Opinião

O silencioso diálogo dos olhares

Especificamente, quero convidá-los para refletir sobre “o silencioso diálogo dos olhares”, isso é, sobre a capacidade que temos de transmitir ideias, conceitos, aconchegos, carinhos e também ira, afastamentos e desprezos pelo olhar.

No texto da semana passada, iniciei uma reflexão sobre a importância dos olhares. Tentei, foi apenas uma tentativa, chamar a atenção dos pais para “os olhares e silêncios” entre pais e filhos.

Disse da importância do olhar para a relação interpessoal nas famílias. Considerei, como os filósofos, que o “o olhar é a janela da alma”. Ou também, para quem não acredita em “alma”, que o olhar é a porta do mundo.

Sei que não dei conta de dizer tudo o que precisava, mas deixei ao sabor das experiências pessoais de cada um dos meus leitores, a complementação de ideias.

Hoje, convido-os a continuarmos a explorar essa capacidade tão humana de relacionamentos pelos olhares.

Especificamente, quero convidá-los para refletir sobre “o silencioso diálogo dos olhares”, isso é, sobre a capacidade que temos de transmitir ideias, conceitos, aconchegos, carinhos e também ira, afastamentos e desprezos pelo olhar.

Ao pensar sobre o tema, me veio à mente a letra da música “esse seu olhar” de Tom Jobim. “ Este seu olhar/Quando encontra o meu/Fala de umas coisas/Que eu não posso acreditar. Doce é sonhar/É pensar que você/Gosta de mim/Como eu de você! Mas a ilusão/ Quando se desfaz/Dói no coração/De quem sonhou, sonhou demais/ Ah! Se eu pudesse entender/ O que dizem os teus olhos...

Se entre os casais a questão é entender o que “dizem seus olhos”, quanto mais em família, na relação pai e filho, mãe e filha, de modo muito especial.

Ao refletir sobre o texto de Tom Jobim, me deu uma emoção muito grande ao imaginar os olhares à minha volta. Como é bom sentir que um olhar diz tantas coisas e nos traz emoções.

Tantas vezes recebemos como pais ou, como filhos, olhares que nos confortam, que nos acolhem, que nos abençoam.

Tantas e tantas vezes ficamos enternecidos com o olhar de confiança das crianças, que se acalmam pela simples presença do olhar da mãe.

Mas também pensei que não tem nada mais intimidador do que um olhar. Um olhar pode ter várias traduções, pode nos encantar ou nos intimidar. Um olhar pode te vestir e te despir, pode te encantar e te arrancar lágrimas.

Muitas vezes um olhar, quando se encontra com o outro, se cala para dizer verdades que as palavras não têm coragem ou que não necessitam de expressão verbal.

A vida vai nos ensinando que tem olhares que nos olham escondido, nos procuram no meio das pessoas, acham um pretexto de nos dizer em silêncio sentimentos secretos e desejos velados e, essa é a experiência mais bonita de casais que se apaixonam e vivem juntos uma vida, uma vida de olhares, de trocas, pois aprendem que um olhar expressa sentimentos da alma.

É possível que, humanamente falando, a maior troca silenciosa de olhares que falam seja da mãe no momento em que amamenta seu filho, pois não há maior interação do que aquele que ocorre naquele momento de troca, momento de maior pertencimento de um ao outro.

Que pena sentir que esses momentos mágicos passam com o crescimento e, raras, raríssimas vezes voltarão a acontecer na mesma profundidade e plenitude.

Parece que os filhos, quando crescem, fogem aos olhares de sua mãe e de seu pai. E os olhares de silêncio, não mais do silêncio que acolhe, que acarinha, recepciona, mas do silencio que espanta, que dói, que afasta, se instala por um período muito grande nas nossas vidas.

E, é no colo de nossa mãe, que aprendemos que o olhar é uma das formas mais primitivas de comunicação. Ao nos expressarmos sem precisar falar, imprimimos emoções, sentimentos, adjetivos e um contexto que nos permite perceber e compreender a mensagem com mais profundidade.

Entendo que o “discurso” do olhar está inevitavelmente presente nas relações interpessoais de nossa família, mas está, também, na relação do indivíduo consigo mesmo. Metaforicamente, parece que somos os únicos a lançar um olhar interno, reflexivo, ao menos evolutivamente falando.

E é esse olhar interno que muitas vezes diz muito mais a nós mesmos do que somos do que a aparência revela aos que nos cercam com seus olhares curiosos, condescendentes ou, até preconceituosos.

Encerro essa reflexão dizendo com Mário Quintana que “Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação”, pense nisso enquanto lhe desejo boa semana.


Dirceu Antonio Ruaro

Professor – Pedagogo-Psicopedagogo Clínico e Institucional- Gestor de Educação Pública – Secretário Municipal de Educação de Vitorino-PR- Educador - Doutor em Educação. Membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná. www.dirceuruaro.com.br e-mail [email protected]

 

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