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Não é só apagar as luzes

Gerar e utilizar energia de forma mais sustentável é uma das grandes preocupações da atualidade, e o questão não envolve apenas novas tecnologias. Conversamos com especialistas de diferentes áreas para entender melhor o que significa “eficiência energética”

“Ao sair da sala, desligue as luzes da sala, a empresa e o meio ambiente agradecem”. É provável que um aviso como esse esteja ao lado dos interruptores no local onde você trabalha. Ele ilustra uma grande preocupação da humanidade: preservar o meio ambiente e diminuir os gastos com energia elétrica - nem sempre necessariamente nesta ordem.

Utilizar os recursos naturais de forma mais eficiente é fundamental se quisermos ter um planeta com condições habitáveis no futuro, e tem gente que está quebrando a cabeça não só para desenvolver tecnologias que possibilitem isso, mas para popularizar soluções que já estão por aí. E a questão vai um pouco além de banhos mais curtos e lâmpadas acesas esquecidas.

Recentemente a UTFPR de Pato Branco foi contemplada por um edital que deve permitir a redução de seus gastos com energia elétrica e estimular pesquisas relacionadas a eficiência energética. Mais ainda, pretende servir como multiplicador de iniciativas semelhantes.

Aberta pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 2016, a proposta pretende destinar parte de um fundo voltado para pesquisas de eficiência energética para uma ação prioritária em universidades.

Voltado para as distribuidoras, o edital despertou o interesse da Copel, a UTFPR aproveitou a oportunidade e defendeu o seu projeto, que foi um dos cinco do gênero aprovados no estado do Paraná. De modo geral, a proposta apresenta um plano de ação que deve reduzir a conta de energia da instituição a longo prazo, o que vai envolver a instalação de placas solares.

A iniciativa vai envolver o trabalho de duas frentes, até então costumeiramente desconexas em projetos semelhantes voltados ao assunto: projeto de eficiência energética e pesquisa e desenvolvimento, o que vai possibilitar ao uso mais eficiente de energia, e também desenvolver pesquisas.

Quem explica é o professor Jean-Marc Stephane Lafay, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica, e um dos articuladores do projeto.

Na prática, resumidamente, haverá a troca das lâmpadas que são usadas hoje no câmpus por outras mais eficientes, que correspondam ao que foi apresentado no projeto, em conformidade com as especificações do edital. Empresas especializadas devem realizar medições para verificar se tudo está nos conformes.

Também será instalada uma usina com 1.426 painéis solares nos telhados da universidade, que devem gerar 378 Kwts pico. Lafay adianta que a economia esperada é de cerca de R$ 30 mil mensais na conta de energia. De acordo com as previsões do cronograma, tudo deve estar funcionando em até um ano.

Quando acontecer, quem passar pela rodovia em frente a universidade vai ver praticamente todos os telhados cobertos por painéis.

Mas segundo o professor, o pulo do gato está naquilo que não se vê, é o que ele chama de legado. “A gente consegue fazer com que uma parcela dos acadêmicos participe diretamente disso. A gente motiva (a reflexão) dentro do campus, e acaba difundindo esse tipo de ação. Outro aspecto é fazer com que a gente entenda e reforce o que já é dito dentro da literatura, que eficiência energética é legal, mas que sem gestão de energia não vale nada”, explica.

Lafay comenta que eficiência energética costuma ser interpretada como uma ação pontual, tipo trocar lâmpadas, instalar painéis solares e pronto. Não se costuma pensar na gestão de energia, ou seja, em fazer um trabalho de longo prazo, com monitoramento de consumo, e análises que busquem entender porque o consumo aumenta ou diminui, e planejar ações de eficiência a partir disso.

Parte do legado deixado pelo projeto na UTFPR é criar um sistema de gestão de energia, que acompanhe ações de avaliação periodicamente. Por meio de uma gestão eficiente, Lafay afirma ser possível reduzir 10% da tarifa de energia de uma empresa usando apenas ferramentas e métodos, sem grandes trocas de equipamentos. Um percentual que faria diferença em uma conta mensal de R$ 200 mil, algo não tão raro de se encontrar na região.

Se é relativamente fácil, e já existem tecnologias disponíveis, a pergunta que fica é: porque não? A resposta é ampla, mas um dos fatores determinantes para o emprego ainda tímido de tecnologias e métodos mais eficientes é o custo.

O professor Lafay analisa que há uma cultura do imediatismo, de preferir a economia no curto prazo, ou seja, é pouco valorizado o fato de que uma obra, por exemplo, que envolve um pouco mais de investimento imediato, será mais eficiente, mais econômica ao longo do tempo quando se alia projeto e gestão. Ele conta que assim como eletrodomésticos, existem selos para edificações mais eficientes.

Não ajuda o fato de que os incentivos ainda sejam pouco convidativos. Foi apenas em 2012 que a resolução 482 da Aneel regulamentou o sistema de compensação por geração própria de energia.

Em resumo, funciona mais ou menos assim: uma casa, uma empresa, uma universidade instala uma usina própria de geração de energia, por meio de painéis solares, por exemplo. Se houver, o excedente dessa energia é jogado na rede mediante compensação do valor na tarifa de energia elétrica.

Apesar de o número de usuários jogando energia na rede ter crescido exponencialmente, a evolução segue devagar, se compararmos com outros exemplos. Lafay conta que alguns governos da Europa chegaram a devolver inicialmente quatro vezes o valor da energia para geradores próprios. Por isso, houve até quem comprasse terrenos para criar verdadeiras hortas solares.

Mesmo ainda significativo, o fator custo vem gradativamente diminuindo no mercado, segundo a percepção do coordenador do curso de Engenharia Elétrica da Faculdade de Pato Branco (Fadep), Ricardo Bertoncello, que também possui um escritório de engenharia. Ele diz perceber que há no mercado clientes com interesse em adquirir até carros elétricos. “Da mesma forma a geração de energia. Várias pessoas nos procuram aqui no curso ou no escritório, procurando saber desses projetos de geração. Às vezes acaba barrando na questão custo, que não querem fazer aquele investimento, ou que ainda estão esperando”, comenta.

Recentemente o BNDES lançou uma linha de crédito para financiar painéis fotovoltaicos em residências, algo que até então só existia para grandes empresas. Ricardo cita ainda a redução do ICMS para quem gera sua própria energia, assunto debatido na Assembleia Legislativa, que também deve contribuir para que o sistema seja mais atrativo.

Bertoncello calcula que, atualmente, o retorno do investimento em geração de energia fotovoltaica seja de aproximadamente cinco ou seis anos, isso para um sistema que tem cerca de 25 anos de vida útil.

O professor comenta que a consciência ambiental já se tornou elemento básico na formação de profissionais. “É inconcebível formar um profissional de engenharia hoje que não esteja preocupado com a questão ambiental. Se ele sair daqui sem essa preocupação ele entrará no mercado defasado”, detalha.

Vários projetos ligados ao tema são realizados no curso, como o desenvolvimento de um carro elétrico, que já conquistou um prêmio em competições de eficiência energética. Na faculdade também há painéis fotovoltaicos e uma unidade de geração eólica, utilizada para fins acadêmicos.

A incidência de sol, por exemplo, é um dos objetos de interesse de estudo. De modo geral, investigar o assunto pode ajudar na aplicação mais eficiente de geração solar em cidades. “Se você tiver um painel solar, por exemplo, encima de uma residência, e ao lado tem um prédio com uma parede clara, a reflexão incidente indiretamente nos painéis vai ajudar na geração de energia”, comenta o professor sobre variáveis na incidência de energia nas placas.

Para analisar esses e outros aspectos, Bertoncello adianta que a intenção é instalar uma estação solarimétrica na Fadep, equipamento que afere a incidência solar. Na faculdade também estão sendo desenvolvidos projetos de eficiência de placa e de geração de energia eólica, em comparação com o mapa de ventos do Paraná.

 

Edificações

Do ponto de vista da construção civil, ser sustentável também não é mais um diferencial, é uma obrigação, e que a questão vai muito além das tecnologias disponíveis.

Quem analisa é o arquiteto e coordenador do curso de Arquitetura da Faculdade Mater Dei, Bruno Soares Martins, que explica ainda que o conceito de sustentabilidade em uma obra vai desde a escolha dos materiais, passando pelo projeto, que pode ser pensado para reduzir o consumo de energia elétrica. “A própria condição do projeto, uma ventilação cruzada, um espaço com bastante iluminação, a forma como você condiciona o teu edifício no terreno, isso tudo também está atrelado a condição da eficiência energética do edifício”, detalha.

Ele cita o exemplo do projeto que desenvolveu recentemente em Pato Branco. Se trata de uma casa, com integração total de pátio, como um jardim interno. Apesar de a fachada ser praticamente fechada, para garantir a privacidade, por dentro há muito vidro. “Quando se abre essas janelas e as portas, o fluxo de ar dentro da casa cria um microclima que fica extremamente ameno. No verão a casa é totalmente fresca”, explica. O inverso também acontece. “Ao mesmo tempo no inverno a própria condição de você talvez não abrir todas as esquadrias faz com que a casa absorva essa energia térmica e mantenha a casa relativamente aquecida”.

Também há laje aparente, e alguns espaços ficaram aparentes, sem revestimento, o que tornou a obra mais econômica e com menos resíduos. Robson Montanari, o morador da residência, conta que durante o dia praticamente não é preciso acender lâmpadas, por conta da incidência de luz e da disposição dos cômodos. Ele conta que pretendia ter uma casa sem muitos corredores ou muitas portas.

As paredes receberam ainda preenchimento térmico acústico, o que contribui para o equilíbrio da temperatura, tanto que a família possui ar condicionados ou ventiladores na casa. “No verão, você tendo todo esse espaço de vidro no meio da casa, você abre e é como se fosse ligar o ar condicionado. Há uma circulação natural”, detalha.

Montanari ressaltou a importância do planejamento e do projeto para criar uma casa mais eficiente. “Muita gente pensa que essa questão energética está somente relacionada a um sistema solar, quando o projeto arquitetônico e construtivo também pode contribuir muito com isso”.

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Recarregar energias

As placas solares também podem ser aplicadas em atividades mais corriqueiras. No centro de Pato Branco, por exemplo, há uma “árvore digital”, que fornece sinal de internet gratuito e permite carregar dispositivos móveis. Um grupo de acadêmicos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Mater Dei desenvolveu o projeto de um móvel com finalidade semelhante, e foram os vencedores de um concurso interno de mobiliário sustentável.

O banco foi projetado com barrotes de madeira e pallets, e possui uma placa fotovoltaica acoplada no encosto. “A ideia surgiu de criar um mobiliário que possuísse outra função além de descanso. Ao saber que nos dias de hoje o smartphone faz parte da vida das pessoas e que desempenha um importante papel nela, seja para trabalho ou para lazer, tivemos a ideia de implantar um sistema de carregamento de bateria via USB”, descreveu Aline Pastorio, uma das integrantes do grupo, que contava ainda com Ana Carolina Mezomo e Silvia Daniela de Vargas, estudantes de arquitetura, e Emannuell Cenzi, da área de sistemas de informação.

Aline comenta sobre a aplicação do conceito em espaços públicos. “Haveria ganhos tanto para a cidade como para o usuário dela, pois auxiliaria na redução de gastos com a energia elétrica; essa união de mobiliário com tecnologia possibilitaria maior interatividade e conectividade entre o usuário e o espaço urbano. Além disso, essa ideia poderia se estender nos pontos de ônibus”.

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