Pato Branco

OMS alerta: gonorreia virou superbactéria resistente a antibióticos

Cerca de 78 milhões de pessoas são infectadas com gonorreia em todo o mundo; usar preservativo é uma das formas de evitar o contágio (Foto: Divulgação)

A gonorreia, infecção sexualmente transmissível (IST), se tornou uma superbactéria, resistente a todos os antibióticos recomendados para o tratamento da doença, e passa a ameaçar a saúde pública global. De acordo com os cientistas, foi descoberta uma variação da DST no Japão, chamada H041, cuja situação está sendo considerada alarmante.

Para a gonorreia comum existe um tratamento simples, no entanto, a mutação da doença exigiu o teste de medicamentos desconhecidos no intuito de combater a superbactéria. Os cientistas concluíram que o organismo é extremamente resistente a todos os antibióticos da classe das cefalosporinas – as drogas eficazes no tratamento contra a gonorreia.

Já foram confirmados três casos de infecção – no Japão, na França e na Espanha – por uma estirpe de gonorreia que é resistente a todos os antibióticos disponíveis. O alerta para esta superbactéria que é transmitida através de relações sexuais desprotegidas foi feito pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Os especialistas avisam que o problema está a disseminar-se e insistem no apelo ao desenvolvimento de novas armas terapêuticas.

“A gonorreia é uma bactéria muito inteligente. Sempre que usamos uma nova classe de antibióticos para tratar a infecção, a bactéria encontra uma forma de se tornar resistente”, destacou Teodora Wi, especialista em reprodução humana na OMS, em nota à imprensa mundial.

Segundo as estimativas apresentadas no comunicado divulgado, todos os anos cerca de 78 milhões de pessoas são infectadas com gonorreia em todo o mundo. Através de sexo oral, vaginal ou anal, a bactéria Neisseria gonorrhoeae infecta os órgãos genitais, o reto e a garganta. A infecção pode levar à doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade, além de aumentar o risco de contrair o vírus da Aids.

 

Médicos enfatizam medidas de controle para evitar contágio

Em Pato Branco, o Coas (Centro de Orientação e Apoio Sorológico) alerta sobre a forma de contágio da gonorreia, que acontece por meio de sexo sem uso de preservativo. “Pessoas com esta doença geralmente não têm sintomas visíveis, mas ela pode levar a complicações seríssimas. O controle é feito através de conscientização aos usuários e pelo uso preservativo”, destacou o médico Maurício Centurion, responsável técnico do Coas.

Segundo ele, a super gonorreia pode-se dar pelo uso indiscriminado de antibióticos. “A bactéria Neisseria gonorrhoeae fica resistente aos medicamentos e o antibiótico não faz mais efeito esperado. Se isso acontecer, a gonorreia pode virar uma superbactéria e ter um efeito catastrófico no controle da doença. Especialistas estão trabalhando em estratégias de prevenção da resistência, incluindo tratar a doença com diversos antibióticos de uma só vez. Eles também estão fazendo campanha pelo sexo seguro para diminuir a transmissão”, alertou.

O médico disse que os cientistas alertam que a infecção sexualmente transmissível (IST) gonorreia está se tornando cada vez mais resistente aos tratamentos. “Quase um quarto das cepas de bactérias testadas em uma vigília nos EUA se mostraram resistente à penicilina, tetraciclina, fluoroquinolonas e até uma mistura das três substência. Considera-se isso alarmante, pois essas medicações são a última classe de antibióticos que os médicos têm para tratar essa IST”, frisou.

Sintomas

Os sinais e sintomas da doença são: dor ao urinar ou no baixo ventre (pé da barriga), corrimento amarelado ou claro, fora da época da menstruação, dor ou sangramento durante a relação sexual. “A maioria das mulheres infectadas não apresentam sinais ou sintomas. Os homens podem apresentar ardor e esquentamento ao urinar, podendo haver corrimento ou pus, além de dor nos testículos. Na presença de qualquer sinal ou sintoma desses, recomenda-se procurar um serviço de saúde para o diagnóstico correto e indicação do tratamento com antibiótico adequado. As parcerias sexuais devem ser tratadas, ainda que não apresentem sinais e sintomas”, esclareceu o médico.

Tratamento

Maurício Centurion explicou que para o tratamento deve ser utilizada uma das opções a seguir: Ciprofloxacina, 500mg, VO (via oral), dose única; Ofloxacina, 400mg, VO (via oral), dose única; Ceftriaxona, 250mg, IM (intramuscular), dose única. “Existem evidências de altos índices de resistência desse agente à antibioticoterapia convencional. O Ministério da Saúde recomenda tratar simultaneamente gonorreia e clamídia, com Ciprofloxacina, 500mg, dose única, VO (via oral), mais Azitromicina, 1g, dose única, VO (via oral), ou Doxiciclina, 100mg, de 12 em12 horas, por 7 dias”, explicou.

Abordagem

Bernardete Cordeiro, coordenadora do Coas de Pato Branco destacou que as associações entre diferentes ISTs são frequentes, destacando-se a relação entre a presença de IST e o aumento do risco de infecção pelo HIV (vírus da Aids), principalmente na vigência de úlceras genitais.

“Desse modo, se o profissional estiver capacitado a realizar aconselhamento, pré e pós-teste, para a detecção de anticorpos anti-HIV, quando do diagnóstico de uma ou mais IST, essa opção deve ser oferecida ao paciente. Considera-se que toda doença sexualmente transmissível constitui evento sentinela para busca de outra IST e possibilidade de associação com o HIV. É necessário, ainda, registrar que o Ministério da Saúde preconiza a ‘abordagem sindrômica’ aos pacientes com IST, visando aumentar a sensibilidade no diagnóstico e tratamento dessas doenças. O propósito desse tipo de abordagem é reduzir a incidência dessas doenças”, destacou.

Medidas de controle e prevenção

Segundo o médico Maurício Centurion, responsável técnico pelo Coas (Centro de Orientação e Apoio Sorológico) de Pato Branco, as medidas de controle da doença incluem interrupção da cadeia de transmissão pela triagem e referência dos pacientes com IST e seus parceiros, para diagnóstico e terapia adequados. Também:

- Orientações ao paciente, fazendo com que observe as possíveis situações de risco presentes em suas práticas sexuais e que desenvolva a percepção quanto à importância do seu tratamento e de seus parceiros sexuais. Informações no que se refere a comportamentos preventivos.

- Método mais eficaz para a redução do risco de transmissão do HIV e outras ISTs. Convite aos parceiros para aconselhamento e promoção do uso de preservativos (deve-se obedecer aos princípios de confiabilidade, ausência de coerção e proteção contra a discriminação). Educação em saúde, de modo geral.

 

A gonorreia é igual em homens e mulheres?

O médico Maurício Centurion, responsável técnico do Coas (Centro de Orientação e Apoio Sorológico) de Pato Branco, explicou que a gonorreia é uma doença infecciosa do trato genital, de transmissão sexual, que pode determinar desde infecção assintomática até doença manifesta, com alta morbidade.

Clinicamente, de acordo com ele, apresenta-se de forma completamente diferente no homem e na mulher. “Cerca de 70% a 80% dos casos femininos, a doença é assintomática. Há maior proporção de casos em homens”, explicou.

Em homens

A gonorreia em homens, disse o médico, consiste em um dos tipos mais frequentes de uretrite masculina, onde o sintoma mais precoce é uma sensação de prurido na fossa navicular que vai se estendendo para toda a uretra. “Após 1 a 3 dias, o doente já se queixa de ardência miccional (disúria), seguida por corrimento, inicialmente mucóide que, com o tempo, vai se tornando mais abundante e purulento. Em alguns pacientes, pode haver febre e outras manifestações de infecção aguda sistêmica. Se não houver tratamento, ou se esse for tardio ou inadequado, o processo se propaga ao restante da uretra, com o aparecimento de polaciúria e sensação de peso no períneo; raramente observa-se hematúria no final da micção”, frisou.

Em mulheres

Na mulher, embora a gonorreia seja assintomática na maioria dos casos, quando a infecção é aparente manifesta-se sob a forma de cervicite que, se não for tratada corretamente, resulta em sérias complicações. “Uma cervicite gonocócica prolongada, sem tratamento adequado, pode se estender ao endométrio e às trompas, causando doença inflamatória pélvica (DIP). Esterilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica são as principais sequelas dessas infecções. Em razão disso, é importante, como rotina, avaliação criteriosa de riscos mediante realização da anamnese e sinais clínicos observáveis ao exame ginecológico”, ressaltou Maurício.

De modo geral, em relação às ISTs, o fator que tem causado maior preocupação entre os médicos é o sexo sem preservativo e o uso indiscriminado de antibióticos sem o prévio diagnóstico.