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Livres por voar

Eles são médicos, professores, empresários, profissionais liberais. Andam por diferentes rumos em horário de trabalho e se cruzam no tempo livre, motivados por uma paixão em comum. Para esses aviadores, pilotar uma aeronave deixou de ser um sonho de infância e virou realidade de adulto, uma brincadeira levada a sério que torna palpável o sentimento de liberdade

Eles são médicos, professores, empresários,  profissionais liberais. Andam por diferentes rumos  em horário de trabalho e se cruzam no tempo livre, motivados por uma paixão em comum: voar

Helmuth Kühl

Voar é uma capacidade que a evolução não deu à espécie humana. Mas ela deu inteligência para perceber o grande feito que é um voo, entender o que é necessário para realizá-lo e assim foi possível dar um jeito. Como muitas invenções do homem, o avião trouxe alegrias e ao menos uma tristeza, pois com ele as guerras se tornaram mais letais.

As distâncias, porém, foram encurtadas e o desejo de imitar os pássaros virou realidade. O sonho de voar, os negócios e a diversão são algumas das razões para que uma pessoa dedique anos de estudo e desembolse um bom dinheiro para aprender a pilotar uma aeronave, embora o sentimento seja o mesmo: liberdade.

Não existe descrição melhor do prazer de voar do que o depoimento de um aviador. “É divino. Você levanta voo, escolhe onde quer sobrevoar e simplesmente vai, livremente”, descreve Volmir Sabbi. Ele é professor universitário de Engenharia Civil, dono de um ultraleve e membro do Clube de Aviação de Pato Branco, que reúne mais de 30 aviadores e suas aeronaves.

A maioria deles não vive de pilotar. São profissionais liberais, empresários e outros loucos por aviação, que se encontram regularmente para confraternizar, conversar sobre a paixão em comum e claro, sobrevoar a cidade e seus arredores pelo prazer de ver o mundo do alto.Mas para alguns não basta observar as coisas lá de cima, é preciso vê-las de cabeça pra baixo.

Médico acrobata

O Christen Eagle é um avião biplano, de asas curtas, instável e por isso muito ágil. Ele é capaz de girar 198 graus por segundo no eixo longitudinal, muito mais do que uma aeronave de passeio comum, pois não foi feito só para passear. Esta é a anatomia de um avião de acrobacias, fabricado para fazer manobras que são loucura para quem observa do chão e pilotagem refinada para quem está no comando. “Fazer uma manobra perfeita é muito difícil. É preciso prestar atenção na posição do avião em relação ao solo, na altitude e na velocidade. A cabeça trabalha um monte, e assim acaba-se voando com perfeição”, descreve Abdul Pholman, cirurgião vascular de segunda a sexta-feira e piloto acrobata aos fins de semana.

Helmuth Kühl

Pholman sobrevoa Pato Branco com seu Christen Eagle II

Abdul é dono de um Eagle há cerca de três anos, mas a vontade de voar nasceu ainda na infância. Com 11 anos de idade ele já aprendia as primeiras técnicas de pilotagem com o pai, em Francisco Beltrão. Anos depois foi para Curitiba, voltou médico e passou a trabalhar em Pato Branco, onde está há 13 anos.Além do curso de piloto privado, um aviador precisa de um treinamento específico para sair por aí executando loopings.

São 20 horas de prática, o que pareceria pouco se não envolvesse tanto esforço. “Um voo de 20 minutos de acrobacias te deixa quebrado”, relata.Para tirar o avião do chão e rodopiá-lo o piloto precisa operar controles com as mãos e os pés e suportar os efeitos da força G, que multiplica o seu peso durante as manobras.

Conseguir um avião e mantê-lo também exige dedicação. O Eagle de Abdul veio de navio dos Estados Unidos, e chegou ao Brasil meses depois da compra. Todo ano é preciso fazer inspeção, além de uma manutenção a cada 50 horas de voo e o custo com combustível. Dispensável dizer que ninguém se incomoda. “Voar é liberdade. E voar com acrobacias é adrenalina”, pontua o médico.

Competição

Abdul treinava para sua primeira competição oficial de acrobacias aéreas, em julho de 2014, em Pirassununga, interior de São Paulo. Ele repetia rigorosamente uma sequência de manobras desenhada em um papel, pois nas competições não há improviso. O clube internacional de acrobacias (da sigla em inglês IAC) determina a série de manobras a serem executadas em cada categoria nas competições mundo afora.

Helmuth Kühl

Diagrama de acrobacias para treino. Competições premiam os pilotos mais precisos

Abdul voou na categoria sportsman. O piloto precisa executar a sequência dentro dos limites de um cubo imaginário no ar. Quem for mais preciso, na opinião dos juízes, vence. Mas nada de trilha de fumaça. O recurso costuma ser usado para embelezar a manobra em apresentações públicas. Tanta minúcia acaba contribuindo também para a habilidade do cirurgião.“Às vezes uma acrobacia dá errado, e você precisa ter paz pra saber o que está acontecendo e saber o que fazer rapidamente. Esse tipo de raciocínio me faz trabalhar melhor”.

A vida no ar

Existe uma piada entre os aviadores que diz que a carreira de um piloto se desenrola em três etapas. Na primeira ele paga para voar, é a fase do aprendizado. Depois, ele consegue voar sem pagar para só então passar a receber pelos voos. “Existe uma quarta, quando você paga pra não voar”, conta rindo, Roberto Suzin, que ainda está longe dessa última etapa.

Helmuth Kühl

Membros do Clube de Aviação de Pato Branco

Suzin é piloto comercial, ou seja, está habilitado a transportar passageiros e cobrar por isso, função que exerce há mais de 20 anos. A profissão tem suas vantagens, como conhecer lugares diferentes, mas existem os sacrifícios. Um deles é passar vários dias longe de casa, razão que o fez deixar a profissão como atividade secundária e gerenciar uma loja de materiais de construção. Mas pilotar é mais divertido, disse o aviador justificando o retorno definitivo ao ar.

Para continuar trabalhando, Suzin explica que o piloto precisa comprovar anualmente sua capacidade de voar por instrumentos, assim como renovar seus exames de saúde junto às autoridades aeronáuticas. A carreira de aviador profissional também possui degraus. Recentemente, Suzin completou a fase teórica de aviação de linha aérea. Até então, ele trabalhou na aviação executiva, sendo contratado para viagens específicas.

“É um mercado promissor”, analisa Kassio Todescatt, que está a caminho de se tornar um piloto comercial. Ele diz que não pretende ser piloto de linhas aéreas, pois a aviação é só uma de suas paixões. Kassio é baterista e sócio de um estúdio de gravação profissional em Pato Branco. Sua meta é continuar nesse ramo e também trabalhar com voos executivos, um objetivo que já lhe exigiu bastante empenho.

Helmuth Kühl

Todescatt, piloto e músico

O primeiro passo foi fazer o curso de piloto privado, que de modo geral, é o suficiente para quem quer voar apenas por prazer ou como meio de transporte particular. “É parecido com uma autoescola, só que os exames médicos são mais rigorosos. São cerca de três meses de teoria, uma prova da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e depois vem as aulas práticas”, detalha.

Guiar uma aeronave como profissão significa outros meses de estudo, mais exames médicos e mais horas no banco de um avião.

Sonho longevo

O apreço pelo mundo das aeronaves foi despertado em todos os personagens desta reportagem ainda na infância ou na  juventude. Também foi assim com o empresário Dério Rost, que nutre o sonho de voar desde a década de 70, mas que só agora, aos 67 anos de idade, está tendo suas primeiras aulas de pilotagem.

Dério já tentou aprender várias vezes, mas as circunstâncias acabaram adiando seu projeto e o afastando da aviação. Foi o sucesso nos negócios de armazenagem de grãos que o trouxe de volta. Ele comprou dois aviões, um para os interesses da empresa e outro para finalmente aprender a voar por conta própria. “É a realização de um sonho, poder frequentar o aeroclube e mais tarde fazer os meus passeios”, conta.

Sobre o prazer de voar, Dério bate na tecla da liberdade, aquele que é o sentimento padrão dos aviadores. Basta que o tempo colabore para que os membros do Clube de Aviação de Pato Branco embarquem em suas aeronaves e se sintam mais livres.

E basta saber disso para que um grupo de curiosos assista aos pousos e decolagens da grade do aeroporto. Não é raro encontrar crianças com seus pais, olhando para a pista e exclamando as palavras que já conseguiram aprender sobre esse universo, provavelmente tentando entender como é possível voar e semeando o desejo de um dia sair do chão. É assim que nasce um aviador.

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