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O legado do menino bruxo

Há 20 anos era publicado na Inglaterra “Harry Potter and The Philosopher´s Stone”, livro que conta a história de um menino órfão que passa a frequentar uma escola de magia. A obra foi o primeiro título de um dos maiores fenômenos de venda da história da literatura. Harry Potter se tornou um ícone da cultura pop, conquistou uma legião de admiradores e apresentou o mundo da literatura para muitos jovens 

Matéria publicada originalmente na revista Vanilla de novembro de 2017 (Fotos: Helmuth Kühl)

No quarto da estudante de Letras Ingrid Gabrieli Hoelscher, uma enorme bandeira amarela conquista a atenção já na primeira passada de olho. A flâmula possui um escudo medieval ao centro, com um texugo em primeiro plano e a palavra “Hufflepuff” na base. 

Ingrid tem 22 anos de idade, e a considerar essa e outras pistas distribuídas pelo cômodo, ela faz parte de uma geração impactada em cheio pela história de um menino bruxo e os amigos que conheceu em uma escola de magia. Junto com o protagonista, o grupo de personagens vai amadurecer, passar pelas angústias e descobertas da adolescência, tudo isso enquanto combate o mau, personificado na figura de um bruxo das trevas.

É a saga Harry Potter, cujo primeiro livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, completou 20 anos de lançamento em junho passado. A bandeira na parede de Ingrid traz a insígnia da “Lufa Lufa”, uma das quatro casas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde se passa boa parte da história.

"Lufa Lufa"

 

O que surgiu como uma série de livros, virou uma franquia cinematográfica, ambas muito bem-sucedidas, e hoje é um ícone da cultura pop assim como Star Wars e os super-heróis da Marvel. 

E assim como estas gerou um enorme mercado com toda sorte de produtos, de toalhas de mesa, a jogos de videogame, a camisetas, a canecas, a réplicas dos objetos mágicos usados pelos personagens, como o colar Vira-Tempo, uma espécie de máquina do tempo portátil, que a jovem manuseou durante a entrevista.

O universo de Harry Potter é tão importante para Ingrid que lhe rendeu tatuagens – a representação das relíquias da morte, em seu braço esquerdo, e o número da plataforma de embarque para Hogwarts: 9 ¾, em seu braço direito – e inspirou o tema de seu trabalho de conclusão de curso. De modo geral, a estudante pretende analisar aspectos específicos da história contada pelos filmes a partir dos pontos de vista de pensadores como Sigmund Freud, Jacques Lacan e Carl Gustav Jung. 

 “O segundo capítulo (do TCC) será sobre Harry Potter e o Cálice de Fogo, e os arquétipos de Jung. O livro tem muitos personagens envolvidos, e eu vou analisar como esses personagens são vistos, quais os arquétipos de cada um”, resume Ingrid, sobre parte de seu trabalho.

A estudante Ingrid Gabrieli Hoelscher 


E ela não foi a única a abordar a série pelo viés acadêmico. Em seu curso, na UTFPR de Pato Branco, outros acadêmicos também pesquisaram Harry Potter em seus trabalhos de conclusão. 

Ingrid conheceu a franquia por volta dos 14 anos de idade, por meio do filme Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro dos oito títulos filmados a partir dos livros. Ela estava na oitava série, e conseguiu o livro de uma colega de classe, e a partir daí não parou de ler. “Isso me chama muito a atenção em Harry Potter, a vontade que a criança tem de continuar a leitura”, opina.

Para Ingrid a série também significou o marco de uma mudança de comportamento. Depois de Harry Potter, a estudante passou a ler mais, sobretudo literatura fantástica.

Réplica do vira-tempo, uma espécie de máquina do tempo usado pelos personagens da série


Não foi difícil encontrar pessoas que, assim como Ingrid, dizem ter se tornado leitores de fato depois de conhecer Harry Potter. E parece que a série continua gerando o mesmo efeito. 

A professora de língua portuguesa Camila Corrêa, 27 anos, conta que vários de seus alunos disseram ter começado a ler com mais frequência depois de conhecer a série. “Harry Potter é um best-seller, e por isso recebe certo preconceito. Mas para muita gente ele foi porta de entrada para a leitura, e eu acho muito importante isso de despertar a leitura muito cedo, pois este é um hábito que você desperta lá com 10, 11 anos, e não perde mais”, analisa.

Pode-se dizer que ela própria é um exemplo disso. Camila conheceu a saga Harry Potter na quinta série, por intermédio de uma colega que levou os livros para a escola. De imediato, o que lhe chamou atenção foi a beleza da capa. “Comecei a ler o primeiro, me apaixonei, e li os outros. Eu já tinha o hábito da leitura, mas não tanto. Lia por causa da minha mãe, que tinha livros em casa. Mas o pontapé para deslanchar mesmo foi a série Harry Potter”, lembra.

No trabalho de conclusão do curso de Letras, Camila investigou o despertar do hábito da leitura. De modo geral, na pesquisa ela questionou estudantes do oitavo, nono ano e Ensino Médio de uma escola rural sobre como haviam começado a ler. 

Cerca de 80% havia ingressado no mundo da literatura através de best sellers como Harry Potter, Crepúsculo e Percy Jackson, o Ladrão de Raios. “Através deles, eles vão lendo outras coisas, também os clássicos, mas a porta de entrada foram essas séries”, comenta a professora.

"Eu já tinha o hábito da leitura, mas nem tanto. O pontapé mesmo foi Harry Potter", Camila Corrêa, professora 


Para os fãs, são vários os motivos que tornam a série Harry Potter especial. Ingrid menciona a conexão entre o universo de fantasia da obra com a realidade, sobretudo pela representação de situações como a discriminação.

Em Harry Potter as pessoas sem poderes mágicos não sabem da existência dos bruxos, e são chamados de forma jocosa por eles de “trouxas”, ou “sangue ruim”. Hermione Granger, personagem favorita de Ingrid, por exemplo, sofre preconceito por ser uma exceção: é filha de “trouxas” e frequenta a escola Hogwarts, para jovens bruxos.

Segundo Ingrid, Hermione também é um símbolo do empoderamento feminino. “Isso fica muito evidente na série. Ela é uma menina muito inteligente, que não liga para a aparência, que continua estudando e se dedicando mesmo sendo motivo de chacota”.

Além disso, Hermione tem papel decisivo na solução de vários conflitos da narrativa, o que para Ingrid, deveria garantir ainda mais crédito a personagem. Luna Lovegood, também chama a atenção de Ingrid. A personagem excêntrica representaria muito bem o ambiente mágico da série.

A identificação com os personagens e o contexto da obra, pode ter sido fundamental para o seu sucesso. Quando leu Harry Potter pela primeira vez Camila Corrêa tinha 11 anos, a mesma idade do protagonista no primeiro livro. “Era alguém da minha idade, numa história tão incrível”. Além disso, a professora também se identifica com Hermione, a única menina no trio de personagens principais.  
 
Camila também possui sua coleção de lembranças da franquia, como uma toalha de mesa, jogos de videogame, os livros que folheia e relê quando bate a saudade, e suas tatuagens. No braço direito ela tem um desenho que combina as relíquias da morte com um cervo, o patrono de Harry Potter, um feitiço que gera um animal etéreo, e que só pode ser conjurado por magos de bom coração.(tatuagem da camila)er personagens com a sua idade vivendo em um universo fantástico também cativou a publicitária Iara Picolo, 24 anos de idade. “Eles passavam por situações parecidas com as que eu vivia, apesar de estarem em um lugar bem mais legal. Foi uma sensação de pertencimento”.

As relíquias da morte e um cervo, o patrono de Harry Potter, no braço de Camila


Um pertencimento de longo prazo, explica ainda a publicitária. “Foi uma história que me acompanhou por muito tempo. Eu comecei a ler com 12 anos e terminei com 17 anos. Foi a sensação de que eu cresci com isso, e que isso mudou meu pensamento de alguma forma, me ensinou alguma coisa. Tem coisas ali na história que formam o teu caráter”.

Ela cita uma lição do livro que pode ser aproveitada: o conceito de coletividade. “Harry está rodeado de pessoas bacanas, e ele não faz absolutamente nada sozinho e nunca tomou a glória pra ele, mesmo que no fim das contas fosse dele. Hoje eu trabalho muito bem em equipe, por exemplo”.

Iara também evidencia discussões presentes nas entrelinhas, como política, justiça, poder e a dualidade entre o bem e o mal. Ela analisa que mesmo Voldemort, o grande vilão da série, possuía qualidades, assim como o pai de Harry, o grande herói, praticava bullying quando jovem.

Iara Picolo, publicitária, que fala de literatura no canal "Conto em Canto", no Youtube


A publicitária também conheceu os livros por intermédio de amigos da escola, e também é fã de Hermione Granger. “Pra mim é uma personagem sensacional, assim como a Bellatrix, apesar de vilã. Voldemort e Dumbledore, por serem muito sábios, apesar de o serem de maneiras diferentes”,

Ela também avalia que Harry Potter foi sua primeira experiência de fato com literatura. Hoje ela não só lê como produz conteúdo sobre livros e leitura. Há cerca de dois anos Iara comanda o canal “Conto em Canto”, no Youtube, onde publica vídeos com resenhas, comentários e experiências sobre o assunto.

Não é um canal sobre Harry Potter, mas as referências a série estão nos quadros dispostos no cenário onde Iara grava seus vídeos.  “Assim como Harry Potter foi uma grande experiência pra mim, outros livros estão sendo grandes experiências para outras pessoas hoje, e é bacana ter essa troca”.

 

Por que fez tanto sucesso?

Não é tão simples apontar as razões que transformam um livro em um campeão de vendas, sobretudo uma série tão popular que alçou sua autora, J.K Rowling, ao posto de bilionária. Apesar disso, a reportagem de Vanilla conversou com professores de literatura para especular algumas possibilidades.

A doutora em estudos linguísticos e literários em Inglês, e professora da UTFPR de Pato Branco, Mariese Ribas Stankiewicz, acredita que o contexto e a época em que o livro foi lançado podem ter contribuído. Ela lembra que há cerca de 20 anos, na Inglaterra, estava acontecendo um resgate do folclore relacionado a fadas, bruxos e outros assuntos correlatos.

“O bruxo foi retomado pela indústria mercadológica como facilmente comercializável. Então gerou-se muita literatura, desenhos animados, e não somente Harry Potter. Outros autores também dedicaram parte dos seus trabalhos a esse assunto”, comenta a professora. 

Quanto a narrativa, Mariese especula que inserir um menino comum, que cresce e amadurece em um ambiente de fantasia também pode ter contribuído para chamar e prender a atenção do público.

Alguns dos vários lançamentos da série. Da coleção de Iara Picolo.


Na opinião de Rosangela Marquezi, também professora de literatura da UTFPR de Pato Branco, o sucesso da obra se relaciona com o mundo mágico que apresenta. “Hogwarts é um outro mundo, e é muito natural que na adolescência a gente se refugie em mundos paralelos, seja no pensamento ou por meio da leitura. A frase “Ler é Viajar” é senso comum, mas é uma verdade. A leitura nos permite sair da mesmice e isso o mundo mágico de Hogwarts nos permite fazer. Além disso, o homem tem, desde sempre, uma curiosidade sobre magia, mistérios. Esse é o outro atrativo da obra”, analisa.

Apesar do sucesso, nem todo mundo gostou de Harry Potter. De modo geral, a crítica especializada não costuma ver best-sellers com bons olhos. Segundo Rosangela, Harold Bloom, um dos críticos mais respeitados da atualidade, teria dito que Harry Potter é um dos livros mais mal escritos que já leu, e que não deve sobreviver a passagem do tempo. 

Rosangela também não é das maiores fãs da série, pois acha, por exemplo, que há clichês na história “e uma estrutura muito certinha em relação ao bem e ao mal”, opina. Mas ela pondera que sua impressão poderia ter sido outra, se tivesse lido a obra na adolescência e não já adulta. 

Porém, ela acredita que o sucesso de Harry Potter não deve ser negligenciado, e recorre a outro crítico para justificar, Italo Calvino. “(Ele) dizia, em ´Por que ler os clássicos´: “O ‘seu’ clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele. Ou seja, cada um de nós elege o livro que nos é clássico”, diz a professora, que começou a ler via romances como Sabrina, Júlia e Bianca, que classifica como fraquíssimos em qualidade literária.

A professora Mariese também acredita que a obra não deve ser menosprezada. “É óbvio que não é um James Joyce, e nem precisa ser; porque ela está aqui, nesse momento, para ser apreciada. Então prejudicar esse momento literário é uma ignorância”.     

E ambas acham importante o fato de que os livros de J.K Rowling apresentaram a literatura para muitos jovens. “Tenho muitos alunos e ex-alunos que têm uma relação de amor com a obra, o que é muito legal, pois sei que são ótimos leitores de outros textos literários também”, diz Rosangela. “Nós não somos um povo leitor, por diversas razões. E de repente, textos como Harry Potter trazem motivos para ler. Esses textos que você se identifica, vão formar esse leitor mais ativo ao longo dos anos”, diz Mariese.

 

Bilhões e bilhões

Harry Potter e todo o seu universo fantástico foi criado pela escritora britânica J.K Rowling. Traduzido para mais de 79 idiomas e distribuído em mais de 200 territórios, a série Harry Potter vendeu mais de 450 milhões de exemplares em todo o mundo. Pelo menos. O primeiro título, Harry Potter e a Pedra Filosofal (capa abaixo), foi publicado em 26 de junho 1997 na Inglaterra, e mais seis volumes foram lançados até 2007, ano de lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte, o desfecho da história.

Capa da primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, publicada na Inglaterra em 1997


A coleção de livros também gerou uma franquia cinematográfica. Foram oito filmes, todos figurando na lista das 50 maiores bilheterias de todos os tempos até então. Até 2011, a arrecadação dos filmes já somava R$ 7 bilhões de dólares.
 
Por conta do sucesso, outras obras continuam explorando o universo expandido de Harry Potter, como o site Pottermore, o filme “Animais Fantásticos e onde Habitam”, e o livro “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”.

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