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Os Sentinelas do Sudoeste na Revolta

["Proximidade de colonos com o Ex\u00e9rcito ocorreu pelo tempo de presen\u00e7a dos militares na regi\u00e3o "] (Foto: Acervo Municipal do Museu Histórico José Zanella)

Uma publicação do curso de mestrado da UPF (Universidade de Passo Fundo) em 2009 é um dos primeiros apontamentos da atuação do Exército durante a Revolta de 1957.

De autoria de Ronaldo Zatta, o estudo intitulado Sentinelas do Sudoeste: O Exército Brasileiro na Fronteira Paranaense faz um apanhado da participação dos militares brasileiros no conflito agrário de ocupação e colonização no Sudoeste do Paraná entre 1943 a 1974.

Para o historiador, existem indícios, por meio de relatórios do Exército que reservistas oriundos do Rio Grande do Sul, eram enviados para trabalhar na região de fronteira, que já tinha uma iniciação agrícola, contudo, fotografias da época da revolta que ficaram guardadas por cerca de 30 anos passaram a ser divulgadas em 1982.

Segundo ele, parte dos integrantes do efetivo da Cango (Colônia Agrícola General Osório) na década de 1940 eram reservistas, que prestavam serviço militar em Porto Alegre (RS) e foram remanejados para o Sudoeste do Paraná.

Para Zatta, “houve uma atuação velada por parte do Exército, mas extremamente importante, quanto à presença militar”, afirma o pesquisador, ao completar que por muitos anos essa atuação foi suprimida, ao seu ver pelo fato de o próprio Exército não querer expor, por questões políticas.

O historiador recorda que a revolta ocorreu no momento que o governo do Paraná desejava “comercializar” as terras que estavam em litígio, enquanto que o governo Federal divulgava sua ocupação.

“Existia um ‘racha’ dentro do PSD (partido do governador Moisés Lupion e do presidente Juscelino Kubitschek). No momento que o Exército intervisse no Paraná a favor dos posseiros, atuando em uma questão de titulação de terras que envolvia o governo do Estado, a situação ficaria mais delicada”, diz Zatta.

De acordo com ele, “não havia por parte da Nação o interesse de ser divulgada essa atuação do Exército, até porque a pasta militar era vinculada ao gabinete do presidente.”

Características da atuação

Conforme o historiador, registros históricos, como as fotografias reveladas em 1982, apontam a atuação do Exército na segurança da Rádio Colmeia em Pato Branco, onde um cerco de segurança foi montado. Coube ainda ao Exército a guarda permanente ao centro de Francisco Beltrão.

Ainda com relação aos registros fotográficos, Zatta aponta que militares davam carona ou transportavam colonos; realizavam patrulhamento das ruas. “Existem várias fotos com jipes militares nas ruas durante a revolta.”

Ele aponta também a questão tática. “Algumas fotos feitas em Francisco Beltrão, onde aparece o médico Walter Pécoits com armas recolhidas de jagunços, a maneira que as armas foram guardadas é uma forma militar de guardar armamento para quando não há local específico para ele”, explica o historiador, mencionado outra característica: a disposição de armas com coronhas no chão em círculo.

Outro indicativo da atuação do Exército está, segundo o pesquisador, em um monumento de Francisco Beltrão. Nele, um homem carrega uma bandeira no ombro, o que segundo Zatta, a forma de levar a bandeira é “estritamente militar”, o mesmo ocorre com a forma em que a espingarda é carregada.

Para o historiador, outros momentos relatados da revoltam apontam uma convivência entre miliares e colonos.

“Não aponto o Exército como indispensável para revolta, mas como eles (militares) já conviviam com os colonos desde a década de 1930, a convivência propiciou uma formação de uma cultura política”, diz Zatta, lembrando que quando estourou a revolta os militares que atuavam na região já haviam constituído família com filhas de posseiros, gerando novos laços.

Ocultação

Acreditando que por interesse político, a atuação militar foi suprimida e quase levada ao esquecimento, Zatta afirma que “o Exército nunca demonstrou interesse de relatar essa parte da história, até por ser muito conflituosa”.

No entanto, ele afirma que nos registros do Exército na época constam uma grande movimentação de trocas inicialmente de Joinville (batalhão de Caçador), depois Ponta Grossa e Curitiba, até que a presença se tornou permanente a ponto de ter dois quarteis do Exército atualmente na região.

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