Vanilla

Nascendo à moda antiga

Para muitas mulheres, a dor do parto não é nada se comparada à felicidade de se ver o rostinho do bebê. Elas não se amedrontam, e mesmo diante de possibilidades mais tranquilas, como a cesariana, optam pelo parto humanizado, sem intervenções

Caroline Moschei

Pâmela Batistella e seu filho Valentin

Peço licença aos leitores para começar com minha história. Sou mãe, e sonhava com o parto normal. Tenho dois filhos: o João Pedro, com 12 anos, e Maria Alice, com dois. Apesar do sonho, ambos nasceram de cesariana.

O João começou a vir ao mundo por indução, quando eu tinha 23 anos. Fui medicada, fiz raspagem e aguardei horas e horas pelo trabalho de parto. Tive dores, foi tenso. A bolsa estourou, mas a dilatação não evoluiu. Acabei na sala de cirurgia. A cesárea foi rápida, 20 minutos, pelo SUS.

A Maria nasceu com hora e dia marcados. Disseram-me que não poderia ser parto normal, pois já tinha feito cesárea e havia o perigo da ruptura uterina. Não arrisquei. Escolhi 7 de março. Preferia pela manhã, mas o médico só podia à tarde.

É estranho tratar o nascimento dessa forma, sabendo exatamente o que irá acontecer. Mas é assim que milhares de bebês nascem diariamente no Brasil: com hora marcada. A cesariana foi o melhor método para colocar meus dois filhos no mundo e me alegro realmente que a medicina esteja tão avançada, podendo garantir a milhares de mulheres a chance de parir sem colocar sua vida, ou a do bebê, em risco.

Mas graças ao jornalismo tive contato com mulheres corajosas, que decidiram (e puderam) deixar que seus filhos nascessem pelo parto humanizado.

Mulheres sabem parir

Antes mesmo de engravidar, Michelen Cantelmo Ramos foi uma defensora do parto normal. Mas junto com a descoberta de que seria mãe, aos 35 anos, veio também a comprovação de que poderia ir além e ter um parto humanizado. “Me informei de todos os procedimentos de praxe no hospital, estudei a necessidade de cada um deles, baseado em evidências científicas atuais, e elaborei um plano de parto”.

O documento foi discutido com a enfermeira chefe da obstetrícia. Mas não foi assim tão simples. Michelen teve que lutar para ter um parto humanizado. Precisou conciliar suas vontades com as condições que o hospital lhe oferecia.

O medo da dor e tantas histórias de partos mal sucedidos assusta. Em pleno século 21, onde a cesárea é geralmente a primeira opção da maioria das futuras mães, a palavra ‘parto’ chega a dar calafrios. Além disso, a cirurgia é rentável, custa em média R$ 8.000 em clínicas particulares.

Gisele Novak

Michelen Cantelmo Ramos, grávida de Maitê

Romper com essa cadeia é complicado, e a maior dificuldade está nas próprias mulheres. Para nascer de forma natural, é necessário que a mulher queira muito e que tenha preparo físico e emocional. “Tem que buscar informação para não ser iludida pelos mitos, e ter apoio emocional para enfrentar as críticas. Além de uma equipe médica disposta e que acredita e respeita a natureza feminina”. E quem viveu a experiência garante que é segura. “Mulheres sabem parir e bebês sabem nascer, é a nossa natureza”, diz Michelen.

Pâmela Batistella queria um parto humanizado e escolheu que seu filho nascesse na água. Ela decidiu pensando exclusivamente no bebê. “Queria proporcionar ao meu filho o melhor nascimento. Queria a força de um parto natural, num ambiente acolhedor e aconchegante ao qual ele passou tantos meses, a água”. Mesmo querendo muito, ela enfrentou momentos de tensão, mais ainda, quando a pressão vinha da sociedade.

Apesar das críticas, não faltou apoio da família. Foram 15 horas de trabalho de parto ao lado do marido Márcio, da mãe Ivanir e da comadre Neuza. Para Pâmela, realizar o sonho do parto humanizado foi uma vitória. “Toda mulher tem e deve ter seus direitos e escolhas respeitados”.

Parto em equipe

A equipe de Vanilla acompanhou um parto humanizado de perto. Para isso, conseguimos a autorização do Hospital São Francisco, em Francisco Beltrão, referência no Sudoeste em humanização de nascimentos. Conversamos com a doula, Vanessa Verdi, e tivemos o aval da futura mamãe, Rudiele Zuffo.

Ficamos a postos, eu e o fotógrafo Helmuth Kühl, para receber a ligação, que poderia ser a qualquer hora. Do trato com a doula, até o grande dia se passaram algumas semanas. Era uma quinta-feira, quando o aviso chegou. Não demorou para que pegássemos a estrada.

Quando chegamos a Beltrão, onde mora Rudiele, vimos uma cena que não combina com partos que costumamos ver no cinema e na TV. Nada de gritos. Eram 19h e Rudiele nos aguardava em pé, sorrindo, do lado de fora da casa. Entramos e ficamos na sala. Vanessa, a doula, também estava lá, acompanhando as contrações. Pouco depois o pai apareceu.

O clima era tranquilo. Rudiele caminhava pela casa, sentava e recebia massagens da doula. Fez também exercícios com a bola de pilates. Enquanto tudo acontecia, conversamos bastante. Helmuth não ficou só nas fotos. Vez em quando verificava o ritmo das contrações de Rudiele através de um aplicativo no celular de Vanessa. Mais prático do que papel e caneta.

Helmuth Kühl

Rudiele e a doula, Vanessa

Entre um papo e outro, ela sentia dores, mas se segurava. Sempre deixamos claro que ela podia nos pedir licença se quisesse. Mas ela não se mostrava incomodada. Apesar das dores, que pareciam leves, Rudiele se manteve simpática, mas não escondia a ansiedade. O marido a abraçava, enquanto tomava chimarrão. Rudiele também tomou algumas cuias.

Ela contou como decidiu pelo parto humanizado. “Eu já preferia o parto normal, desde sempre, mas não conhecia muito sobre parto humanizado. Foi num internamento no hospital, durante a gestação, que decidi pela humanização. Pois vi um trabalho de parto nada humanizado e logo procurei a doula. “

Paciência

Já era quase 22h e as contrações de Rudiele continuavam. A doula avisou que o trabalho de parto é assim mesmo, costuma demorar horas, mas que tudo depende de cada mulher. Há aquelas que não esperam mais do que duas horas para o nascimento. Outras ficam até mais de 24 horas em trabalho de parto.

Helmuth Kühl

Rudiele e o marido

Enquanto monitorava as contrações, a doula contatou à coordenadora de enfermagem do Hospital São Francisco, onde o nascimento de João aconteceria. O papel do hospital é dar o maior suporte possível às mães que optam pelo parto humanizado. Estava tudo pronto, equipe médica e de enfermagem aguardavam a chegada de Rudiele.

Pizza em família

A fome estava pegando, e ao contrário do que muitas mulheres pensam, comer durante o trabalho de parto faz bem. Se for comida apimentada melhor ainda, contou a doula. Pedimos uma pizza em metro. Logo depois, Vanessa aconselhou que Rudiele tomasse um banho. Ficar no chuveiro auxilia na aceleração do trabalho de parto, assim como o sexo, se o casal desejar. É sério? Durante o trabalho de parto a relação sexual é permitida, pois aumenta a produção de ocitocina e endorfinas do corpo. É ótimo para acelerar o processo.

Para a doula, o parto humanizado é transformador. “Você vai virar mãe de fato, vai sentir o momento do parto”. Mas de modo algum desmereceu a cesariana e as mulheres que tiveram seus filhos dessa forma.

Helmuth Kühl

Comer durante o trabalho de parto é permitido, diz a doula

O tempo passou, e nada das contrações aumentarem. Vanessa recomendou que descansássemos porque o parto poderia acontecer a qualquer momento ou em outro dia.

No dia seguinte, nenhuma novidade. Rudiele havia passado a noite com o mesmo ritmo de contrações. Sinal de que era um “falso trabalho de parto”, ou melhor dizendo, não evoluiu.

Na sexta, voltamos a Pato Branco, não nego que um pouco frustrados. Queríamos ter visto o final dessa história, ter acompanhado de pertinho o nascimento do João Otávio sem nenhuma intervenção.

A mulher que decide por um parto humanizado precisa fazer um Plano de Parto. Aliás, todas as mulheres têm esse direito. No documento assinado por Rudiele, ela pediu o que queria e o que não queria no seu parto. Uma das exigências foi não ser medicada no caso de dor.

Chegamos em Pato Branco e mantivemos contato com a doula. Estávamos dispostos a voltar se o trabalho de parto evoluísse. Mas não aconteceu. Rudiele estava com quase 42 semanas e foi internada para induzir o parto na segunda. A equipe decidiu pela cesariana e João nasceu depois da Páscoa.

Hospitais

Segundo a Unicef, o Brasil possui a maior taxa de cesarianas no mundo. A prática não é ruim. A problemática se dá quando o número é exagerado, e mulheres que poderiam fazer parto normal nem se quer pensam nessa possibilidade e partem logo para a cesárea.

Por isso, o país vem buscando incluir cada vez mais o parto humanizado nos hospitais. Em Francisco Beltrão, desde o início deste ano, já foram realizados mais de dez. Segundo a diretora e médica, Páscoa Baptisti Minussi, o Hospital São Francisco (HSF) tem contribuído à gestação e parto humanizado, colocando enfermeiros que se especializaram na área a se tornarem aptos a realizar partos ditos humanizados.

Para ela, este tipo de parto requer mais tempo e cooperação da equipe e das pacientes, porém, com resultado satisfatório para mães e bebês. Isolde Weschenfelder, coordenadora de enfermagem do HSF, explica que é função do hospital oferecer um quarto aconchegante, uma bola de pilates, cromoterapia, aromaterapia, banhos mornos e prolongados, além de atividades com a fisioterapeuta.

Autonomia

Dr. Igor Chiminagio, ginecologista e obstetra, perdeu a conta de quantos partos humanizados já realizou, mas apesar disso, não gosta da ideia de “idealizar o melhor nascimento”. Segundo o médico, é a mulher quem escolhe como deseja ter seu filho, e na maioria das vezes, elas chegam ao consultório querendo parto normal. Quando ficam sabendo das dores, do tempo e da entrega, optam pela cesárea.

Para a OMS, a taxa ideal de cesáreas deve ficar em torno de 15%. No Brasil, este índice ultrapassa os 50%. Na rede privada, a cesárea chega a 82%, segundo o Ministério da Saúde

Como ele mesmo enfatizou “um fato completamente natural”, pois há mulheres que não estão preparadas para encarar um parto normal, quem dirá humanizado. “Digo sempre que o psicológico é mais importante que a parte física. Se não tiver o emocional preparado, não tem como fazer”.

Intervenções

O médico contou que quase não há intervenções no parto humanizado. O que não significa que não será feito algo se for necessário. Caso a mulher necessite de apoio e até analgesia, por exemplo, ela o terá. “Isso também é humanização”.

Em mães de primeira viagem, o processo costuma ser mais demorado, com duração de até 12h. Para deixá-las mais seguras, o hospital permite a entrada do marido ou da mãe, para que a mulher não fique sozinha. Também não se exige dela nenhum tipo de esforço. É a grávida que decide quando quer caminhar, descansar, tomar banhos mornos, receber massagens e, inclusive, quando quer fazer força na hora das contrações. O médico garantiu ainda que no parto humanizado a mulher escolhe em que posição ficará para o nascimento.

Mas há os partos domiciliares planejados, quando mulheres em gravidez de baixo risco dão à luz em casa. Por ser fora do ambiente hospitalar, há opiniões contrárias. Experiente no assunto, Igor não concorda. Para ele, é imprescindível que o parto seja realizado nos hospitais. “Na instituição, com apoio de médicos e enfermeiros, a gestante terá suporte caso aconteça algum problema”.

O setor administrativo do Hospital São Lucas, em Pato Branco, informou que a prática do parto humanizado não é muito comum. Entretanto, quando uma mulher decide por isso, o local está preparado e possui equipe capacitada.

“Se pudesse escolher de novo, seria cesárea”

Nos países do Reino Unido, as gestações normalmente ultrapassam as 40 semanas e raramente se agenda uma cesariana. A gravidez não tem quase nenhuma intervenção, e nem mesmo na hora do parto as mulheres recebem medicamentos. Daiana Viacelli, 27, viveu a experiência. Ela nasceu em Francisco Beltrão, mas desde 2013 mora em Loughborough, região central da Inglaterra.

Apesar de toda a estrutura da maternidade, com equipe preparada e ambiente pra lá de agradável, Daiana teve incômodos. Seu parto era para ser na água, sem anestesia, mas ela acabou precisando de algumas intervenções.

Daiana diz que o maior problema foi o choque cultural entre os países. No Brasil, o uso de medicação é algo constante, inclusive em partos normais. Na Inglaterra, os métodos são outros. “Eles não gostam de usar nada, e para nós que estamos acostumados a não enfrentar nenhum tipo de desconforto sem ir à farmácia, é muito difícil se adaptar. Eu tive que chorar, literalmente, para ter remédio para dor descente depois do parto”.

No caso de Daiana, o trabalho de parto exigiu intervenção. A recuperação, segundo ela, foi difícil - bem diferente do que ela imaginava, ou que lhe contavam que fosse a recuperação após parto normal. Quando perguntada se faria novamente, foi enfática: “Se pudesse escolher de novo, seria cesárea, sem dúvida”.

Daiana concorda que não existem comparações entre um parto e outro. Cada mulher reage de um jeito, e para muitas, a cirurgia é o ideal. Lembrando que ninguém é mais ou menos mãe por causa do tipo de parto. “Essas coisas são únicas, não faz bem à saúde ficar comparando. Todo mundo me dizendo que o parto normal era melhor e a recuperação era rápida, e foi uma experiência ruim para mim. E olha que a equipe que me atendeu foi demais, tinha umas dez pessoas me ajudando”. Ulisses nasceu em 18 de janeiro deste ano.

Cesárea é segura, mas é cirurgia, e precisa ter indicação

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para o Brasil como o líder em cesáreas e alerta que o aumento nas práticas em partos se transformou em uma "epidemia". A declaração foi feita em Genebra, em uma tentativa de convencer médicos, hospitais e mulheres para que repensem os partos.

Vale citar que a sensação de segurança das cesáreas não é falsa. Lógico que a cirurgia salva vidas, mas é necessário rever as indicações. O lado ruim é apenas o uso indiscriminado da cesariana. Quando mulheres saudáveis já entram nos consultórios pensando na data e hora do nascimento, é então que mora o perigo.

Um dado importante divulgado pelo Ministério da Saúde indica que a parturiente que escolhe dar à luz por cesariana tem risco de vida seis vezes maior que em relação àquela que opta pelo parto normal. Como é cirurgia, aumenta as chances de a mãe contrair uma infecção ou ter uma hemorragia. Quando a criança nasce normalmente, as chances de ela ser internada são de 3% contra 12% do nascimento cirúrgico, afirma o MS.

 

Partos em hospitais de Pato Branco

2014

Normais: 386

Cesários: 910

2015 (até maio)

Normais: 292

Cesários: 875

Na área da 7º Regional de Saúde (incluindo Pato Branco)

2014

Normais: 1.347

Cesáreos: 2.757

2015 (até maio)

Normais: 139

Cesáreos: 440

Partos em hospitais de Francisco Beltrão

2014

Normais: 373

Cesáreos: 852

2015 (até maio)

Normais: 231

Cesáreos: 942

Na área da 8º Regional de Saúde (incluindo Francisco Beltrão)

2014

Normais: 1455

Cesáreos: 3232

2015 (até maio)

Normais: 116

Cesáreos: 454

Classificados