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“Maduro subiu ao poder, tudo o que estava reprimido explodiu”

As recentes turbulências políticas e econômicas na Venezuela têm gerado uma crise migratória. São milhares de pessoas que partem em busca de oportunidades e até mesmo subsistência em diferentes países, como o Brasil. Umas delas é Alberto Quiroz
(Foto: Helmuth Kühl)

Numa de junho, Alberto Alejandro Quiroz Rodriguez entrou na cafeteria onde o esperávamos vestindo calça jeans, camiseta polo e uma camisa de flanela fazendo as vezes de jaqueta. O traje contrastava com os casacos ao redor, necessários para aquela tarde que registrava 13 ºC.

Há sete meses no Brasil, poucos deles em Pato Branco, Alberto, um rapaz baixo de 19 anos de idade, nunca havia encarado uma temperatura menor do que 25 ºC, e foi pego desprevenido. Seu domicílio era Margarita, uma ilha ao norte da Venezuela, já no Caribe, com praias dignas do endereço, segundo ele.

Não fosse pelo portunhol, Alberto poderia ser confundido com um estudante universitário local, o que ele era antes de ter largado o curso de informática na Universidad de Oriente.

Sem condições de estudar e trabalhar, e diante da crescente precariedade da universidade, Alberto decidiu migrar para o Brasil. Segundo relatório do Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), assim como ele, cerca de 1 milhão de venezuelanos deixaram o país entre 2014 e 2017, fluxo que já é chamado de crise migratória. A origem da movimentação são as recentes turbulências políticas, econômicas e sociais na Venezuela.

Para um grande número de países e entidades internacionais, Nicolás Maduro transformou a Venezuela em uma ditadura, que mergulhou o país em uma grave recessão econômica que está causando a escassez de produtos básicos.

Segundo dados da Acnur e dos países que estão recebendo o fluxo migratório, o principal destino dos refugiados é a Colômbia, onde devem estar cerca de 200 mil pessoas, a maioria sem nenhum tipo de status legal. No Brasil, os dados não são confiáveis, visto que muitos entram e saem do país em buscam de mantimentos. Porém, a prefeitura de Boa Vista diz que pelo menos 40 mil venezuelanos estão vivendo em abrigos na cidade - os dados são de fevereiro de 2018.

Como a maioria de seus conterrâneos, também foi pela capital do estado de Roraima que Alberto entrou no Brasil, já pensando em chegar a Pato Branco, onde vive um primo.

Alberto nasceu quando Hugo Chávez, padrinho político de Maduro, já estava no poder. Figura central da história recente do país, Chávez foi eleito presidente e assumiu o cargo em 1999, implantando o chamado socialismo do século XXI. Reeleito três vezes, o governante ficou a frente do país até sua morte, em 2013.

Para Alberto, foi a partir daí que as coisas começaram a complicar. Na carteira, ele carrega uma nota de 100 bolívares, que hoje não compra nada na Venezuela. Desde que está no Brasil, ele conta que as notas já foram renovadas sete vezes, com acréscimos de zeros para que as cédulas dessem conta da inflação galopante. 

Vanilla conversou com o imigrante, que aguarda avaliação de seu protocolo de refúgio no Brasil.

 

Por quais motivos você veio ao Brasil?

Eu estava na Venezuela, fazendo a faculdade. Estudava informática há um ano e meio na Universidad de Oriente, uma faculdade conceituada na América Latina. Mas os preços de ônibus começaram a ficar muito caros, e para quem estava só estudando, e não trabalhando, ficava muito difícil ir e voltar.

Minha família estava bem, mas eu queria fazer algo, e fiz cursos de bartender. Meu primo já estava fora do país há dois anos, e disse que se eu quisesse poderia vir para cá. Ele tem um amigo com quem jogava pela internet, que mora aqui e o ajudou a conseguir trabalho.

Agora está muito difícil conseguir emprego. Há dois ou três anos você até conseguia, mas o salário era muito baixo. Ele veio para o Brasil por conta disso, e também para poder ajudar a família. Hoje, 100 reais equivalem a 44 salários mínimos na Venezuela.*

 

Então você deixou a faculdade por não conseguir mais ir até ela?

Também teve outros problemas. O governo não estava mais pagando os funcionários e os professores, que não davam mais aulas. Houve protestos dos estudantes, que foram reprimidos com violência pela guarda.

 

Onde você morava na Venezuela?

Morava e estudava em Margarita, uma ilha que fica há 11 horas de viagem de Caracas, duas horas por mar e nove por terra. A maior parte da minha infância, até os oito nove anos de idade, vivi em Caracas, e depois fui morar em Margarita. Hoje meu pai está em Caracas e minha mãe em Margarita.
 

Porque você decidiu ser bartender?

Tenho um amigo bartender que hoje mora na Espanha. Ele recomendou que eu fizesse o curso, pois já que pretendia ir embora, poderia trabalhar em qualquer país. Se não fosse por isso eu não teria emprego agora.

 

Há quanto tempo você está no Brasil, e como foi a sua viagem até Pato Branco?

Estou a sete meses no Brasil. De Caracas fui de ônibus até Boa Vista, Roraima, onde peguei um avião até Manaus, de lá até Curitiba de onde cheguei de ônibus.
 

O que seus pais dizem sobre o país antes do governo de Hugo Chávez?

Antes o pagamento dava para fazer o mercado e também para outras coisas. A delinquência estava baixa, e quem cometia um crime precisava realizar um trabalho manual, como arrumar ruas. Nossa moeda também tinha muito mais valor.
 

E o que mudou depois que ele assumiu?

As pessoas de baixo recurso tiveram muito mais empregos. Ele dizia que todas as pessoas de baixo recurso teriam renda, casa e trabalho garantidos. Foi dessa forma que ele se consolidou no poder, pois Chávez era uma pessoa com muito carisma, sabia como falar, sabia contagiar as pessoas.
 

Qual a sua opinião sobre o governo de Chávez?

As coisas estavam tensas quando Chávez tentou um golpe de estado (em 1992). Depois disso, as coisas ficaram mais tranquilas. Chávez ficou livre, foi candidato a presidência, ganhou, e pouco a pouco as coisas melhoraram. A inflação subia aos poucos, e as pessoas estavam tranquilas. Quando ele morreu, e (Nicolás) Maduro subiu ao poder, tudo o que estava reprimido explodiu.
 

O que estava reprimido?

O preço do petróleo estava em baixa, e Chávez estava fazendo o que podia para manter as pessoas distraídas. Mas a pessoa que ele deixou no poder não estava preparada. Maduro não sabe como governar o país, a única coisa que ele havia feito na vida era dirigir um ônibus. Nesse tempo começaram os problemas com os alimentos. Chegou um período em que o pão desapareceu.

 

Quais foram os outros efeitos desse momento de crise no cotidiano?

O pão e outros recursos principais começaram a faltar. Por exemplo, uma semana tinha macarrão e na outra não tinha. Depois começaram a faltar os medicamentos básicos, os preços começaram a subir e a moeda nacional começou a se desvalorizar perante o dólar.

As dívidas aumentaram, por conta da baixa produção. O governo expropria empresas por um preço abaixo do que elas valem, e isso também afetou a produção. Isso já acontecia na época do Chávez.

 

Como são as empresas privadas na Venezuela?

Agora é muito complicado ter um negócio. Os preços de aluguel são caros, muito custosos. É possível empreender, mas é muito difícil, você precisa saber muito bem o que está fazendo, ter o dinheiro e as conexões. Agora os recursos estão muito limitados.

 

Qual é o trabalho dos seus pais?

Meu pai trabalha como músico, e minha mãe é professora em uma escola privada.

 

Você diria que a Venezuela é um país democrático? Qual é a percepção das pessoas sobre as eleições?

Não. Pouco a pouco o socialismo está se transformando em comunismo. No início as pessoas pensavam que estava tudo bem. Na primeira eleição de Maduro ele concorreu com (Henrique) Capriles, e tudo ficou muito justo. Depois vieram as eleições da Assembleia Nacional, onde a oposição ganhou a maior parte.

A desconfiança começou na reeleição de Maduro. O sistema eleitoral, que se encarrega dos votos, faz parte do governo, então isso está manipulado.
 

Qual a ideia que você tinha do Brasil?

Que é um país grande, uma potência mundial, onde as pessoas estão bem, apesar de um ou outro problema de corrupção.

 

Onde estão seus amigos hoje? Alguns deles também saíram do país?

A maior parte dos meus amigos estão fora do país. Éramos 22 alunos na turma de colégio, destes 17 estão no exterior. Alguns já tinham a ideia de sair do país para estudar em faculdades melhores, outros terminaram a faculdade e saíram do país com a família, em busca de oportunidades de trabalho.
 

E o que você acha de Pato Branco?

É muito legal. Desde que eu cheguei as pessoas estão sendo muito boas comigo, conversam, entendem as condições que eu morava lá.


 


* No dia 07/06/2018, quando Alberto foi entrevistado por Vanilla, 100 reais equivaliam a 2.044.989,78 bolívares venezuelanos, segundo cotação feita no site do Banco Central do Brasil.


 

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