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O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração

O guitarrista Andreas Kisser contou como surgiu o conceito por trás do último álbum do Sepultura, que comemora os 30 anos da banda. Ele ainda expôs um pouco da própria história, e de como vê as mudanças da sociedade e do heavy metal, desde que iniciou a carreira na década de 1980

Marcos Hermes/Divulgação

Andreas Kisser

Metrópolis, um clássico do expressionismo alemão filmado em 1927, é sem dúvida um marco na história do cinema. Uma experiência visual muito à frente do seu tempo, o longa-metragem de Fritz Lang conta a história de uma imensa cidade com apenas duas classes sociais: na superfície, os ricos empresários representam a “cabeça” da sociedade, tomam as decisões administrativas, alheios à vida nas fábricas e desfrutam dos prazeres da vida; no subsolo, os trabalhadores, as “mãos”, executam os serviços em jornadas estafantes, em uma vida sem qualquer conforto.

Quer fonte de inspiração melhor para as letras críticas e subversivas do Sepultura? Esse contexto, por si só, possivelmente já justificaria a escolha da obra como tema do seu último disco. Mas a história do filme fica mais emocionante quando um cientista maluco constrói um robô, ao qual ele dá a aparência exata de um ser humano. E o empresário mais poderoso de Metrópolis, temendo uma rebelião dos trabalhadores, resolve usar o androide para dissolver os dissidentes.

E é desse ponto em especial que o Sepultura – a banda brasileira de maior repercussão no exterior – tirou a inspiração para o álbum que celebra os 30 anos de carreira, e que leva o estrambólico nome de “The mediator between head and hands must be the heart”, cuja tradução está no título desta matéria. Também é a frase que abre e fecha o filme. A moral é que deve haver um meio-termo entre “cérebro” e “mãos”, de modo que os trabalhadores não devem ser meras ferramentas irracionais, e nem os patrões exploradores insensíveis.

À primeira vista, pode parecer que os pontos de vista do filme estejam fora de moda, e que sirvam melhor para a sociedade do início do século 20, quando o fordismo e o taylorismo colocavam o trabalhador no mesmo nível das máquinas. Mas para o guitarrista Andreas Kisser, mesmo na sociedade pós-moderna o enredo de Metrópolis continua atual.“As pessoas agem muito por impulso, sem questionar o que fazem”, destacou. “E recebendo a informação na cabeça e agindo com as mãos, sem argumentar, sem protestar, sem questionar, você nada mais é do que um robô”.

Na opinião dele, a sociedade hoje vive um paradoxo, no qual as pessoas têm muito mais meios de acesso à informação, mas se prendem ao conhecimento fútil. E mesmo quando buscam notícias importantes, elas descartam aquelas que mostram um ponto de vista diferente. Isso, segundo Kisser, resulta em alienação geral – e a consequente aceitação cega do status quo.“Hoje com a internet você tem várias possibilidades de imprensa alternativa, não é só Globo, CNN, BBC. Por mais absurdo que possam ser essas teorias de conspiração e tudo, elas são um ponto de vista diferente. Você sempre vai achar algo de real em qualquer informação, qualquer notícia, mesmo aquelas que possam parecer a coisa mais absurda”, opinou.“Elas [as pessoas] têm um pouco de preguiça de procurar outros pontos de vista. Viajar também ajuda, conhecer outras realidades, não ficar muito preso sempre ao mesmo tipo de informação”.

As letras

Mas quem espera um álbum temático, como o Sepultura fez nos discos Dante XXI e A-Lex, cujas músicas têm as letras baseadas, respectivamente, n’A Divina Comédia e no filme Laranja Mecânica, pode esquecer essa ideia.As referências explícitas ao filme Metrópolis terminam no título do álbum. As letras são muito variadas e – embora todas com o característico tom crítico da banda –, falam de religião (na faixa The Vatican), guerra (Trauma of War), mídia (Manipulation of Tragedy), desastres naturais (Tsunami) e a alienação da sociedade (The Bliss of Ignorance). A banda lembra até a tragédia da Boate Kiss, na grave e lenta faixa Grief (lamentação). Mas o tema central permanece, conforme o nome do disco, a passividade robótica de grande parte da população. “Essa frase [do título] expressa esse ponto, de não perder o coração, a parte humana. De não agir sem questionar”, acrescentou Kisser.

A música

Por mais que o Sepultura nunca tenha perdido a sonoridade pesada, agressiva e rápida, o “The mediator” é sem dúvida o álbum mais pesado dos últimos anos. Uma obra que verdadeiramente reflete a cara da banda, e lembra muito os históricos discos Arise (1991) e Chaos A.D. (1993). Nada mais digno para celebrar três décadas de existência.A novidade no álbum é a mudança de baterista – o jovem Eloy Casagrande, que substituiu Jean Dolabella, e logo participou de todo o processo de composição. A destreza do rapaz (que nasceu em 1991, quando o Sepultura já havia lançado seu quinto disco) se mostra na velocidade das baquetas, nas variações súbitas de tempo e na mescla das batidas enérgicas do heavy metal com ritmos folclóricos brasileiros.

Além de poder tocar com uma banda que serviu de inspiração para ele se dedicar à música, Eloy teve oportunidade de gravar com o mítico baterista Dave Lombardo, um dos fundadores do Slayer, uma faixa bônus para o álbum. O resultado foi um épico duelo de baterias.“Apesar de jovem, o Eloy é um músico bem experiente. Ele começou a tocar bateria muito cedo. Já tinha feito turnês internacionais com o André Matos [ex-Angra e Shaman] dois anos atrás, e é um cara que já tem todo seu equipamento, todo seu lance profissional, dedicado, sempre pronto”, afirmou Kisser. “Ele só veio acrescentar, e serviu como uma luva, musicalmente, à banda. O Eloy vem num momento muito bom do Sepultura, e estamos curtindo muito lá no palco”.

Heavy Metal

O Sepultura surgiu, há 30 anos, na época em que o heavy metal começava a tomar a forma que tem hoje, com o fim da soberania dos britânicos, e o início de várias bandas de sucesso por todo o mundo – o que contribuiu com sonoridades inéditas.Para Andreas Kisser, que acompanhou, em sua carreira, as mudanças no mundo da música e na indústria fonográfica, o metal evoluiu muito além de outros estilos musicais, e ganhou formas muito variadas – o que mostra sua universalidade.“É uma música que se misturou aos outros estilos. O Sepultura utilizou as coisas do Brasil. O próprio Metallica é mais country, americano, e tem aquelas coisas da Escandinávia, mais góticas. Legal ver isso de o metal ser uma música versátil, de não perder o peso, manter aquela coisa extrema, agressiva, e ao mesmo tempo incorporar os estilos e ritmos que deixam a música mais interessante. E é por isso que é um estilo tão popular mundialmente. Eu acho que é um dos estilos mais populares no mundo”, avaliou.

“O metal não dependeu da mídia. Não tem vídeo de metal nos programas. Nos prêmios da música brasileira, o metal é completamente ignorado. Algumas culturas até proibiram o metal, e nem por isso ele está ausente lá. E é um estilo que passa de geração para geração. Não depende de um hit, ou de um clipe, ou de uma jogada de marketing. É uma coisa que passa de pai para filho, mesmo. E é isso que mantém a música tão forte e tão honesta”.

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