Entrevista

“O profissional da contabilidade precisa se atualizar para manter-se conectado com o mercado"

Mauro Kalinke, empresário da área contábil e presidente do Sescap-PR, em seu segundo mandato, foi o primeiro profissional do interior do Estado a assumir o cargo máximo na entidade, que sempre teve presidentes da capital.

 

Cristina Vargas
Mauro Kalinke é empresário da área contábil e presidente do Sescap-PR

 

Aos 47 anos, natural de São João, mas morador de Pato Branco há 44 anos, Kalinke analisa nesta entrevista o futuro da profissão e dos profissionais que atuam na área, e conta curiosidades vividas por ele ao longo da profissão.

Casado há 26 anos com Lilian Maria Merlin Kalinke, proprietária da escola de inglês PBF, tem dois filhos que devem seguir o exemplo do pai. A filha Heloisa Kalinke estuda em Curitiba e está no 4º ano do curso de Ciências Contábeis da FAE. O filho Matheus Kalinke, com 16 anos, estuda no 3º ano do Ensino Médio e já trabalha com contabilidade, na empresa da família.

À frente de uma entidade que representa 35 mil empresas e 94 atividades econômicas em todo o Paraná, gerencia 75 colaboradores, 10 diretores regionais e uma diretoria composta por quase 40 pessoas, Mauro Kalinke afirma que precisa estar sempre atento. Formou-se em Ciência Contábeis em 1992, pela antiga Funesp, atualmente UTFPR, em Pato Branco.

Sempre trabalhou no município e começou muito cedo na área contábil. Aos 14 anos foi office boy no Escritório Pinheiro e depois trabalhou no departamento pessoal. Em 1988 foi para a empresa Ortec, onde atua até hoje.

 

Como você começou a atuar no Sescap?

Fui convidado no ano de 2001, pelo presidente da época do Sescap-PR, Valdir Pietrobon, que depois foi presidente da Fenacon, para fazer parte da diretoria da entidade. Na oportunidade, eu era presidente do Sindicato dos Contabilistas de Pato Branco, na gestão 1999/2001. Acabei renunciando a presidência do Sindicato dos Contabilistas para assumir um cargo de suplente no Sescap-PR.

Depois disso, comecei a me envolver e ter uma boa atuação junto à entidade. No mandato seguinte fui convidado para o cargo de diretor de Relações com o Interior, que é o diretor que coordena todas as regionais. Na época o Sescap tinha nove regionais, hoje tem dez. Na gestão seguinte fui eleito como o segundo vice-presidente e depois fui eleito presidente, e hoje já estou no segundo mandato.

 

Quais foram os principais desafios no momento que aceitou fazer parte do Secap? Como chegou à presidência da entidade?

Aceitar o desafio foi importante para obter conhecimento em nível estadual. Até aquele momento só tinha conhecimento em nível local e regional. Passei a ter contatos e relacionamentos com várias pessoas do estado. E também passei a ver as particularidades, ver as dificuldades em cada região.

Isso me facilitou, na sequencia, ser o diretor de Relações com o Interior, porque eu já tinha certo conhecimento e relacionamento com o pessoal. Fez com que eu tivesse mais condições de liderar essa equipe.

Um desafio importante foi, realmente, interiorizar o Sescap. Porque a entidade, apesar de ter regionais, tinha uma atuação mais centralizada em Curitiba. Foi preciso fazer um trabalho de interiorização, levar, além dos cursos que tínhamos, outro projetos, fazendo uma movimentação mais regional.

Isso fez também que eu tivesse uma ascensão dentro da entidade. O conhecimento sobre os representados me levou à condição de vice-presidente e também de presidente. Aliás, fui o primeiro presidente do interior, pois o Sescap sempre teve presidentes da capital.

 

Atualmente a carreira de contador é promissora?

Vejo que a atividade da contabilidade é uma das mais promissoras, não só no Brasil, mas também no mundo. Estamos entre as cinco carreiras mais procuradas, pois tudo que envolve gestão, finanças, tributação – hoje com a inserção do meio eletrônico nas empresas, sistema Sped (Sistema Público de Escrituração Digital), nota fiscal eletrônica, conhecimento de transporte eletrônico, situação contábil digital, situação contábil fiscal, enfim – faz com que as empresas de contabilidade necessitem de pessoas qualificadas.

E o profissional da contabilidade é um profissional que tem um conhecimento amplo, em várias áreas, por isso é muito procurado. Mas isso não quer dizer que só isso é o suficiente. Vejo que o profissional da contabilidade é um dos que mais tem que estudar, porque a Legislação Tributária no Brasil é muito mutante. Em todos os momentos está mudando, e isso requer uma atenção especial dos profissionais.

Eu sempre digo, assim como esse sistema digital está inserindo muita gente no mercado, hoje, esse mesmo sistema vai expurgar muita gente do mercado logo, logo.

O que está acontecendo é que em função de ter mais novidades, necessita de mais gente para implantar todos esses sistemas digitais. Uma vez alimentada essa questão, esse trabalho técnico vai deixar de existir. Porque o próprio software (a máquina) vai fazer isso por si só. Isso vai fazer com que muitas pessoas que hoje estão relativamente tranquilas no mercado, são mais técnico-operacionais, se não se qualificarem, buscarem um diferencial para fazer um trabalho de consultoria, de assessoria, de orientação e de conferência, esses vão deixar de existir.

 

Então, a tecnologia tem ajudado ou atrapalhado?

Nesta profissão, ao mesmo tempo em que a tecnologia ajuda, é uma ameaça, porque tudo que for parametrizável, aritmética, dados ou informações, vai deixar de ser feito por pessoas. Quando for preciso cruzar dados e informações, por exemplo, o software vai fazer, substituindo as pessoas. Por isso esses profissionais não podem deixar de se qualificar.

 

Que conselho você daria aos profissionais que estão iniciando carreira na área?

Que eles não deixem de estudar. Que estejam sempre atentos, e além do curso de Ciências Contábeis que estejam fazendo, que busquem participar de outros treinamentos, cursos de qualificação, para poderem estar conectado com o mercado.

 

Quais os passos para não se tornar obsoleto diante do futuro da profissão?

O Sescap está investindo muito nesse sentido. Vendo esse cenário futuro, a entidade está trabalhando há alguns anos nessa linha de atuação. Faz tempo que identificamos o que vai acontecer no mercado e estamos há cinco anos com curso de formação de consultores, na área de gestão empresarial.

Isso porque percebemos que a parte de escrituração contábil e fiscal a máquina vai fazer, e o que o cliente vai precisar? De um profissional que possa orientá-lo, que possa mostrar caminhos, ajudar em tomadas de decisões. Esse curso trabalha as áreas de finanças, marketing, gestão de pessoas, análise de processos, entre outras.

Agora a entidade está partindo para formar profissionais analistas, que possam conferir, orientar e supervisionar equipes na área técnica, ou seja, analistas nas áreas fiscal, tributária, contábil e de departamento pessoal, dentro do projeto Formar.

Em outro patamar, temos o projeto Especializar, que é tornar o profissional especialista. Iniciamos a primeira turma na área societária, fazendo com que o profissional tenha condições de bem assessorar qualquer futuro empresário ou empresário atuante, sobre a melhor forma de constituição da empresa, se na condição de limitada, de sociedade anônima (S.A.), Eireli (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), se fazer fusões, incorporações em empresas, constituições de Holdings, entre outras questões.

O Sescap também tem outro curso na área tributária, para a formação de especialistas em todos os regimes de tributação, em todas as esferas, seja municipal, estadual, federal. Também, de departamento pessoal, nas áreas trabalhista e previdenciária, fazendo com que o profissional tenha condições de fazer auditorias, melhorias de processos, gestão de departamento pessoal, dentro das organizações. E outro, especialista na área contábil, porque a contabilidade requer um profundo conhecimento e com o IFRS (International Financial Reporting Standards), que é o padrão internacional de contabilidade. É possível fazer uma contabilidade capaz de ser analisada por profissionais do Brasil ou de qualquer outro lugar do mundo. Porque hoje a contabilidade passou a não ter mais fronteiras, e com uma linguagem única.

 

As instituições de Ensino Superior também estão com essa visão de futuro para a atividade contábil?

As universidades têm avançado, mas posso dizer que ainda deixam a desejar. Até por isso o Sescap oferece alguns programas complementares para profissionais recém-formados, que se chama Formação na Prática. Trabalha nas áreas de departamento pessoal, fiscal e contabilidade, destinado para acadêmicos ou recém-formados, realizado em laboratório de informática, fazendo toda a parte de escrituração na prática com um instrutor que trabalha dentro de uma organização contábil, para possibilitar aos acadêmicos uma condição diferenciada para ingressar no mercado.

 

Ao longo da sua trajetória profissional, há algum caso curioso para contar?

Para mostrar o grau de confiança que um cliente é capaz de depositar no profissional da contabilidade, e para explicar porque é tão importante que haja respeito por parte do profissional para com o cliente, lembro-me de um caso bem pitoresco.

Houve um senhor, em Pato Branco, que teve várias uniões estáveis, ao longo dos anos. Ele não casava, fazia contratos de união estável, e fiz inúmeros desses contratos para ele com essas pessoas que ele conviveu.

Ele tinha uma grande confiança no nosso trabalho, que não tinha em seus familiares. Confiava as informações, os bens e o patrimônio. A confiança era tanta que quando ele ficou doente e precisou ser hospitalizado, não deixou seus parentes cuidar da empresa. Pediu para a equipe do hospital nos chamar, e entregou a chave da empresa dele para nós administrarmos enquanto ele estava impossibilitado.

Eu e meu irmão Marlon, fomos por um tempo cuidando da empresa. Infelizmente aquele senhor não se recuperou. Quando ele faleceu, entrou o processo de inventário e tudo o que ele temia que podia acontecer, aconteceu. Na época ele já não estava mais convivendo em união estável com ninguém, só que em uma das uniões estáveis que ele contratou anteriormente, ele acabou adotando uma filha com a mulher que convivia com ele naquele momento. Aconteceu que esta mulher acabou entrando na Justiça para administrar a empresa, bem como os irmãos dele, e acabou gerando uma grande confusão judicial.

Ele confiava mais na gente do que na família. Passamos a fazer total gestão do dinheiro da empresa e depois prestamos conta em juízo, até que o juiz nomeou um dos familiares para administrar a empresa. E o que aconteceu após sua morte, confirmou que ele tinha razão.

Foi uma situação que nos marcou muito. Deixa-me orgulhoso saber que tem vários clientes que tem essa relação de confiança com o profissional da contabilidade. Mas essa relação só chega a esse ponto quando o profissional trabalha com seriedade, honestidade e ética.

 

 

 

 

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