Vanilla

O avião, o piloto, o acidente

O ano de 1967 é um legado para a aviação. Há 50 anos, no dia 28 de agosto, morria em um acidente aéreo Lydio Guerra, o primeiro piloto de Pato Branco, no primeiro avião de propriedade de uma família local. Essa é a história do início de um sonho. Contudo, não de seu fim
Destroços do avião de Lydio Guerra (Foto: Arquivo/Família Guerra)

Fotos: Helmuth Kühl e acervo da família Guerra

Hoje, Pato Branco respira aviação. O aeroporto Juvenal Cardoso está prestes a entrar na rota de voos regulares, mas a paixão por aviões está presente na cidade e na vida de seus moradores há muito tempo. Vamos voltar a 1967, quando o primeiro avião “nativo” do município pousou por aqui. Já havia outros voos sobrevoando o céu pato-branquense, é verdade – a construção do aeroporto data de 1957, na gestão do ex-prefeito Harry Valdir Graeff. 

Entretanto, foi graças ao investimento da família Guerra que o primeiro avião de Pato Branco aterrissou na pista. Comprar a aeronave foi ideia de Waldir Guerra, segundo filho do pioneiro Prosdócimo Guerra. Administrador nato, sugeriu à família que fizesse a aquisição de olho nos negócios futuros e promissores. Vislumbrou na aeronave a chance de desbravar fronteiras e abrir fazendas no Mato Grosso. Além disso, com o avião, a família poderia investir em algo novo na região, encurtando distâncias por meio do táxi aéreo. 

Prosdócimo Guerra tinha oito filhos, e o mais velho, Lydio, foi escolhido para ser o piloto. Sobrevoou o céu do Sudoeste transportando pessoas, histórias e sonhos. 

O avião era um Cessna Skylane, prefixo PT 100, com espaço para quatro tripulantes: piloto, copiloto e dois passageiros. Um avião pequeno, porém, o mais popular da época. A aeronave da família Guerra foi importada dos Estados Unidos.

Ricardo Guerra, sobrinho de Lydio e filho do empresário Fernando Guerra, foi quem contou à equipe da Vanilla as histórias de alguns táxis aéreos feitos por seu tio.

Em 67, o Sudoeste era uma região de desbravamento, tomada por pioneiros. Naquela época, homens portavam armas naturalmente. A pista do aeroporto era de terra, mas ficava exatamente no mesmo local, mesmo eixo. Em uma de suas viagens de trabalho, Lydio voou ao Norte do Paraná.

 

A licença de aviador de Lydio Guerra

 “Ele convidou meu pai, o caçula da família, para acompanhá-lo. Chegaram os contratantes do voo, e quando entraram no avião, os dois caras estavam armados até os dentes. Meu pai conta que Lydio começou a olhar aquela situação, e com receio de ser um sequestro ou algo pior, parou o avião no meio da pista antes de decolar. Olhou para os dois e falou: ‘Posso pedir um favor. Vocês estão armados, e o revólver interfere na bússola, então, será que posso guardar as armas aqui comigo para evitar problemas de interferência?’. Lógico que o revólver não interfere, mas meu tio precisou usar essa desculpa para relaxar na viagem”.

Relíquias de família
Até hoje, a família Guerra guarda as lembranças do primeiro avião e do primeiro piloto. São memórias que não se apagam, nem após 50 anos. Enquanto conversávamos sobre Lydio, o empresário fez questão de mostrar documentos do aviador, que estão manchados pelo tempo, desgastados, mas que parecem mais atuais do que nunca, devido ao cuidado e respeito à memória.

Após meio século, a carteira pessoal de Lydio com as iniciais L.G, ainda guarda as lembranças do rapaz jovem e solteiro, de 33 anos. Dentro, há documentos pessoais, uma flor seca e um cartão, com os seguintes dizeres: “Rifa do meu coração que nunca amou, mas que te ama pela primeira vez loucamente. Loteria do teu coração no dia em que me disseres o sim. Amo-te. Devolva-me este cartão dobrando o canto que lhe convier. Sim ou não”. O cartão, guardado na carteira de Lydio, está dobrado no sim.

Pertences do piloto, recolhidos no local do acidente

 

Depois da formação em Curitiba, o jovem ganhou notoriedade. Era o primeiro piloto de Pato Branco e logo começou a trabalhar. Fez diversos táxis pela região e o país, mas o tempo foi curto – voou de junho até o fatídico dia 28 de agosto de 1967, quando faleceu em um acidente aéreo. Foram exatos dois meses de voo. O filho mais velho do pioneiro Guerra faleceu rápido demais, não dando tempo de nem sequer colocar as portas do hangar. 

No aeroporto, o hangar e o terminal de passageiros leva o nome de Lydio Guerra, homenagem da família e do município de Pato Branco durante a gestão de Alberto Cattani, respectivamente. Parte do dinheiro do último táxi aéreo, encontrado no local da tragédia, foi recuperado e doado à Paróquia São Pedro Apóstolo, de Pato Branco.

28 de agosto 
Uma espécie de diário de bordo. É o que todo piloto faz quando voa. Trata-se de registros do local da decolagem: onde pousou, quantas horas de voo, enfim, tudo é minuciosamente anotado. Ricardo mostrou à reportagem o relatório de voo de Lydio, do primeiro dia que teve contato com o avião, até seu último voo. Tudo anotado com sua letra.

Antes de decolar de Pato Branco rumo a Joaçaba (SC), no dia 26 de agosto, um menino de 11 anos ajudou a abastecer a aeronave. Era Antônio Costa, o conhecido Toninho, que até hoje trabalha no aeroporto, coordenando o pouso e a decolagem na pista. 

Naquele voo que durou 45 minutos, estavam mais três amigos: Darci, Almeris Schiavenin e Antônio Comin, o Vevo. Lydio os deixou em Joaçaba e seguiu para Porto Alegre (RS) para deixar um passageiro. Ainda pousou em outra cidade do Rio Grande do Sul, Erechim, dando continuidade ao trabalho de táxi aéreo. O combinado entre os amigos era para se encontrarem em Chapecó (SC) e de lá seguirem ao Sudoeste. 

Uma brincadeira entre amigos, ou, para os mais espirituosos, o destino, fez com que Lydio não esperasse os amigos em Chapecó. Do aeroporto de Santa Catarina decolaram apenas ele e Almeris – Darci e Vevo ficaram para trás, em Joaçaba. 

Era uma segunda-feira. O tempo começou a fechar. Havia muitas nuvens no céu. Mesmo assim, Lydio e Almeris decidiram voar. Ao mostrar o relatório de voo à equipe da Vanilla, Ricardo apontou o último registro de seu tio, que ficou em branco, incompleto. “Antes de decolar ele apenas escreveu Chapecó, e não teve tempo de marcar a hora e a chegada em Pato Branco. Geralmente o piloto anota esses detalhes quando chega ao destino”.

Destroços do avião de Lydio Guerra. No acidente, em 1967, morreram ele e Almeris

 

“Meu coração dizia que ele estava vivo”
Com cerca de 30 mil habitantes na época, todos se conheciam em Pato Branco, e sabiam, que se o avião decolou com quatro amigos, voltaria com três - isso porque, Darci, o quarto passageiro, conhecido como Darcizinho, ficaria em Joaçaba (SC). E assim que a notícia do acidente se espalhou pelos quatro cantos do Sudoeste, os moradores lamentaram a morte dos três jovens. 

Menos Leonete Ramires Comin, mulher de Vevo, personagem marcante desta história. Hoje, adoentado, diagnosticado com mini demência e mal de Parkinson, ele tem pouquíssimas lembranças daquele dia, mas traz no semblante memórias que não se podem expressar em palavras.

Segundo sua mulher, Vevo ficou em Joaçaba e não retornou com eles. “Diz que quando saíram de lá, disseram assim: ‘vamos deixar aqueles dois comendo poeira’, porque era chão batido. E não pegaram eles no lugar combinado”. 

Leonete recorda que o marido estava em uma esquina, ainda em Joaçaba, esperando o ônibus. Um empresário de Pato Branco apareceu na cidade para ir ao banco. Ofereceu carona. De lá foram até Palmas, onde novamente o homem parou para fazer serviços bancários. Foi assim que Vevo ficou sabendo do acidente.

“Ele pediu se ele era de Pato Branco, e contou sobre a queda de um avião. Vevo me disse, na época, que rapidamente falou que sim, e que havia duas pessoas mortas – os amigos Lydio e Almeris”.

Naquela segunda, estava nublado e garoava na cidade. Leonete e Vevo eram vizinhos de Lydio, moravam no centro. Quando aconteceu o acidente, Leonete estava em casa, em companhia dos filhos pequenos: um de três anos e outro recém-nascido, de apenas 35 dias.

Antônio Comin, o Vevo, e sua esposa Leonete. Brincadeira salvou a sua vida

 

Mesmo que todos acreditassem que Vevo também estaria morto, Leonete se manteve firme, e confiava na boa notícia. E ela veio. O marido chegou a Pato Branco na noite de segunda, enquanto seus amigos já estavam sendo velados – o velório aconteceu na residência da família de Lydio, na Rua Ibiporã, onde hoje está localizado o restaurante Nona Joana.

“Eu tinha certeza de que ele estava vivo, mas vê-lo foi melhor do que a certeza. As pessoas que se foram eram amigos, muito queridos. É algo que jamais vamos esquecer, jamais. Sempre ficará guardado na lembrança”, emociona-se. Vevo não voou mais de avião. Nunca mais.

A capela 
Dez minutos. Este era o tempo que faltava para a viagem de Lydio chegar a seu destino. O avião caiu exatamente na rota de Pato Branco, no município de Coronel Martins, em Santa Catarina.

A equipe da Vanilla voou até o local, na companhia do empresário Ricardo Guerra e do piloto Fernando Martinello. Além do registro fotográfico, a intenção era decolar de lá em forma de homenagem. Emocionado, Ricardo disse à reportagem, que iríamos finalizar o voo que seu tio não conseguiu naquele agosto de 67.

Lá, exatamente onde o avião caiu, há uma capela que foi construída pela família. Foi o pai, seu Prosdócimo Guerra que quis homenagear o filho. Após seu falecimento, a tarefa de cuidar do local ficou com Ricardo, que cumpre à risca o pedido do avô. 

Capela construída no local do acidente, em Coronel Martins, Santa Catarina 

 

A capela foi erguida exatamente no lugar em que o avião parou, e segundo familiares, as marcas do acidente estão até hoje no local. Há destroços do avião enterrados no chão. Mas o que se sente ao chegar à capela é paz e um sentimento de que o primeiro piloto de Pato Branco deixou seu legado eternizado.

 

No retorno, pouco antes de entrarmos no helicóptero, conhecemos seu Valdir Biacin, de 77 anos. Ele mora há mais de 50 na comunidade, e foi uma das primeiras pessoas a chegar ao local do acidente. “Ouvi o barulho. O avião ‘tinha ideia’ de sentar no chato e bateu em uma árvore. O motor desceu no peral. Não sobrou nada, arrancou as asas, moeu”. Ele e o pai estavam tratando a criação quando ocorreu a tragédia.

Valdir Biacin foi uma das primeiras pessoas a chegar ao local do acidente

 

Rádio deu a notícia
No ano de 1967, o jornalista Laudi Vedana, hoje, proprietário da Elite FM, trabalhava na rádio Celinauta. “Era meu horário de trabalho, onde sempre apresentava os noticiários, avisos, convite, recados e com audiência total, já que não havia TV”. Naquela segunda, Laudi recorda da chegada de seu Prosdócimo Guerra, entre 9h e 10h, para saber mais informações. 

“Em 67, as comunicações eram precárias, mas como o acidente ocorreu próximo a Pato Branco, e sendo com avião, teve repercussão imediata. O Prosdócimo ficou muito estremecido, e com a divulgação da rádio [que era o único meio de comunicação social] toda a sociedade ficou sensibilizada com o ocorrido com a família Guerra.”
 

Hipótese sobre o acidente 

Comandante Suzin, um dos principais especialistas em avião de Pato Branco, nasceu em 1967 – ano em que Lydio morreu. Pedimos a ele, se há uma explicação sobre o que pode ter acontecido naquele dia 28 de agosto. Para ele, pode ter sido algo muito semelhante ao acidente que causou a morte de uma noiva, que caiu de helicóptero em São Paulo em 2017. 

“Nos meses de maio até agosto, nossa região costuma formar nevoeiros. Na época, a informação e a comunicação eram muito precárias. Em Chapecó, pelo que se sabe, havia boa condição de voo, mas Lydio não tinha conhecimento de como estaria no destino, no caso, Pato Branco”.

Comandante Suzin acredita que no decorrer da viagem, a condição de visibilidade se deteriorou e o piloto perdeu a referência com o solo. “Creio que ele não tinha muita habilidade para voar por instrumento, quando o piloto perde a referência com o solo e é muito fácil se desorientar. Nessa situação, não se tem nenhuma noção de como a aeronave está voando, se subindo, descendo ou em curva, a não ser que você tenha instrumentos que lhe deem esse tipo de informação e saiba fazer uso delas para manter um voo reto e nivelado”.

O comandante diz que Lydio não tinha este treinamento e provavelmente tenha entrado em parafuso, vindo ao solo “sem entender de fato o que estava acontecendo”.

Um nome

Na capela situada no local do acidente, o nome do piloto está escrito com i e não com y, como é o correto. Mas existe um Lidio com essa grafia na família. Trata-se de Lidio Guerra, engenheiro agrônomo, 49 anos de idade, filho de Arno Antonio Guerra. 

“Alguns meses após a morte dele, minha mãe engravidou. Atendendo a um desejo de minha avó paterna, Adele, de que o primeiro neto a nascer levasse seu nome, tive o privilégio de carregar esta herança”.

Lidio nasceu em Vitorino, quase um ano após o acidente, mas seus pais se mudaram para o antigo Mato Grosso – hoje Mato Grosso do Sul – quando ele ainda tinha três anos.

Além do nome, Lidio guarda com carinho uma lembrança: o prendedor de gravatas que seu tio usava no momento da queda. “Recebi de minha mãe este objeto muito valioso. Ela conseguiu recolher e limpá-lo naquele dia. Este pequeno material está entre os objetos mais representativos de meus pertences, vivificando sua presença em meu dia a dia.”

O prendedor de gravatas usado pelo aviador no último último voo, herdado pelo sobrinho que foi batizado com seu nome: Lidio

 

“Meu tio era o irmão mais velho da família. Era muito visionário, inteligente, sempre à frente de seu tempo. Foi assim que sempre o visualizei. Com estas características, logo tornou-se piloto de avião, uma conquista muito rara para a época, sem imaginar que desta conquista viria, justamente, o seu fim”, declara. Atualmente, Lidio mora com a família em Dourados (MS).