Opinião

Os Jetsons, IA, uma introdução

Desde a infância, nossas mentes são modeladas pela cultura em que crescemos. Assim, muitos países tentaram, por diversas vias, estruturar uma ordem de progresso eficaz. Um dos diversos mitos alimentados foi aquele de construir uma sociedade em um futuro não muito distante, embebida “do lazer puro e intelectual onde se poderia receber sem trabalhar, numa espécie de Terra Prometida baseada no progresso técnico. O domínio da racionalidade científica e técnica conduziria o homem à liberdade e ao bem-estar”.

Nesse sentido, os desenhos animados sempre tiveram uma enorme popularidade entre as pessoas, basta uma simples conversa com outras pessoas sobre esse assunto que logo vem à mente uma quantidade expressiva de desenhos e seus personagens que fizeram parte da nossa infância, do nosso imaginário e acabaram se fixando em nosso íntimo. Um desenho animado pode ser tudo, menos inocente e menos ainda despido de interesses. Mesmo que os telespectadores não leiam as entrelinhas de um desenho ou não tenham uma visão além do alcance, o desenho animado pode na maioria das vezes tratar de diversos temas. E um desses desenhos que se popularizou ao longo das décadas foi os Jetsons.

Originalmente, os Jetsons foram concebidos em 1962, um período em que a corrida espacial estava a pleno vapor; foi uma década em que se produziu um dos três maiores projetos do século XX, isto é, o projeto Apollo que culminou com a chegada do homem à lua. A família Jetson é composta por George, o pai, Judy, a mãe, além de Elroy e Jane, os filhos do casal; ainda encontramos o senhor Spacely, empresário e patrão de George. Esses personagens da ficção científica vivem no ano de 2062. Eles preconizam um mundo totalmente diferente do nosso; os autores desse desenho estavam muito bem concatenados com as mudanças que vinham acontecendo naquela época. Seria esse desenho uma sátira, um elogio, uma desconfiança em relação ao futuro? Difícil fazer um prognóstico certeiro sobre essa animação. O certo é que de alguma maneira, nesse “inocente” desenho já se antevê a enorme força da Inteligência Artificial (IA), sendo aplicada em diferentes momentos.

No mundo vivenciado pelos Jetsons, praticamente tudo ao redor deles é automatizado, ali o nível de tecnologia que permeia as diferentes vidas é imensa, tudo parece ser fácil e realizável num piscar de olhos. O trabalho, a maneira de se locomover, o lazer, o jeito da família se comunicar entre si e com os outros, os robôs fazendo por eles muitas tarefas, dão a impressão que esse mundo é realmente o melhor que se pode ter. Outro elemento tão importante, mas pouco observado nesse desenho é a quantidade assustadora de botões que os personagens apertam a todo instante; fiquemos apenas com George, seu trabalho rotineiro é moldado por apertar botões e mais botões. Em suma: Os Jetsons já em 1962 abordavam assuntos que hoje em 2018, são de extrema relevância.

Algumas peculiaridades do mundo da família Jetson que interessam ao mundo do direito e à bioética: o pai, George é constantemente demitido e recontratado pelo seu patrão, o senhor Spacely; George sofre constantes ameaças de ficar sem seu emprego por ser atrapalhado em muitas ocasiões, talvez mais pelo fato de não saber lidar com tanta tecnologia ao seu dispor, acaba cometendo erros que deixam o senhor Spacely furioso. A robótica é uma constante no mundo da família Jetson. E mais um pequeno pormenor nesse entretenimento que tem vários temas ligados ao direito: já que essa sociedade está mergulhada no mundo tecnológico, a família Jetson se queixa de ter L.E.R., ou seja, Lesões por Esforço Repetitivo. Porém George Jetson jamais procura um médico ou um advogado para essa questão, apenas prossegue em seu ofício de apertar botões, enquanto o senhor Spacely segue impune em suas ameaças. Perguntamos: como seria o direito e a medicina nessa sociedade futura? O desenho não trata desses assuntos.

Bioeticamente e filosoficamente, os Jetsons são um poderoso referencial para as reflexões de hoje. Não fica claro nesse desenho, mas um olhar mais atento mostra que por trás de tudo que acontece no “mundo des-encantado” dos Jetsons, existe uma poderosa máquina que controla tudo, que pensa e ordena à família Jetson fazer isto ou aquilo e estes na maioria esmagadora das vezes não se dão ao trabalho de questionar quem os está ordenando a fazerem tais coisas. Assistir hoje os Jetsons pode até soar fora de moda, porém esse desenho aparentemente inofensivo possui em seu interior ainda muitas outras questões relevantes. Todas e quaisquer obras de ficção, “nos transportam para os mundos que elas criam, encorajando-nos a não apenas sentir como se estivéssemos presentes nos acontecimentos, mas também a nos identificar com os personagens individuais”. Além disso, os Jetsons como tantas outras obras ficcionais ao longo do tempo, “esboçam situações hipotéticas. Suas ilustrações podem nos dar informações porque os lugares e problemas sobre os quais elas versam são semelhantes aos nossos”. Agora se o mundo em 2062 for aquele preconizado pelos Jetsons em 1962, é outra história.


Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, é mestre em Bioética pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é mestre e doutor em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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