Pato Branco

Mortas por serem mulheres

["Al\u00e9m dos tr\u00eas crimes dos \u00faltimos dois anos e at\u00e9 agora em 2019, Delegacia da Mulher atua nos casos de tentativas de feminic\u00eddio"] (Foto: Helmuth Kühl)

As polícias de Coronel Vivida atenderam em 10 de maio deste ano uma ocorrência de disparos de arma de fogo. Ediane dos Santos Martins, foi alvejada pelo companheiro, José Vanderlei Macedo, que se suicidou após crime, com a mesma arma que teria usado para atirar na mulher, uma pistola calibre 9 milímetros.

Veridiane Santos, 29 anos, faleceu em março de 2018 em Pato Branco, ela foi agredida pelo marido, que inicialmente disse à polícia que o casal teria tido uma discussão, que ela teria batido a cabeça. Após ter agredido a vítima, ele a socorreu e levou para atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Veridiane deixou dois filhos, um de dois anos e outro de oito, na época do crime.

Em Mariópolis, a polícia atendeu em 16 de maio deste ano, a uma tentativa de feminicídio, ocorrido na área rural. O agressor, Raul José Battisti utilizou um martelo e um cilindro de madeira para desferir golpes na cabeça e nos braços da vítima, que somente conseguiu escapar das agressões após se fingir de morta, sendo socorrida posteriormente por populares.

Battisti, está foragido e é procurado pela Polícia Civil que pede a colaboração da população para localizar o acusado da tentativa de feminicídio.

Nesta semana, Rosemilda Alves Ferreira, 41 anos, foi espancada e morta com 75 facadas, desferidas por Antônio Alves, 52 anos. O casal estava em processo de separação, após 25 anos de convivência, mas Antônio não aceitou o fim do relacionamento e matou a mulher.

O local foi isolado até a chegada da Polícia Civil e de um Perito do Instituto de Criminalística, que fizeram o levantamento do feminicídio. Em seguida, o corpo de Rosemilda foi encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML) de Pato Branco. O filho do casal, de oito anos, presenciou o crime.

Mesmo os casos de feminicídio — crime que configura o assassinato de mulheres pela condição do sexo feminino, lei desde 2015 — não serem tão frequentes na região, a delegada Franciela Alberton que responde pela Delegacia de Mulher em Pato Branco, — compreendendo os quatro municípios da Comarca; Pato Branco, Vitorino, Bom Sucesso do Sul e Itapejara D’Oeste —, revela que desde que foi criada a lei, não há um ano que não seja registrado pelo menos um crime de feminicídio e que não tenha relatos de tentativas deste delito.

Dados apontam que em 2017, 2018 e até agora em 2019, foram registrados um caso de feminicídio, contudo, não é possível precisar o número de tentativas, na área da Delegacia a Mulher de Pato Branco.

Porém, dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (Sesp-PR), revelam que o número de mulheres assassinadas no Paraná diminuiu em 2018 em comparação ao ano anterior. Foram 162 mortes em 2018, contra 182 registradas em 2017.

Já nos feminicídios houve acréscimo de 20 casos, saltando de 41para 61.

Em março, o projeto Monitor da Violência do portal G1 revelou ainda que, da mesma forma que no Paraná, os registros de feminicídio aumentaram no Brasil em 2018, comparando com o ano anterior, de 1.047 passou a ser registrado 1.173 casos.

A delegada da Mulher em Pato Branco, Franciela Alberton afirma que “o feminicídio é um crime que não tem como evitar”, por se tratar de um ato momentâneo, e que é praticado em um momento de raiva exacerbada, que o autor naquele momento não vê outra alternativa para sua raiva, que não matar a vítima.

“Graças a Deus, na nossa região, embora ocorram sim esses crimes, ..., é um número baixo, mas é um número preocupante porque é um crime muito grave, que acaba com a família toda”, diz a delegada exemplificando com o caso mais recente em Pato Branco, onde um menino de 8 anos viu a mãe ser morta pelo pai.

Alerta

“Esse pós feminicídio da Rosemilda trousse muitas mulheres para a delegacia”, afirma a delegada, falando em um acréscimo de 70% no número de medidas protetivas.

Segundo a delegada, na quarta e na quinta-feira, a presença de mulheres relatando ameaças e agressões se intensificou, elas também relataram que ao terem conhecimento do crime da terça-feira, temendo por um ato violento, pediram proteção.

“A Rosemilda, não tinha nenhum boletim de ocorrência registrado”, lembra a delegada, alertando que “sentindo que seu ex-namorado, ex-parceiro, convivente, está inconformado com o rompimento desse relacionamento e que tenha apresentado um comportamento diferente, que procurem a delegacia”.

Ato público

Se a morte de Rosemilda, foi a primeira registrada como feminicídio em 2019 na Comarca de Pato Branco, ela aconteceu a menos de 15 dias, da morte de Ediane, que aconteceu na Comarca de Coronel Vivida.

Esses dois casos, principalmente pela proximidade, foram motivadores de um ato público que vem sendo organizado para a sexta-feira (31), na praça Presidente Vargas em Pato Branco, com a atuação de mais de dez grupos ou entidades.

Pelas redes sociais, mulheres e homens se organizam para chamar a atenção da sociedade a esse tipo de crime, e pedir medidas protetivas, para casos em que as agressões já acontecem há um tempo.

Segundo Schaiana Marcon Marchetti, presidente do Conselho da Mulher em Pato Branco, e uma das integrantes do grupo que se mobiliza, “é preciso fazer algo para conscientizar a população e tentar desmistificar a cultura de que a mulher é uma propriedade, um objeto, que o homem pode dispor dela a qualquer custo.”

Schaiana destaca que é preciso suprimir da sociedade a cultura machista da população, e “principalmente dos homens que não aceitam muitas vezes o término de um relacionamento”. Além, de enfatizar a necessidade de mudança de cultura, a presidente do conselho afirma, que são necessárias medidas efetivas, como a implantação da Patrulha Maria da Penha; que seja implantada na região o Botão do Pânico [quando acionado, em virtude de perigo iminente de agressão, o equipamento emite um alerta para que a vítima seja socorrida], ou tendo em vista que o custo do Botão do Pânico é elevado, que seja desenvolvido um aplicativo com a mesma finalidade.

Ela convida a todos que se identificam com a causa, e que queiram ajudar, para estarem na praça Presidente Vargas na próxima sexta.

Classificados