Opinião

Por uma nova ordem

Realmente os dias que vivemos não estão para peixe algum e principalmente algumas alternativas buscadas nas últimas décadas dão sinais claros de que estão à deriva e logo os seus maiores defensores buscarão ajuda numa sala de UTI; dois temas caros para toda a humanidade, são eles: globalização e economia. Dois modelos que tiveram a sua gestação, bem como a sua implementação capitaneados pelo ex-presidente americano Ronald Reagan e a “dama de ferro” Margareth Thatcher, ex-primeira ministra inglesa, para esses dois personagens, o que realmente importava era a liberação das “forças criativas da iniciativa privada e permitir a fluência mercantil, desimpedida das restrições impostas pela intervenção estatal”. Emerge daí o homo o economicus com a sua instrumentalidade racional, maximização das vantagens pessoais em detrimento do todo e do coletivo.

Da globalização diz-se que a grande maioria dos países a partir de 1989 abraçaram essa ideia como a única tábua de salvação, essa nova mundialização é diferente em grau, gênero e número de todas as outras que já existiram, arvorou-se a ideia de que a história como a conhecíamos chegou ao seu ocaso, o fim de uma era marcada pela barbárie, lutas, guerras, disputas de todo tipo e os imperialismos teriam ficado no porão do esquecimento. Dessa nova ordem recém implantada dizia-se que viria a pax americana em seu melhor estilo, isto é, a vida como um todo seria pautada pelo mercado, a desregulamentação, o fim de todas as barreiras, “saída e entrada de dinheiro nos países de forma clara e transparente”, uma concorrência “leal” entre as empresas, redução de direitos trabalhistas e sociais para que outros também pudessem fazer parte desse “admirável mundo novo”.

Mas eis que essa suposta “verdade” totalizante, tem hoje diversas facetas nem sempre condizentes com o seu projeto original, essa nova visão hegemônica produziu monstros por toda parte, que hoje estão difíceis de serem controlados. Aumentaram assustadoramente inúmeras guerras e invasões, a competição comercial acirrou-se, os monopólios empresariais, as grandes marcas devorando as menores sem escrúpulo algum, agiotagens livremente dirigidas pelo Fundo Monetário Internacional, o Estado sendo taxado de ineficiente e incompatível com a nova realidade foi e vem sendo engolido paulatinamente por outras “verdades mais eficazes”, deixando assim de ser uma referência. Essa arena mortal onde tirar vantagem a qualquer custo, onde os fins sempre justificam os meios empregados carrega junto consigo um sentimento de revanchismo, revolta, além do medo.

Da globalização emergiu um novo e único jeito de fazer economia em qualquer lugar do mundo, o poder das corporações aumentou em muito, o mercado dotado de forças “divinas”, é o novo estado universal, os bancos lucram imensamente com as tragédias alheias, um misero ponto negativo numa bolsa de valor pode falir milhões de pessoas enquanto o desinvestimento do estado como se conhece cai drasticamente, consequentemente os seus programas sociais vão sendo diminuídos, cortados e extirpados da comunidade para se dar lugar a outros “programas” de austeridade fiscal. A riqueza nesse cenário vai para meia dúzia de mãos invisíveis de “afortunados”, ela não flui, não se expande, não se gera mais riqueza para os outros. O sacrifício imposto às pessoas e ao Planeta tem sido de tal magnitude, que a sustentabilidade de todos corre um grande perigo.

O Brasil como bom consumidor de ideias “revolucionárias” abraçou essas duas utopias de corpo e alma, passado algumas décadas os resultados começam a surgir e não são animadores para a grande maioria das vítimas que jamais foram ouvidas a respeito. Aqui adotou-se políticas econômicas e sociais irracionais, um processo de privatizações foi e está sendo levado a cabo sem qualquer escrúpulo, investir em saúde, educação, saneamento básico é considerado pelos governantes de todos os quadrantes um desperdício, uma inutilidade. Vale sim antes de tudo para os “brasileiros” defensores da utopia ultraliberal um fundamentalismo ortodoxo de que a economia, o mercado, o estado mais do que mínimo é a solução. Felizmente muitos começam a questionar esse modelo e ver que ele não é único nem suficiente para trazer a felicidade e a prosperidade para todos.

Bioeticamente, as narrativas que se observam mostram que sacrificar a vida humana e extra-humana em nome dos algoritmos, da austeridade, do mercado é uma falácia, crer piamente que a economia está isolada de tudo é um erro maior ainda que pode levar tudo e todos para a bancarrota. Jamais poderá haver crescimento apostando tudo na tecnologia, jamais uma economia descolada da realidade que interage a todo momento poderá dar certo cem por cento. Jamais haverá uma receita certa, única para cada país crescer; a economia do jeito que se encontra apenas mata, destrói, fere e envenena a humanidade. Dos dias 26 a 28 de março de 2020, haverá em Assis Itália, um encontro que será promovido pelo Papa Francisco, para se discutir a atual economia; todos os economistas estão convidados a exporem novas ideias econômicas. O eixo central desse encontro reside no fato de que a economia deve servir os seres humanos e não o inverso, caso contrário um novo suicídio financeiro está a caminho, maior ainda que 1929 e 2008.


Rosel Antonio Beraldo, de Verê-PR, mestre em Bioética, especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é doutor e mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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