Opinião

Plantas medicinais: coisas de vó?

Quando se fala em plantas medicinais, para alguns, o tema remete à infância (para aqueles de mais idade), quando a mãe ou a avó preparava um chá para gripe ou dor de barriga. Parece algo ultrapassado, velho, como as roupas com ombreiras gigantes e as máquinas polaroides. Mas mesmo nos dias atuais, muitos não se abstêm de um chá de boldo, quando ocorre o exagero, de erva-cidreira para “acalmar os nervos” ou de folhas diversas colocadas na cuia do chimarrão para um sabor diferenciado e talvez, para acalmar os ânimos, também.

Era do tempo das avós... Não, na verdade as plantas medicinais nunca saíram de moda, mesmo em pleno século XXI. Talvez, hoje, por existirem outras opções, elas não figurem como os principais métodos de tratamento de doenças e daqueles simples “mal estar”.

Apesar da grande biodiversidade brasileira, a alimentação humana se baseia em poucas espécies vegetais e, principalmente, exóticas, ou seja, aquelas que têm origem em outros países, como o caso do arroz, da soja, do milho. O mesmo ocorre com várias plantas conhecidas pelo poder de aliviar e mesmo tratar algumas disfunções do organismo, como a camomila (Matricaria chamomilla) originária da Europa, o boldo do Chile (Peumus boldus), o falso boldo ou boldo-da-terra (Plectranthus barbatus) que tem sua origem na Índia, entre várias outras tão comuns nos quintais. Vieram com os europeus, africanos, asiáticos, etc. e ficaram arraigadas na cultura brasileira ao ponto de quase serem consideradas “nativas”. Felizmente, estas receberam atenção e têm suas propriedades, assim como contra indicações, bem estabelecidas. Muitas são comercializadas na forma de fitoterápicos – medicamentos de origem vegetal, que passam por um processamento industrial, com ação comprovada por estudos farmacológicos e toxicológicos, com registro na Anvisa, numa definição simplificada.

E as plantas brasileiras? Muitas estão ganhando atenção, atualmente, por parte de pesquisadores, mas ainda falta muito para chegarmos ao conhecimento completo de todas as espécies utilizadas como medicinais, quer seja por grupos indígenas nos confins da floresta amazônica, ou nas comunidades de benzedeiras, raizeiros, etc. As plantas nativas são quase desconhecidas para a maioria da população. Neste ponto, perde-se para outros países que investiram e investem no estudo de plantas medicinais e as utilizam em seus sistemas de saúde, como é o caso da China e Índia. Perde-se porque o Brasil tem uma das maiores biodiversidades do planeta e não se conhece um terço da mesma. Tarde para começarmos? Não!

Em 2009, o Ministério da Saúde lançou a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS – RENISUS – com 71 espécies vegetais, incentivando, com financiamento, pesquisas com as mesmas. No entanto, para aqueles que têm interesse e dedicam-se ao estudo de plantas com princípios farmacológicos, foi um tanto decepcionante este “incentivo”: grande número das plantas relacionadas são exóticas, como a soja, a camomila, a arruda, etc. Claro que foi um primeiro passo para colocar o Brasil um degrau acima com relação ao estudo de plantas medicinais. Um pequeno investimento (pouco mais de dois milhões de reais, que parece muito, mas se comparado ao que uma multinacional farmacêutica investe, é migalha) que resultou em alguns trabalhos científicos e que poderia trazer mais resultados, inclusive com possibilidades de medicamentos eficazes e mais baratos à população, mas que com a atual política de cortes de verbas em áreas essenciais, vê-se o trabalho interrompido ou levado adiante às custas da determinação de pesquisadores que insistem em trabalhar, mesmo sem condições adequadas para dar respostas à sociedade que mantém as universidades e outras instituições públicas de pesquisa. Triste realidade, porém, ainda esperançosa de mudanças futuras.

E os médicos? Por que não receitam plantas medicinais? A formação deles não os prepara para isto e muitos, na sua desconfiança ou insegurança, preferem não arriscar. Claro que junto há todo um lobby da indústria farmacêutica, que oferece o que há de mais moderno e eficaz em termos de medicamentos, mesmo que isto signifique, para um grande número de pessoas, não levar o tratamento a termo. Ou pela rapidez dos resultados. É possível que um omeprazol tenha efeito mais rápido do que um chá de espinheira-santa (Maytenus ilicifolia). Ah! Mas o omeprazol está sob suspeita: será que provoca câncer de estômago, como alguns estudos de pesquisadores ingleses e chineses apontam? Cedo demais para afirmar! Então, o melhor é o chá. Talvez sim, talvez não. Com certeza se preparado e tomado de forma correta, trará resultados, sem efeitos colaterais. Mas lembremo-nos: tudo em excesso faz mal, até água. Então, não é porque é natural que se pode usar a vontade. Nada disso! Todas as plantas produzem substâncias que podem atuar de diversas formas no organismo humano: só o exemplo da cafeína, um alcaloide encontrado em várias plantas, entre elas, o café e a erva-mate, que atua na excitação do sistema nervoso, ou seja, um estimulante. Outros alcaloides, mais potentes, levam a outras ativações neuronais, como é o caso da heroína, extraída da papoula (Papaver somniferum), de onde se originou um dos mais potentes analgésicos ainda utilizados, a morfina, e sua versão mais leve, a codeína. Portanto, as plantas não são inofensivas.

Assim, nossas mães e avós tinham um conhecimento prático que foi passado de geração a geração e depois, comprovado através de pesquisa, mas que pode estar sendo perdido pelo receio e pela falta de informação (e formação) de médicos que preferem receitar uma dimeticona a um chá de camomila ou funcho para cólicas dos bebês. Ou se prefere um consagrado diazepínico ao invés de um chá de valeriana ou mesmo da camomila para diminuir a ansiedade e ajudar no sono.

Ah! Mães e avós, xamãs, raizeiros, benzedeiras e outros que ainda, em pleno século XXI, mantêm a sabedoria herdada de ancestrais e da observação da natureza. Espera-se que este conhecimento, sem comprovação científica, persista e que possa orientar os pesquisadores na descoberta dos poderes das plantas nativas ou mesmo exóticas que ainda permanecem misteriosas, antes que desapareçam de vez de matas e quintais.


 

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