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Madre das quebradas

Para catequizar jovens de rua, Irmã Inez precisou de mais do que vocação. Ela aprendeu a linguagem e a música do gueto, e virou a Freira do Rap

Para catequizar jovens de rua, Irmã Inez precisou de mais do que vocação. Ela aprendeu a linguagem e a música do gueto, e virou a Freira do Rap

Divulgação
Irmã Inez, "a caráter"

Quando entrou para o convento, Inez de Souza Carvalho esperava seguir uma vida modesta, recolhida, servindo aos princípios de sua fé e orando. Vinte anos depois, quem vê a freira de sorriso fácil, coberta de azul e branco dos pés a cabeça, imagina que sua vida de fato transbordou tranquilidade.

Mas o caminho de Inez foi bem mais agitado do que sua gentileza sugere. Logo nos primeiros anos de hábito, em Ponta Grossa, ela recebeu a função de convencer meninas de rua, expostas a todo tipo de barbaridade, a se catequizarem, da primeira comunhão à crisma.

Falar de amor para adolescentes mulheres acostumadas ao ódio era impossível, e por isso Inez precisou encontrar uma linguagem que fizesse sua mensagem ser entendida. Assim nascia a Freira do Rap, a versão de Inez que já gravou vários CDs, virou atração de programas de televisão e que já perdeu as contas do número de shows que tem no currículo.

Ela não desejava nem metade disso quando percebeu que poderia evangelizar usando o estilo musical que costuma ser a voz das periferias e de grupos marginalizados. Inez queria apenas resgatar, como define o ato de confortar e abrigar jovens expostos à violência, o que também acabou conseguindo.

Na rua

Única filha mulher de uma família humilde de Rosário do Ivaí, na região central do Paraná, Inez nunca tinha ouvido uma rima sequer antes do convento, muito menos visto gente extremamente pobre. “Foi um choque de realidade”, confessa.

Pregar para adolescentes de rua era difícil. As meninas frequentemente fugiam do convento, e por algum tempo Inez sofreu por não conseguir cumprir com sua função. Ela descreve o estalo de evangelizar pela música como uma revelação. “Eu senti Deus me dizendo que eu precisava dançar a música delas”. Fez então o caminho inverso. Se as meninas não vão ao convento, a irmã vai as ruas.

Nas noites de Ponta Grossa a madre conta ter visto de tudo. Pessoas dormindo em caixas de papelão, usuários de drogas, prostituição e crime. Conheceu também os modos, as gírias e os gostos da juventude do gueto, e descobriu que eles se identificavam com as letras do rap.

“O bom rap sempre conta uma história”, explica. Era a deixa para que ela começasse a compor os seus, inclusive um sobre si mesma. “Sou irmã Inez” resume a complicada história de vida da freira, e é a faixa de abertura de A Face da Revolução, um de seus vários discos. Por “Face”, Inez diz ter recebido elogios dos Racionais Mc´s, o mais famoso grupo de rap do Brasil.

O pai de Inez demorou a aprovar sua decisão de ser freira. Ela também foi adotada e devolvida, além de ter passado por sérios problemas de saúde na infância.       
Irmã diferenteA música funcionou, e aos poucos o rebanho foi aumentando. As meninas queriam conhecer aquela “irmã diferente”. Com grupos formados por jovens de rua Inez foi a festivais de teatro e música sacra, e começou a se apresentar em ginásios e até mesmo nas ruas de Ponta Grossa.

Passou também a chamar a atenção da imprensa, o que a levou a ser entrevistada por Jô Soares. “Eu era tão caipira naquele tempo”, conta, lembrando da ocasião. 
De alguns lados vieram críticas, principalmente por conta da exposição. Mas a reação da maioria, tanto  da igreja quanto dos fieis, sempre foi boa - Inez já fez shows a convite de bispos.

Ela coleciona histórias de suas andanças, boas e ruins. Um rapaz que assistia a uma de suas apresentações seria assassinado horas depois. No show, ele se escondia de traficantes.

Em uma madrugada, a religiosa foi acordada pelo telefonema de um jovem paulista, pedindo orações, pois pretendia se suicidar. Inez tentou dissuadi-lo e na manhã seguinte ele retornou, estava bem. O jovem a havia visto em um programa de televisão e anotado seu número de telefone.

Hoje, irmã Inez coordena sua própria comunidade, a Milagre Eucarístico, em Paranaguá, onde trabalha na recuperação de adolescentes dependentes de drogas, além de realizar outros serviços assistenciais. Ela tenta reconstruir a sede de uma chácara, destruída por uma enchente, que servia de morada para jovens.

A comunidade tem suas ramificações, sendo uma delas a Casa de Maria, grupo de religiosas que vive em Pato Branco.

Tantos anos perto da juventude maltratada a fizeram acreditar que a solução para esse problema passa pela valorização da família e pela educação. Fé também é importante. “E eu não falo de religião, pois a fé é muito mais do que isso. Ter fé é sentir aquela convicção de que as coisas vão dar certo, é acreditar”.

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