Saúde

Narcisismo das pequenas diferenças

A intolerância, tão comum nos últimos tempos, diz mais sobre quem a pratica do que sobre quem a sofre

As eleições causaram um grande estrago no que diz respeito à amizade e harmonia familiar. Discussão nos grupos de WhatsApp, nos comentários das redes sociais e até, quem diria, pessoalmente, causaram uma ressaca geral após o pleito.

A culpa está longe de ser a rejeição de ambos os candidatos. O nome disso é intolerância, um sentimento da ordem das paixões, e que pode fazer muito mal se não for controlado.

A paixão é definida por teóricos como a afeccção que um corpo sofre por outro corpo, a modificação que um corpo tem em sua potência, sua capacidade de existir. “Nas paixões, quem determina a mudança de potência é o outro. Há um outro corpo que causa uma modificação em mim; enquanto que na ação eu é que determino a mudança na minha capacidade de existir. A intolerância é uma paixão triste, que diminui minha potência de agir no mundo, me enfraquece”, explica a psicanalista Juliane Varaschin, que no próximo dia 10 fará a leitura psicanalítica do filme “Relatos Servagens”, à partir das 13h30, no Florescência Psicologia e Psicanálise -- o filme aborda reações limites diante da lucidez e da loucura, da vida e da morte, quando um corpo não aguenta mais. Entre os assuntos debatidos, como uma manifestação de loucura pode estar reduzida a uma leitura moral dos fatos, além da intolerância.

A especialista exemplifica mostrando a forma como o outro é visto, com leituras generalizantes, do tipo “os argentinos são arrogantes”, “os alemães são grosseiros”, “os cariocas são preguiçosos”. Mas o que significa esse reducionismo?

Para ela, essas significações dão uma aparente segurança de que eu já sei sobre o outro. “Negamos nossa ignorância sobre as outras pessoas e culturas. Projetamos nesses grupos sentimentos de insuficiência e ignorância. O outro vira um depositário para nossas próprias insuficiências”, diz.

Freud descreveu com a expressão "narcisismo das pequenas diferenças" a tendência humana a exagerar as diferenças entre grupos vizinhos ou semelhantes para sentir-se supostamente superior. Essa pseudo-diferença existe entre brasileiros e argentinos, entre duas funcionárias que trabalham numa mesma empresa, em que valorações apontam para o outro como supostamente pior.

 

Onde nasce a intolerância?

Desde a infância as pessoas são educadas a não levarem uma análise a seu termo, ou seja, analisar uma situação com a multiplicidade que ela engloba. “Exemplos cotidianos, onde uma pessoa nos olhou com cara amarrada, as pessoas já imaginam que não são amadas por esse outro, ou que ele não é uma pessoa bacana. Esquecem de fazer uma análise da situação via a referência da vida”, analisa.

Mas o que realmente significa quando alguém nos olha com cara amarrada? A princípio não é possível saber, só o outro poderá dizer com precisão, visto que podem ter várias razões. O outro pode estar mal-humorado com outra coisa que não nós; pode ter dormido mal; pode estar com alguma dor. “Antes de julgarmos, deveríamos lembrar disso. E mesmo se fosse um sentimento do sujeito conosco, as pessoas esquecem que estes são circunstanciais, preferem ‘a primeira impressão é que fica’. Mas não precisa ser assim, a primeira impressão é só uma, e se você estiver aberto para ver as diferenças ao invés de taxar com um sonoro ‘não fui com a cara dele desde a primeira vez que o vi’ estaria aberto para conhece-lo mais, pois sabe que a todos comportam multiplicidades”, define Juliane.

Sentimos todos os tipos de afetos (amor, raiva, ressentimento, intolerância), mas o que fazemos com eles vai depender da avaliação que temos dos fatos. “Esse treino de falar sobre esses sentimentos também normalmente não passamos. Se você imaginar uma criança sentindo raiva pelos pais, é muito mais comum os pais simplesmente reprimirem esse afeto do que colocar a criança a falar sobre. A ideia de que não se falando sobre o sentimento desaparece é errônea. Existe a possibilidade de a raiva se dissipar conforme deixamos a pessoa a falar sobre. E por que não se deixa? Por uma questão narcísica, de que o outro não pode sentir raiva de nós, mas também por não se entender que quando o filho sente raiva não é porque ele deixou de amar os pais, posto que sentimos tudo”.

Se o ato for da ordem do que, em psicanalise, se chama pulsional, vai considerar tudo que há, além das consequências de cada ato. Isso fará agir para além dos sentimentos, sem reação. “Ao invés de eu ficar brava (reação) com meu filho, posso colocar-me a ouvi-lo. Será ação (a partir da vida como critério avaliativo) e não mais uma reação, que se dá sempre a partir de um sentimento/emoção. Se pensarmos no ser humano, no uso de suas potencias vitais, não há porque ser reativo, ele pode ser ativo, a partir do real, da pulsão, e não da reação contra o outro. Um ato reativo faz a leitura das situações com base ‘no que sente e defende’, aí dificilmente considera a leitura do outro como possibilidade”.

Mas será a intolerância intrínseca ao ser humano?

O que existe nos seres humanos, diz Juliane, são todos tipos de afetos. “Temos, sim, intolerâncias. O que varia é a forma como cada um faz a leitura do real. Conforme mais pudermos observar a realidade como composta de multiplicidades, menos intolerantes tenderemos a ser, porque entenderemos que há um mundo além do meu espelho, há diferenças que podem ser ouvidas e compreendidas”, defende.

 

Problema para quem agride, problema para quem é agredido

A intolerância gera, normalmente uma agressão. E não só ao agredido. “Quem agride normalmente passa por uma angústia, porque a leitura que ele está fazendo não coaduna com o real, sendo, portanto, difícil de sustentar pela vida da razão”, explica a psicanalista.

Neste processo, há uma tentativa de eliminação da diferença, já que as pessoas têm, em si, diferenças que não se permitem conhecer, fragilidades (que não são fraquezas), angústias. Então, diz Juliane, quando tentam combater a diferença externa, é também na tentativa de eliminar mal-estares internos. “Tento combater o outro que julgo ser a razão do meu incômodo quando na verdade esse incômodo fui eu quem construí, é interno. Enquanto a pessoa não entende isso, claro que há angústia”.

Os agredidos podem ter também diferentes tipos de respostas frente à agressão: podem combater a agressão a partir de atos reativos, que não solucionam, ou podem ter ações, quando compreendem a partir de onde vem o comportamento desse outro. “Entender sem julgamentos não quer dizer absolver o outro. Posso compreendê-lo, o que não requer que o absolva. Mas entender que a ação reativa do outro diz de uma construção dele, e que muitas vezes sequer estamos inseridos na construção que ele faz, ajuda”, indica a psicanalista.

Ou seja, alguém que nos é agressivo, por exemplo, há muita chance de ele ser assim com a maioria, e essa é uma questão que já veio com ele antes mesmo de ele nos conhecer.

A leitura que as pessoas fazem é de que “isso é para mim”, ao invés de entenderem que esse outro talvez nunca conseguiu ser diferente. “Volto a dizer: ter essa compreensão nos ajuda a não fazer leituras moralistas ou preconceituosas, mas não quer dizer que não possamos fazer as escolhas por quem queremos ao nosso lado. Mas, quando olhamos para o outro sem preconceito, podemos auxiliar inclusive essa pessoa a poder pensar em seu comportamento”, define a psicanalista.

 

Há como controlarmos a nossa intolerância?

Há uma forma de estarmos mais atentos para comportamentos reativos de intolerância. Quando a pessoa é intolerante, é muito comum querer se defender de sua fragilidade, já que o errado e ruim é sempre o outro.

Suely Rolnik, uma importante psicanalista da atualidade, sugere algumas ações que poderiam nos ajudar a sermos mais flexíveis:

1)            Não interpretar a fragilidade e seu desconforto como ‘coisa ruim’
2)            Não denegar a fragilidade resultante de mudanças
3)            Não ceder à vontade de conservação, que vai contra o movimento de criação que a vida demanda
4)            Não atropelar o tempo próprio da imaginação criadora, para evitar o risco da germinação de um mundo
5)            Não abrir mão do desejo em sua ética de afirmação da vida
6)            Não negociar o inegociável, tudo aquilo que impediria a afirmação da vida
7)            Praticar o pensamento em sua plena função: reimaginar o mundo em cada gesto, palavra, relação, modo de existir.

Entre as práticas que podem nos tornar mais tolerantes, a escuta, estarmos atentos, criarmos laços, o amor, os amigos e os bons encontros da vida são importantes ferramentas. “Não precisamos ser vítimas do passado ou do meio em que vivemos. Para acolher o outro, que é sempre diferente do eu, é preciso reconhecer também que ele é um ser humano como eu. Cuidar significa também tolerar o outro. Aquele que não foi cuidado tem menos possibilidade de tolerar a singularidade do outro”, aconselha a psicanalista.

Juliane lembra ainda que tratamentos psicanalíticos de sobreviventes de holocausto, de situações de abuso, de violência, demonstram como esses eventos não são adequadamente simbolizados. “Frequentemente, essas dificuldades reemergem nas gerações futuras: a primeira geração vive, a segunda geração reprime e nas próximas gerações esses conflitos voltam de outra maneira, buscando soluções. O que isso nos diz? Quando não tratamos a intolerância, ou fazemos de conta que está tudo bem, o inconsciente é imperioso, há um retorno do que não foi solucionado, buscando uma compreensão”, finaliza.

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