Entrevista

Mestre em psicologia escolar fala sobre os altos e baixos da vida cotidiana

Cristiane Beira palestrará neste sábado (3), às 20h, no Teatro Naura Rigon, em Pato Branco. Na conferência também haverá a presença do convidado de honra, Raul Teixeira, que será homenageado

Em visita ao sudoeste do Paraná nesta semana, Cristiane Lenzi Beira, de Amparo (SP), proferiu a palestra “Vida é movimento”, na noite de sexta-feira (2), no Espaço da Arte, em Francisco Beltrão, e ministrará a palestra “Conveniências e inconvenientes sociais”, às 20h, neste sábado (3), no Teatro Municipal Naura Rigon, em Pato Branco, com entrada franca. As duas palestras foram promovidas pela 14ª URE (União Regional Espírita) em parceria com a FEP (Federação Espírita do Paraná).

Cristiane é mestre em psicologia escolar pela PUC-Campinas; coordenadora dos Estudos da Série Psicológica de Joanna de Ângelis da Sociedade Espírita Esperança, em Amparo (SP); e autora de 15 livros, sendo 10 livros infantis e 5 espíritas.
Inclusive seu último lançamento, a obra “A Saga do Ciúme”, foi elaborado em parceria com Raul Teixeira, doutor em Educação e um dos maiores escritores e oradores espíritas da atualidade, que também estará em Pato Branco neste sábado, prestigiando o evento e será homenageado pela sua ligação com Pato Branco e a região.

Ela também é vice-presidente do Núcleo Educacional Sepi (Serviço Espírita de Proteção à Infância), uma entidade com atividade voltada à área de assistência social, de caráter beneficente e assistencial, sem fins lucrativos que atende crianças e adolescentes de 11 meses a 15 anos, localizada na cidade de Amparo (SP).

Voltada à formação do cidadão, com base em ações educacionais e assistenciais, a instituição dedica-se desde a sua fundação ao ideal de oferecer as crianças, aos adolescentes e suas famílias condições dignas de vida e cidadania.

Em entrevista ao Diário do Sudoeste, Cristiane Beira fala sobre os altos e baixos da vida cotidiana; as conveniências sociais que muitas vezes nos resulta em grandes inconvenientes; a função das religiões como ferramenta de transformação; a busca dos jovens pela espiritualidade; a violência que vem invadindo as escolas; a falta de referências que está levando as crianças à síndrome do pensamento acelerado; a educação socioemocional estimulada pela metodologia do programa A escola da inteligência; entre outros assuntos.
 
Diário do Sudoeste – O que levou à escolha dos temas abordados nas palestras?

Cristiane Beira – Gosto de fazer uma conexão das teorias que estudo com a vida prática. Seja pelo viés religioso ou não, independe da religião que a gente siga e professe, em última instância tem que servir à nossa vida prática.
Sempre que tenho oportunidade de falar, gosto de fazer essas pontes. E o que me levou a escolher os dois assuntos foi essa intenção de trazer reflexões evangélicas para os dias de hoje. Quando falamos da vida em movimento, trabalhamos com os altos e baixos da vida. Do quanto às vezes a pessoa está bem e de vez em quando não está bem; às vezes as coisas dão certo, às vezes não. Mas tudo bem ser assim, a vida é isso mesmo, ela precisa desse movimento.

As pessoas têm uma tendência de querer estancar sempre esse movimento. Gostaríamos que fosse só num polo, que tudo só fosse bonito. Que as coisas só dessem certo. Não teríamos nem referências para entender o que seria o certo e o que seria o bonito. 

Assim, na palestra que ministrei em Francisco Beltrão, na noite de sexta-feira, trabalhei o assunto a fim de rever o conceito do dia a dia e desmistificar a polarização que criamos sobre o certo e o bonito. 

Da mesma forma, a conferência que ministrarei neste sábado em Pato Branco sobre conveniências e inconveniências sociais, teve o tema escolhido com base na utilidade do assunto na nossa vida prática.

Trago uma citação do apóstolo Paulo que diz “tudo posso, mas nem tudo me convêm” para questionar coisas que fazemos para agradar a sociedade, que temos como convenientes, mas que na verdade é um grande inconveniente na nossa vida. 

Às vezes eu quero agradar alguém porque parece conveniente, mas depois aquilo vai se mostrar numa das grandes inconveniências para o relacionamento, para a própria pessoa, enfim.

O contrário também acontece. Às vezes, o que parece um grande inconveniente é na verdade uma coisa conveniente. Acaba se tornando uma grande sabedoria, um elemento de transformação, de renovação. 

As palestras são destinadas a pessoas de várias crenças religiosas?

Acredito que a religião nada mais é do que um caminho para nos ajudar a encontrar a melhor forma de viver. Viver, todos nós vivemos, e aí a gente se encontra independente de religião. 

Aquilo que eu aprendo com a minha religião deve se transformar em comportamento, deve interferir no meu ser. Nesse ponto tanto faz qual é a religião, se ela tem algo a agregar no meu ser ela faz bem. 

Nas palestras procuro aproximar os temas o máximo possível da visão de vida, ao invés de ficar teorizando. Em termos de religião, gosto de trazer os conceitos de Jesus, que é quase universal, pois podemos falar de Jesus como se ele fosse um filósofo, um pensador, não apenas um religioso. 

Como mestre em psicologia escolar, como você vê a violência que observamos atualmente nas escolas?

Acredito que estamos vivendo um momento diferente. Por mais que às vezes a gente olhe para traz e fale “na minha época não era assim, a escola era diferente”, acho que houve sim uma transformação, mas que não é somente maléfica. 

Vejo que há uma liberdade importante que foi conquistada. Porque aprisionar alguém para dizer que ela não faz nada de errado, mas mantê-la presa, também não é uma solução.

Por outro lado, essa liberdade de hoje que não tem base, nem estrutura, também não é solução porque não acrescenta, não constrói. Assim, penso que ainda estamos buscando um equilíbrio entre essa liberdade e a estrutura capaz de levar à construção. 

Entre as razões para a violência, acredito que a família está distante. Dentro do contexto familiar as pessoas se distanciaram pela vida agitada e pelo excesso de compromissos. Isso acarreta para as crianças e para os jovens uma falta de sentido. Não estão conseguindo responder os porquês da vida. Não estão encontrado espaço onde possam ‘beber’ das respostas ou pessoas que possam ser referência para que eles encontrem as respostas para perguntas como “por que eu tenho que ficar aqui?”, “por que essa escola é chata?”, “por que tem hora certa para falar?”, e todos esses porquês, que se não forem respondidos, acabam gerando incômodos. Para essa juventude tão antenada, é como se eles estivessem gritando, uma revolta que mais está pedindo atenção do que expressando um comportamento com conteúdo negativo.

É um grito de “como está não está bom”. Assim, será que não está na hora de parar e repensar? Se a gente oferecer um ambiente adequado para que as crianças e os jovens se expressem, vamos observar que a violência de fato não existe. Ela está sendo mais estimulada pelo contexto educacional que estamos apresentando. 

Hoje lido com crianças. Temos uma instituição educacional e percebemos que se a gente oferece estímulos corretos e liberdade para que elas possam expressar sua individualidade, ameniza muito a questão da violência.

O sistema educacional de hoje não permite a individualidade. Ainda estamos olhando para um contexto de massa. É um ser coletivo e a criança está gritando “isso não serve para mim”. Antes de vermos se eles estão sendo violentos, devemos repensar o que estamos oferecendo.  

Percebemos que hoje muitos jovens estão buscando o conhecimento da doutrina espírita. Ao que você atribui isso?

Poder perguntar o que quer, ter sempre a possibilidade de resposta e, além disso, poder questionar essas respostas, é base para o jovem se dispor ao diálogo. 
Se a religião não permite que se pergunte tudo ou não oferece respostas questionáveis, reflexivas e discutidas para tudo, ela não vai atrair o jovem. Eles querem esse ambiente onde possam perguntar, questionar e eles mesmos construir a sua crença. E acho que o espiritismo oferece isso. 

Acredito que uma das causas de o jovem se identificar com a doutrina espírita é por que ela permite que ele seja um protagonista da própria história. Que ele, junto com a doutrina, construa o seu aspecto religioso, e não apenas aquela história de religião aonde você vai para receber, assimilar informações. 

Qual é o trabalho realizado pelo Sepi (Serviço Espírita de Proteção à Infância) em prol das crianças, dos adolescentes e suas famílias?
Temos essa instituição na cidade de Amparo (SP) que realiza um trabalho no contraturno escolar com 670 crianças, entre 11 meses e 15 anos, de famílias em situação de vulnerabilidade social. 

Até os três anos eles ficam com a gente em período integral, depois quando vão para a escola que a prefeitura oferece no ensino regular, ficam conosco só no contraturno. 

Procuramos oferecer as outras atividades que a escola não oferece. Pensamos o ser humano como indivíduo no seu aspecto mais integral. Oferecemos a oportunidade de eles desenvolverem, por exemplo, as artes, a reflexão a respeito de valores socioemocionais, os esportes, além de noções de culinária, bordado, aulas reflexivas sobre cidadania, postura em sociedade e cursos variados com o objetivo deles se construírem como ser humano.

Como é essa educação socioemocional aplicada no Sepi?

A educação socioemocional é um dos temas que mais recentemente tem sido discutido e estimulado, por que se percebe dentro da educação que esse é um viés importante para a transformação social.

Para se trabalhar as questões de habilidades socioemocionais temos uma metodologia, que está difundida no Brasil interior, com implantação em mais de 300 mil escolas, criada por Augusto Cury, chamada de A escola da inteligência. 

A metodologia desse programa oferece capacitação, apoio e acompanhamento para os professores, e as aulas são dinâmicas com propostas de reflexão e atuação das crianças. O objetivo é realmente desenvolver suas habilidades socioemocionais, para que se tornem cidadãos com consciência crítica, para que se valorizem, se cuidem e se transformem em seres humanos únicos e rompam com o efeito da massificação. Colhemos resultados maravilhosos. Acredito que é questão de tempo para que programas desse tipo estejam presentes em todas as escolas.

Os pais também participam desse processo?

Sim. Fazemos reuniões de pais onde comparecem cerca de 300 pais e auxiliamos no processo educacional. Tiramos dúvidas sobre como lidar no dia a dia com as crianças e os jovens, e promovemos debates sobre temas atuais a respeito da educação.

Uma das formas de se repensar a educação é resgatar as relações dentro de casa. Mais presença de adultos na vida da criança, mais conversas a respeito da história da família, do passado, para conhecer os pais e o contexto em que os pais viveram. 

Ninguém diz para as famílias que isso é importante fazer. Acredito que a própria escola possa ser um elemento importante nesse resgate, criando dentro da sua rotina um espaço para os pais. 

Geralmente chamamos os pais à escola para falar de nota, de comportamento, de rendimento escolar. Porque não para estabelecer de fato a parceria que a gente diz que existe entre pais, família e escola? Vamos oficializar a parceria e para ser parceiro é preciso conversar, alinhar os pensamentos, trocar ideias, elaborar propostas em conjunto. Então, porque não criar essa escola de pais dentro da própria escola? 

O que podemos dizer sobre a síndrome do pensamento acelerado em crianças?

Um dos apontamentos que Augusto Cury tem difundido é como o atual estilo de vida tem acelerado a mente. Esse pensamento acelerado que ele trabalha é algo que a gente precisa observar, porque já tem apresentado sintomas. Nunca tivemos tanta ansiedade em adolescentes, tanto suicídio na adolescência, tanta agitação e hiperatividade. 

Quando olhamos para traz e percebemos como a vida era mais lenta, que as crianças tinham mais participação na vida familiar e aprendiam atividades que demoravam para serem feitas, como preparar um bolo ou tecer uma peça de crochê, temos a certeza que isso precisa ser resgatado.

Agora temos tudo pronto. Todas as atividades que antes davam às crianças a referência de tempo, hoje já não existem mais. 

A ansiedade vem quando se deparam com coisas que demoram, por que elas não sabem lidar com a espera. São cobradas para que saibam esperar, mas não são ensinadas a esperar.    

Ouvir a avó contar as histórias de seus antepassados, aprender o quanto demora em preparar um alimento ou fazer um ponto de crochê são contextos que dão à criança estrutura, por que ela passa a ter referências de vida.  

Para se resgatar essas ações do passado e diminuir a aceleração é preciso repensar a escola, os lares, as atividades. É preciso possibilitar momentos para práticas que desacelerem as crianças. Muitas escolas estão adotando momentos de meditação, dedicando períodos da grade para que elas asserenem e pratiquem a atenção plena. A meditação também é a conexão com o alto, com o que transcende, e os resultados têm sido muito positivos.

O que aborda seu último livro, A Saga do Ciúme, escrito em parceria com o doutor em Educação, médium e orador espírita Raul Teixeira? 

Apesar de a gente ter escolhido o ciúme como temática principal para o livro, na verdade passeamos um pouco por relacionamentos. Durante o livro convidamos o leitor a uma autorreflexão a respeito de como ele tem se relacionado, seja com filhos, com parceiros, com seus amores, enfim. 

Essa reflexão sobre relacionamentos também remete a uma autoanálise. Ao pensar sobre o relacionamento, automaticamente dispara uma reflexão a respeito de si mesmo. Em linguagem mais simples, diríamos que é uma reflexão sobre ciúme que vai conduzir o leitor ao autoconhecimento para poder entender como andam seus relacionamentos. 

O ciúme é uma expressão do relacionamento. Outros sintomas podem estar associados aos relacionamentos, mas todos nada mais são do que duas ou mais pessoas em conjunto, e acabamos chegando ao íntimo do ser humano.
 

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