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Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

Visitamos o centro de treinamento do Verê Futebol Clube, projeto criado para revelar e formar novos atletas

Matéria publicada originalmente em dezembro de 2017 na revista Vanilla (Fotos: Helmuth Kühl)

Um grupo de jovens bate bola em um campo de futebol, cercado por uma paisagem que inclui uma lavoura e uma rodovia, atrás das metas, um cemitério e a cidade de Verê, nas laterais. São cerca de 9h, e o sol já estava de rachar.

Sentado no gramado, próximo ao banco de reservas, o jovem Matheus Luciano Barbosa, 17 anos, assiste à movimentação em campo, que está muito além de ser uma simples pelada. Assim como Matheus, boa parte dos atletas em campo vem de longe, não vê a família há meses, e todos têm um sonho em comum: se tornar um jogador profissional de futebol.

Eles fazem parte do elenco sub-17 do Verê Futebol Clube, projeto criado em 2015, e formado hoje por um grupo de empresários locais que estão investindo no mercado de preparação de novos atletas. Naquela ocasião, o time se preparava para disputar as semifinais da Terceira Divisão do Campeonato Paranaense. A posição, portanto, já os colocava entre as quatro melhores equipes da temporada na categoria.

O campo na margem da rodovia PR-493 é mais um entre os vários centros de treinamento no Brasil, que de certo modo representam o primeiro degrau de uma carreira bastante disputada. Os ídolos entre a molecada indicam aonde o sonho pode chegar: Daniel Alves e Ronaldo Fenômeno, são alguns dos nomes que chegaram ao topo da escada, com passagens por alguns dos maiores times do mundo, e pela seleção nacional.

Equipe juvenil do Verê, em treinamento


“Planejo chegar a um clube grande, para realizar o meu sonho e o da minha família”, conta Matheus, sobre o que deseja ser o seu próximo passo. Antes de chegar ao Verê, o jovem de Aquidauana, Mato Grosso do Sul, já passou por centros de treinamento na sua cidade, pelo qual disputou o estadual sub-17, e em Terra Roxa, no Paraná.

Ele conta que deseja ser jogador de futebol desde os sete anos de idade, também por conta do incentivo do pai, que o levou às escolinhas de futebol. Para alcançar seu objetivo, o jovem precisa fazer alguns sacrifícios. Na ocasião da entrevista estava há cinco meses sem ver a família, a maior dificuldade, na opinião dele, já que diz ter todo o amparo e estrutura no CT do Verê. 

Também precisou lidar com decepções. Matheus já fez testes em clubes como Cruzeiro, Avaí e Coritiba, e não foi aceito em nenhum deles.  “Você pensa em desistir, mas a sua vontade de vencer tem que ser maior que tudo isso”. 

Matheus Luciano Barbosa, 17 anos, de Aquidauana, Mato Grosso do Sul


A persistência tem suas razões. Mesmo sendo um caminho difícil, conseguir uma vaga em uma equipe grande pode representar a oportunidade de uma boa remuneração, a realização pessoal de disputar e conquistar títulos, e quem sabe até conhecer outros países.

Juliano Cagnini, diretor do Verê FC, passou pelas diferentes etapas da carreira de futebolista. Natural de Verê, Juliano joga bola desde criança, quando frequentava os campos da cidade. Treinou em Itapejara D´Oeste com Papico, conhecido formador de atletas da região.

Na adolescência, surgiu sua primeira oportunidade, na categoria de base da Portuguesa Londrinense. De lá foi para Santa Catarina, onde atuou em categorias juvenis e se profissionalizou, jogando por clubes como Atlético Alto Vale, de Rio do Sul; o União, de Timbó; e Marcílio Dias, onde disputou a série C do Campeonato Brasileiro, em 2004.

Seu currículo também traz passagens pelas categorias de base do Paraná Clube e do Grêmio de Porto Alegre. De 2004 a 2011 foi atleta na Itália, onde atuou em clubes como Trestina e Verbania.

Juliano Cagnini, ex-atleta e diretor do Verê FC


Juliano e sua família voltaram ao Brasil e hoje comandam uma pizzaria em Verê. Apesar de não atuar mais como jogador, o futebol ainda ocupa parte significativa de sua rotina.

Verê FC
Em novembro passado, a equipe sub-17 do Verê jogou uma partida em casa contra o Coritiba, válida pela semifinal do Campeonato Paranaense da categoria. O jogo aconteceu no Estádio Vila do Mar, em Verê, e terminou empatado em 1 a 1. Na volta, em Curitiba, o Verê perdeu e não conseguiu passar para a final, disputada pela dupla Atletiba.

A partida ilustra os bons resultados do projeto. Em cerca de dois anos, o clube conseguiu colocar uma equipe juvenil entre as quatro melhores do estado, disputando jogos em casa contra clubes de renome. E não foi a primeira vez. Em 2016, o time ficou em terceiro lugar na competição, porém, defendendo as cores do Colorado, equipe do norte do Paraná.

De acordo com Juliano, o grupo tem um objetivo claro: formar atletas com a contrapartida de retorno financeiro com vendas futuras. Apesar de contar com aspirantes de vários estados, o Verê FC se posiciona em uma região que já exportou vários talentos. Em Dois Vizinhos nasceu Dagoberto Pelentier, que conta com passagens por Atlético-PR, Cruzeiro e São Paulo, clubes pelos quais foi campeão brasileiro, além de Internacional e Vitória.

De Pato Branco saíram Luís Francisco Grando, o Chico, que passou por Atlético-PR, Coritiba e Palmeiras, e Alexandre Pato, que passou por Internacional, Milan, na Itália, Vilarreal, na Espanha, entre outros. Mesmo revelado no Mato Grosso, também é possível considerar Rogério Ceni na lista.

“Muitos atletas deixavam a região para jogar futebol e se profissionalizar”, completa Juliano. Ele analisa que o mercado da bola é promissor desde que haja foco, responsabilidade, metas e paciência, já que se trata de um processo de retorno a longo prazo.

Entre 2015 e 2016, o alvo foi a estruturação e a formalização. Neste período o time contava com duas residências esportivas, e terceirizou seu plantel para o Colorado, que disputou o paranaense sub-17.

Com o nome de terceiros, porém, o clube não teria direitos econômicos de atletas. Havia a necessidade de defender a própria camisa, e o grupo buscou o reconhecimento junto à Federação Paranaense de Futebol (FPF), o que veio no início de 2017, ano em que o clube disputou os primeiros torneios com o nome, as cores, e o escudo do Verê FC.

Equipe treina no Estádio Vila do Mar, ao lado da rodovia que liga Verê a Dois Vizinhos


Assim como no paranaense sub-17, o Verê ficou entre os quatro melhores times na terceira divisão do Campeonato Paranaense, competição em que o clube também caiu nas semifinais. 

Com o desempenho do time adulto, Juliano conta que o clube vislumbrou o acesso à segunda divisão. Porém, ele reforça a necessidade de ponderação.  “Não buscamos projeções absurdas. Não nego que nosso grande sonho é chegar à primeira divisão do Paranaense. Mas tudo será gradativo, passo a passo”.

Hoje o centro de treinamento do clube conta com alojamento para 65 atletas e comissão técnica, sala de recreação, refeitório, lavanderia, e em breve academia. O Verê FC possui ainda ônibus próprio, manda jogos no Estádio Vila do Mar, por meio de parceria com a prefeitura, e realiza treinamentos em campos na área rural, através de parcerias com as comunidades de Planalto e União da Barra.

Centro de treinamento do Verê FC


Juliano adianta que o projeto de um novo estádio municipal também está em andamento. Ele comenta que o investimento em infraestrutura é fundamental para garantir condições de desenvolvimento para os candidatos a jogador. O comprometimento dos atletas completa a receita, e não basta apenas pensar na técnica. Treinar a mente é tão importante quanto. 

Preparação
Aparecido Gonçalves de Souza, mais conhecido no mundo da bola como Kokan, é o técnico do Verê FC, e garante que o futebol de hoje não funciona mais na dependência de um craque. Até porque, segundo ele, um Neymar da vida é um atleta entre 1.000. “A parte tática e a parte física está superando essa dependência”, completa. 

Dos 23 anos em que trabalha com futebol, Kokan foi jogador por cerca de 14. Natural de Paranavaí, ele defendeu clubes como o ACP, o América e o Botafogo, do Rio de Janeiro, o Bragantino e o São Caetano, de São Paulo.

Como técnico, atuou na base do Paranavaí, do Santos e do Prudentópolis. Pelo seu comando passaram jogadores como Danilo Avelar e Miranda, ambos com campanhas na Europa. Ele também foi o técnico do Prudentópolis na campanha que garantiu o retorno do clube à primeira divisão do Campeonato Paranaense em 2017.

Aparecido Gonçalves de Souza, o Kokan, técnico do Verê F.C


Ao selecionar atletas, Kokan explica que critérios como compromisso e responsabilidade nos estudos, e a capacidade de relacionamento em grupo, por exemplo, também são levados em consideração. 

Ele conta que um dos caminhos para encontrar jovens com potencial é a rede de relacionamentos entre clubes e técnicos de regiões diferentes. Quando um nome promissor aparece, ele é analisado com a intuito de encontrar pontos fortes e identificar suas características, que devem ser lapidadas e aprimoradas.

Foi por indicação que Pedro Henrique Ribeiro Mota, de Montes Claros, Minas Gerais, chegou ao CT do Verê. O adolescente joga bola desde a infância, e começou no futsal, esporte pelo qual já tem um vice-campeonato mineiro sub-15. 

Foi ainda nos tempos de quadra que ele decidiu sua posição: goleiro. No campo, ele começou com cerca de 11 anos de idade, tendo passado pelas bases do Norte Esporte Clube, de Montes Claros, por Terra Roxa, e agora defende o Verê.

O jovem conta que sua principal inspiração é o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e assim como relataram seus companheiros, a maior dificuldade a ser do processo de formação é a distancia da família. Na ocasião da entrevista, ele estava há cinco meses longe de casa. Para enfrentar a saudade, ele se apoia no exemplo dos colegas, como Romeu, atleta do time principal, africano, que estaria há sete anos distante da família. 

“Há também a questão psicológica. Mas não é nada que não possa ser vencido com muito trabalho, com muita paciência, e a força concedida por Deus”, comenta o jovem atleta, com traços do vocabulário do futebol.

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