos), dois líderes surgiram do anonimato para enfrentar os jagunços das companhias que aterrorizavam os colonos da região. Um era um viajante que percorria a região de Pato Branco e seus distritos para vender rádios (Jácomo Trento, o Porto Alegre). O outro era um locutor da Rádio Colmeia, que tinha um noticiário ao meio-dia (Ivo Thomazoni)”, explicou.

Marini destaca no livro que os jagunços perseguiam os colonos forçando-os a comprar as terras onde viviam. “As Glebas Missões e parte da Chopim, no Sudoeste, estavam sub judice, pois os governos federal e estadual e a Citla com a Comercial e a Apucarana estavam reivindicando de um lado, e do outro estavam os posseiros, os assentados da Cango, os colonos que viviam há muitos anos sobre a terra, e também as disputavam”.

Maio, quando tudo começou

O escritor contou que nessa disputa quem estava sofrendo pressões eram os colonos, e “Jácomo Trento (conhecido como Porto Alegre) e o Ivo Thomazoni faziam seus trabalhos sem se importar com essa questão. Mas no dia 21 de maio de 1957 tudo mudou. Porto Alegre chegou ao Verê para vender seus rádios e encontrou uma multidão, e no meio dela, seu amigo Pedrinho Barbeiro, assassinado por jagunços da Comercial. Ali mesmo, em frente ao povo, prometeu vingar a morte de seu amigo. Começava a epopeia que viria a deflagrar a Revolta dos Colonos. Porto Alegre captava as notícias dos conflitos e as repassava ao Ivo Thomazoni, que, na Rádio Colméia, divulgava a todo o povo”.

De acordo com Marini, a Revolta dos Colonos segue uma cronologia, com acontecimentos que ocorreram de maio a outubro de 1957: começa com o assassinato de Pedrinho Barbeiro; segue com o enfrentamento dos colonos diante dos jagunços, em Verê, pela morte de dois colonos; a emboscada do km 17 que resultou na morte de sete pessoas; a trucidação da família de João Saldanha; o espancamento das crianças no Verê, no dia 8 de outubro de 1957; e o encaminhamento delas a Pato Branco, que foi o estopim para a guerra, já que o delegado da época disse que não poderia atribuir aos jagunços a surra dada nas crianças.

Capa do livro que será lançado por Marini cuja foto registra o momento em que Porto Alegre rendeu um dos jagunços

Morte de João Saldanha

Um dos casos emblemáticos, que marcou a Revolta dos Posseiros, foi o assassinato da família de João Saldanha entre os dias 4 e 6 de outubro de 1957, na cidade de Ampére. Como ele não queria comprar a terra das companhias, os jagunços cercaram sua casa.

Ele conseguiu fugir com um dos filhos. Porém, sua mulher foi abusada sexualmente e depois executada junto com outro filho de 8 anos. Uma menina de 5 anos foi morta com uma adaga e a casa incendiada. Nenhuma das mortes era investigada pela polícia, já que as companhias exerciam forte influência política.

O levante

No dia 9 de outubro, o povo, em frente à Rádio Colmeia, em Pato Branco, exigia a expulsão das companhias de terras do Sudoeste. No dia 10, o povo de Francisco Beltrão reuniu-se contra as companhias. Nos dias seguintes as cidades da fronteira aderiam à revolta. Ainda no dia 10 de outubro, o Porto Alegre reuniu quatro amigos, 30 policiais e o major Reinaldo Machado, e com dois caminhões, rumaram para o Verê e Dois Vizinhos, onde, em alguns dias, prenderam 37 jagunços das companhias. Com as companhias de terras e os jagunços expulsos da região Sudoeste, o povo esperou a titulação das terras”, contou.

Em 17 de março de 1962, o presidente João Goulart e o governador do estado do Paraná, Ney Braga, estiveram em Pato Branco e anunciaram a execução do processo de desapropriação das Glebas Missões e parte da Chopim. Isso para regularização da posse das terras aos posseiros e colonos, com a criação do GETSOP (Grupo Executivo de Terras para o Sudoeste do Paraná), cuja função era medir, demarcar e escriturar as terras para os colonos.

 

Classificados