Entrevista

Campagnolo prevê cenário promissor para a indústria e aponta necessidade de reformas

Edson Campagnolo é presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) e vice-presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) (Foto: Gelson Bampi/Fiep)

Depois de um ano de grandes desafios para a indústria, 2018 começa com boas expectativas para o setor. Em entrevista ao Diário do Sudoeste, o presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), Edson Campagnolo, fez uma avaliação do trabalho realizado em 2017; falou sobre a projeção da indústria para este ano, com acontecimentos nacionais como eleições e Copa do Mundo; comentou a questão do emprego e os efeitos da reforma trabalhista no setor; e ressaltou a importância da região sudoeste para a indústria paranaense; entre outros destaques.

Campagnolo também é vice-presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), presidiu o Conselho Deliberativo do Sebrae Paraná, com forte atuação no apoio às micro e pequenas indústrias e coordenou o G7 – grupo que reúne as principais entidades representativas do setor produtivo paranaense.

Diário do Sudoeste – Qual a avaliação do trabalho realizado pela Fiep no ano de 2017?

Edson Campagnolo – O ano de 2017 foi de grandes desafios. Com todos os segmentos da economia, em especial a indústria, ainda lutando para superar uma das piores crises da história do país, o Sistema Fiep teve uma atuação intensa para auxiliar as empresas a superar as dificuldades e seguir em frente.

Para isso, atuamos principalmente em duas frentes. A primeira foi a defesa dos interesses da indústria. Como legítima representante do setor, a Fiep buscou articulação com diferentes esferas do poder público em defesa de medidas que melhorem o ambiente de negócios do Paraná e do Brasil. Como exemplo, participamos ativamente da mobilização junto ao Congresso Nacional para a aprovação da modernização das leis trabalhistas. No Estado, entre outras ações, podemos destacar o alerta da Fiep de que mudanças no cálculo do ICMS causaria aumento de impostos para muitas pequenas empresas paranaenses a partir de 2018. Nosso pleito, infelizmente, não foi atendido pelo governo, mas cumprimos nosso papel de informar a sociedade.

A Fiep também seguiu dando prioridade ao fortalecimento do associativismo no Paraná. Por acreditar que a união de esforços é o principal caminho para a indústria crescer, ampliamos nossa estrutura com a inauguração de novas unidades das Casas da Indústria em várias regiões do Estado. Assim, chegamos a 11 casas instaladas em cidades-polo, que abrigam os sindicatos industriais, são utilizadas para cursos e outras ações do Sistema Fiep e servem como referência para as empresas de todas as regiões.

Em nossa segunda frente de atuação, seguimos ofertando inúmeros serviços para ampliar a competitividade das indústrias. Por meio do Sesi, do Senai e do IEL, as empresas continuaram tendo acesso a consultorias e treinamentos em áreas como educação profissional e executiva, segurança e saúde no trabalho, tecnologia, inovação e meio ambiente, entre tantas outras, que estão intimamente ligadas ao aumento de seu poder de competição. É essencial que as indústrias aprimorem sua gestão e seus processos produtivos e invistam em inovação e tecnologia para se destacar no mercado, e elas contam com o Sistema Fiep para isso.

Qual a expectativa da indústria para 2018, tendo em vista situações nacionais que podem influenciar a economia do país?

Em termos econômicos, o segundo semestre de 2017 já apresentou uma retomada da atividade e a indústria conseguiu, ao menos, frear o desemprego, ainda que de maneira tímida. Isso faz com que, para 2018, os empreendedores tenham perspectivas melhores para seus negócios.

A Sondagem Industrial, pesquisa realizada pela Fiep no fim do ano passado, mostrou que 63,5% dos empresários do setor têm expectativas favoráveis para este ano. O índice foi maior do que o registrado no levantamento anterior, quando 55,1% diziam estar otimistas em relação a 2017.

Dados como esses mostram que aquela queda acentuada na economia, aquela recessão que estava deixando o ânimo das pessoas totalmente para baixo, felizmente deu uma segurada. Porém, questões como a redução da produtividade durante a Copa do Mundo e, principalmente, as eleições de outubro, com um quadro indefinido, realmente podem causar certa insegurança nos empreendedores e retardar um pouco a efetiva retomada do crescimento econômico.

Nesse sentido, quais as orientações que a Federação tem repassado aos empresários do setor?

Apesar da incerteza que a indefinição do quadro eleitoral deixa no ar, não é um ano para ficarmos dentro de casa ou fecharmos as portas das nossas empresas, esperando para ver o que vai acontecer. É preciso trabalhar, produzir, fazer nosso melhor e animar as pessoas para que busquemos um Brasil cada vez mais desenvolvido.

O que temos procurado reforçar é que é essencial que todas as pessoas, sejam empreendedores, trabalhadores, enfim, todos os cidadãos, percebam a importância das eleições deste ano. As pessoas têm que se dar conta de que a questão eleitoral é importante para a vida delas. Não é apenas votar e ir para casa, temos uma obrigação como cidadãos de acompanhar as decisões de nossos representantes. O eleitor vai ter um papel fundamental neste ano, a responsabilidade está em suas mãos.

Por ser um ano político, 2018 deve ser enfrentado com mais cuidado em se tratando de investimentos na indústria? Será preciso cautela ou os empresários poderão ser mais ousados?

Sem dúvida alguma, a confirmação da expectativa mais favorável que os industriais demonstram para 2018 ainda esbarra em alguns fatores. O principal deles, como já foi dito, é o quadro eleitoral que, queira ou não, acaba influenciando no desempenho da economia. Nesse sentido, 2018 é um ano crucial para o Brasil.

As eleições deste ano são fundamentais, porque estamos diante de um abismo. Dependendo do resultado da eleição, vamos nos jogar nesse abismo. Ou, então, vamos atravessá-lo e ter um olhar para frente. Por ainda restar essa dúvida, muitos empresários devem se manter cautelosos quando o assunto é realizar novos investimentos. A Sondagem Industrial feita pela Fiep mostra que, entre os industriais paranaenses que estão otimistas em relação a seus negócios em 2018, apenas 26,8% afirmam que vão realizar novos investimentos este ano.

Qual a avaliação da Fiep sobre a situação dos empregos na indústria, no ano passado. Mais contratações ou mais demissões? Atribui-se o resultado a quais fatores?

O ano de 2017 foi um ano de muitos desafios e a indústria ainda realizou ajustes em sua estrutura, inclusive no emprego, devido à forte queda da produtividade. Para se ter uma ideia, nos últimos quatro anos o faturamento real da indústria paranaense teve uma queda de 23,16%. Nesse mesmo período, o emprego no setor se reduziu em 14,81%. Se o quadro era assustador, em 2017 tivemos ao menos um início de recuperação, com a indústria paranaense aumentando seu nível de emprego em 1%, o que significa aproximadamente 6,7 mil postos de trabalho.

O resultado foi melhor do que o da indústria nacional, que registrou queda de 0,52%, fechando 41 mil vagas. O Paraná conseguiu se recuperar mais rápido que a média brasileira devido a sua estrutura industrial, em que se destacam produtos de consumo não duráveis, como alimentos, que não são tão afetados em períodos de crise.

Quais os efeitos da reforma trabalhista no setor?

A entrada em vigor da reforma ainda é recente, mas em longo prazo seus efeitos serão benéficos não apenas para a indústria, mas para todo o setor produtivo brasileiro. Apesar de não representar uma reforma ampla na legislação trabalhista, ela moderniza vários pontos relevantes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

O país tinha uma legislação trabalhista extremamente antiga, que não acompanhou os avanços tecnológicos e sociais das últimas décadas. Isso criava muita insegurança jurídica principalmente para a implantação das novas modalidades de relações trabalhistas que surgiram junto com esses avanços.

As novas regras certamente serão um importante estímulo para a recuperação dos milhões de empregos que o Brasil perdeu com a crise dos últimos anos. Mais do que isso, a modernização será importante para criar novos paradigmas para as relações trabalhistas no país. É preciso que se crie uma nova cultura, em que se entenda que empregadores e empregados fazem parte de uma mesma engrenagem. É ela que faz a economia se movimentar e crescer, precisando haver responsabilidade de ambas as partes para que se criem relações mais harmoniosas e produtivas, em benefício do Brasil.

Para que o país volte a ser promissor, quais outras medidas ou reformas deverão ser realizadas?

Falando especificamente da indústria, seu desenvolvimento depende de investimentos em diversas áreas. Entre elas, uma das principais é a implantação de novas tecnologias, especialmente às ligadas ao conceito de Indústria 4.0, que vão desde a automação digital de linhas de produção até a incorporação de serviços digitais nos produtos.

São necessários ainda investimentos em capacitação e adequação dos trabalhadores a essas novas tecnologias, lançamento de novos produtos e procura por novos mercados. Mas, além de fazer seu dever de casa para aprimorar processos e produtos, a indústria também enfrenta dificuldades que precisam ser superadas principalmente na esfera pública.

São todos aqueles problemas que, infelizmente, tornaram-se velhos conhecidos dos empreendedores e aumentam significativamente o chamado Custo Brasil. Como, por exemplo, nossa elevada carga de impostos, agravada por um sistema tributário extremamente complexo, o excesso de burocracia em todas as áreas e as deficiências em nossa infraestrutura logística, entre tantos outros.

Melhorias em todos esses pontos, que tornariam o ambiente mais favorável aos negócios no Brasil, dependem basicamente de decisões daqueles que nos representam no Executivo e no Legislativo, em todas as esferas. Para que aconteçam, repito, é preciso também que cada cidadão e cada empresário também faça sua parte, elegendo representantes comprometidos com o desenvolvimento e fiscalizando constantemente a atuação dos eleitos.

As empresas afirmam que o custo do trabalho é muito alto no Brasil. Seria possível reduzir encargos sobre a folha de pagamento, de modo a diminuir os custos? A Fiep tem alguma proposta nesse sentido?

Realmente, os encargos trabalhistas e sociais são considerados um dos principais empecilhos enfrentados pela indústria brasileira e paranaense. Na Sondagem Industrial da Fiep, esse é apontado como o segundo fator que mais dificulta a concorrência das empresas no mercado interno, ficando atrás apenas da carga tributária elevada. A razão disso fica claro quando se analisa, por exemplo, um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que mostra que custos do trabalho no setor industrial no Brasil superam os da maioria dos países em desenvolvimento, com os quais a indústria brasileira compete diretamente. Isso se deve, em grande medida, à elevada carga fiscal que pesa também sobre o trabalho.

Até certo ponto, algumas das novas formas de contratação regulamentadas pela modernização trabalhista, além de novos dispositivos para admissão e desligamento de colaboradores estabelecidos pela nova lei, ajudam a diminuir alguns custos trabalhistas. Porém, é preciso desonerar principalmente os encargos sociais, e isso passa principalmente por um maior equilíbrio das contas públicas.

Nesse ponto, a reforma da Previdência é fundamental. Sem solucionar o rombo no sistema previdenciário, dificilmente será possível reduzir encargos sociais para os empreendedores e estimular ainda mais a geração de emprego e renda no país.

Como o sudoeste do Paraná tem ajudado a desenvolver o setor da indústria no estado? Quais exemplos bem-sucedidos merecem destaque e podem servir de modelo para os demais empresários?

O Sudoeste, mesmo com todas as dificuldades que enfrenta, principalmente em termos de infraestrutura, é muito importante para a indústria paranaense.

A região concentra diversos polos industriais em setores como o alimentício, do vestuário e de madeira e mobiliário, entre tantos outros. Mas talvez os dois exemplos que talvez melhor mostrem o potencial da região são os das indústrias metalmecânica e, mais recentemente, o de tecnologia da informação e comunicação.

O Sudoeste tem se destacado com importantes polos desses dois setores, o que se deve basicamente ao envolvimento da sociedade em levar escolas técnicas especializadas à região, que preparam mão de obra apta para a indústria. Isso fez com que esses setores se desenvolvessem rapidamente e deixa claro que investir em educação para poder ter pessoas que entendam das novas tecnologias é um dos fundamentos para o desenvolvimento industrial.

 

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