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O que você quer ser quando crescer?

Escolher uma carreira profissional é uma etapa importante da vida. mas por motivos que vão desde a pressão familiar até o aparente dilema entre remuneração e realização, a escolha pode se transformar em um peso, não só para quem está às vésperas do vestibular

Matéria publicada originalmente na Revista Vanilla de agosto de 2017

Muito provavelmente você já ouviu essa pergunta quando era criança. Escolher uma carreira profissional costuma ser entendido como algo tão fundamental que de certo modo somos provocados a pensar a respeito já na infância, ainda que em tom de brincadeira.

Com o tempo, “o que você quer ser quando crescer” vai se transformando em “qual faculdade você quer cursar?”, e a reflexão também passa a ser outra. Se quando crianças é permitido fantasiar em ser astronauta - mesmo que até hoje apenas um brasileiro o tenha sido – nas vésperas do vestibular os critérios geralmente vão além de um sonho.

Renda, estabilidade profissional e afinidade com determinada área são alguns deles. Outros envolvem o local onde se pretende estudar, as condições financeiras para tal e a cobrança familiar, uma combinação que não raro acaba gerando angústia e frustração.

Em dúvida sobre o que cursar, Matheus Bernardi não prestou vestibular assim que terminou o Ensino Médio, como a maioria dos estudantes. Isso aconteceu cerca de dois anos depois, quando o jovem passou a sentir que a pressão familiar para seguir uma carreira aumentou.

Ingressou então no curso de Engenharia Elétrica, por perceber que a carreira de engenheiro parecia ser preferida em casa. Fez um semestre em uma instituição privada, conseguiu vaga em uma pública para o mesmo curso, e ao todo seguiu por cerca de três semestres até desistir. “Eu vi que não queria aquilo para mim, não me sentia animado em fazer”, lembra.

Hoje, aos 25 anos, Bernardi diz não ter intenção de prestar um novo vestibular a médio prazo. Até se sentir mais seguro de uma decisão, pretende se dedicar a cursos profissionalizantes, provavelmente de gastronomia, área de seu interesse.

Concluir um curso superior nem sempre significa um basta nas dúvidas. “Quando não se sabe a área que quer, tem que atirar para todo lado ahaha”, brinca Ana Carolina Ferreira, de 27 anos. Ela é bióloga, possui um curso técnico de nível médio na área de meio ambiente, é especialista em licenciamento ambiental e em mídias escolares e está cursando mestrado em agronomia. Além disso trabalha como professora de biologia, como analista ambiental em uma empresa e auxiliar em uma clínica veterinária. 

Ana define sua indecisão como peculiar. Ela é convicta de sua área de formação, mas ainda não sabe que direcionamento dar para sua carreira. “Entrar na faculdade com 18 anos te faz cometer erros sobre suas habilidades. Ainda não estamos preparados para definir uma carreira com essa idade. Minha principal angústia está em focar apenas em uma área dentre as centenas de opções que tenho e escolher errado. Como se daqui alguns anos fosse perceber que devia ter insistido em outra”, revela.

Renda
Antes de me tornar jornalista, cogitei seguir a carreira de ator, atividade que exerci na adolescência de forma amadora. Entre os artistas existe uma piada relacionada ao ofício. “Se digo que sou músico, ator, pintor, logo perguntam: certo, mas você trabalha com o quê?”. 

O modo como algumas profissões são idealizadas, às vezes quase como em detrimento a outras, também contribuiu para a dúvida, assim como uma aparente dualidade entre renda e realização profissional, o velho dilema do “será que isso dá dinheiro?”.

Stefani Emanuelli Fontana, 20 anos de idade, é estudante de licenciatura em história e diz que sempre pensou em ser professora, ou trabalhar com educação. Sua primeira opção era a Psicologia, mas precisou decidir entre suas outras alternativas. Ela diz gostar muito do curso. Porém, alguns fatores estão gerando questionamentos. “Meu primeiro ano na faculdade foi excepcional. O ambiente acadêmico para quem gosta de estudar é fascinante. Mas além do cansaço da rotina de 16 a 18 horas por trabalhar o dia inteiro e estudar à noite em outra cidade, sempre tem o espertinho para te perguntar o quanto você vai ganhar e se isso vale a pena”, conta.

A estudante conta que, apesar de gostar de sua área, chega a se perguntar se a dedicação vai compensar, somado ao fato de que, segundo ela, as condições para se lecionar no Brasil não estão muito favoráveis. “Aí entra a cobrança de que você seja alguém ´bem-sucedido´ a qualquer custo”, diz.

Matheus Bernardi relata ter preocupações parecidas. “Se eu for fazer uma faculdade para trabalhar por um salário comum não compensa. E fazer algo com boa remuneração, mas que eu não me sinta feliz também não compensa”, analisa.

Apesar de já graduada, a reflexão de Ana Carolina não passa muito longe.   “Principalmente porque me interesso mais pelas áreas que têm menor retorno financeiro. Infelizmente isso tem que ser levado em consideração”. 

A bióloga afirma que a pressão é particular, por não querer depender financeiramente de ninguém. Stefani diz algo parecido, mas atribui parte da culpa ao sistema educacional. “(Essas pressões) vêm muito de mim mesma. Claro que essas ideias não surgem do nada, e a gente acaba interiorizando. Mas eu vejo um papel da escola sobre isso também. Me diga, quantas escolas você conhece que te preparam para o vestibular/ser bem-sucedido e não para ser só uma pessoa?”, questiona.

E agora?
Psicóloga na UTFPR, campus Pato Branco, Giliane Schmitz tem contato com estudantes que estão dos dois lados do dilema da escolha profissional: os que estão às vésperas de prestar o vestibular, e os que já estão dentro de um curso superior.

Ela atua no Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico e Assistência Estudantil (Nuape), que entre outras funções atende os estudantes que relatam não saber muito bem se estão no lugar certo.

Giliane explica que na universidade há uma comissão que investiga as razões da evasão, quando o estudante interrompe temporariamente os estudos ou desiste do curso; e da retenção, quando o aluno fica muito tempo em um mesmo período e tem dificuldades em avançar. As estatísticas ainda estão sendo feitas, mas Giliane diz que o número de alunos que se forma por curso é baixo.

As razões são várias, desde o repertório de conteúdo e hábitos de estudo adquiridos nos ensinos fundamental e médio, e insuficientes para acompanhar o ritmo da universidade, até a distância de casa, característica particular da UTFPR cujo processo de seleção, o Sisu, permite o ingresso de candidatos de todo o Brasil. Por conta disso, é fácil encontrar pelos corredores do campus acadêmicos vindos de muito longe, que não raro chegam muito jovens e com pouca estrutura.

Também há os estudantes que não se relacionam com o perfil do curso, e o abandonam no meio do caminho. Neste caso, parte do problema pode estar antes do vestibular. 

Outra frente de atuação do núcleo é com os alunos do último ano do curso técnico integrado de nível médio, que participam de um projeto de orientação profissional. Giliane explica que a iniciativa se trata de vários encontros onde, de modo geral, se discute escolhas profissionais.

 Por meio desse diálogo, a psicóloga nota que muitas vezes os vestibulandos têm uma percepção idealizada de uma profissão. “A maioria dos alunos relata que nunca conheceu, ou nunca procurou saber como é o dia a dia do profissional. O que eu percebo é que muitas vezes eles focam em uma ideia que se tem de uma profissão, e muito pouco na prática profissional”, detalha. Por uma questão de status e por uma ideia de remuneração alta e fácil, a medicina é uma das profissões mais idealizadas. De fato, é difícil encontrar um médico sem trabalho. “Mas também é fácil encontrar profissionais insatisfeitos. A gente verifica, sim, que vários alunos que falam em medicina nunca acompanharam o dia a dia de um médico, para verificar se vai se satisfazer com a área”, pondera Giliane. 

As engenharias também costumam ser visadas por pagarem melhor do que outras profissões, pelo menos no julgamento de familiares na hora de incentivar os filhos. Por causa dos pais, muitos jovens acabam ingressando em cursos com os quais não se identificam.

“Acho que é uma questão geracional também. A geração anterior entendia que ter uma graduação te garantia sucesso profissional e estabilidade financeira. A escolha por um curso de graduação não vai garantir sucesso, e o retorno financeiro não é necessariamente garantia de satisfação”, analisa a psicóloga.  

Calma
No projeto de orientação profissional, realizado pela psicóloga em conjunto com uma pedagoga do campus, o intuito é realizar um processo de autoconhecimento, observando as características dos estudantes e das profissões, assim como suas várias possibilidades de atuação.

Outro debate pautado é o de que a decisão não precisa ser definitiva. Saber que a carreira ou a área de atuação pode mudar ao longo da vida ajuda a diminuir a ansiedade dos jovens, contribuindo inclusive para um melhor desempenho nos vestibulares. 

A psicóloga acredita que a decisão também não precisa necessariamente ser tomada de forma. Ela questiona: “Por que você tem que sair do ensino médio e escolher uma faculdade, tão novo, com um monte de dúvidas? Você pode trabalhar, em qualquer área, juntar o seu dinheiro, viajar, fazer um cursinho, dar um tempo até se conhecer melhor e fazer uma escolha mais madura”.

Quanto aos pais, Giliane recomenda o diálogo com os filhos, para entre outros aspectos descobrir em conjunto as razões por trás de uma escolha profissional. “É tentar junto com o filho descobrir aquelas profissões que ele se interessa, e talvez nesse processo colocar no conjunto de possibilidades a sugestão dos pais. Você quer fazer educação física? Aqui na região temos uma universidade pública que oferece engenharia. Vamos pesquisar os dois? E assim decidir juntos. A influência dos pais pode ser muito positiva, e o sentimento de ter o suporte da família é muito importante”, completa a psicóloga.

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