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Literatura da (não) diversidade

Uma conversa com Luiz Ruffato sobre desigualdades e a monocromática literatura brasileira

Uma conversa com Luiz Ruffato sobre desigualdades e a monocromática literatura brasileira

Helmuth Kühl

Luiz Ruffato, escritor.

A vida imita a arte, exceto em livros escritos por brasileiros. É o que diz um estudo feito pela Universidade de Brasília que fez uma radiografia da produção literária nacional dos últimos 24 anos. O extrato da análise, publicado em 2012 no livro “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, mostrou que a área é dominada por homens brancos, de classe média, que escrevem sobre dramas de metrópole envolvendo personagens com perfis parecidos com os seus. Universo limitado para um país continental, multicultural, onde a maioria da população se considera parda ou preta, é mulher, e onde ainda há desigualdades sociais.

Luiz Ruffato nasceu pobre, em Cataguases, interior de Minas Gerais, filho de uma lavadeira de roupas e um pipoqueiro. Antes de ser um premiado escritor, Ruffato foi caixeiro, operário têxtil e torneiro-mecânico. Ou seja, percorreu um caminho pouco tradicional para um escritor, o que pode ter contribuído para seu senso crítico quanto às letras e à sociedade tupiniquim contemporânea.

Em um discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt de 2013, edição em que o Brasil era o país homenageado, o escritor falou algumas verdades, boas e ruins. As ruins, como o abismo entre classes sociais e a violência contra mulheres e gays, desagradou muita gente. Era de se esperar de uma nação que não gosta de lavar roupa suja em casa, quiçá em público e no quintal alheio.

Era uma bola que precisava ser levantada e que deveria continuar quicando. Ruffato acredita que o escritor pode funcionar como um catalisador de debates, principalmente nos dias de hoje quando a efervescência de feiras literárias viabilizam diálogos diretos com o público, perto e longe das capitais. Na edição mais recente da Feira Literária do Sesc, em Pato Branco, o autor de “Eles eram muitos cavalos”, “Estive em Lisboa e lembrei de você” e do recente “Minha Primeira Vez”, falou sobre a invisibilidade como forma de violência.

A violência, as desigualdades sociais e de gênero são temas omitidos na literatura brasileira?

São muito omitidos. A nossa literatura representa muito pouco a realidade brasileira. Hoje, no exterior, a imagem do Brasil carrega dois grandes estereótipos. Um deles é aquele mais tradicional, da nação das praias, das mulheres, das florestas, do carnaval, do futebol. O outro é o do país das favelas, da violência bang bang.

Talvez o que nós devíamos nos preocupar em fazer era quebrar esse primeiro estereótipo. Nós não somos só o país do carnaval, da praia, enfim. Somos isso também, entretanto, somos muito mais complexos.Do outro lado precisamos entender que a violência bang bang é uma consequência. Ela é resultado do racismo, que é absurdamente grande, e nós não assumimos; do machismo, o Brasil é um dos países onde mais se matam mulheres; da homofobia, pois o fato de termos uma das maiores paradas gay do mundo não muda a forma como tratamos a homossexualidade; da violência contra a criança, e dessa enorme diferença que ainda existe entre ricos e pobres.Essas violências todas não são evidenciadas, aparecem apenas seus resultados.

O fato de haver poucos escritores negros ou mulheres em evidência contribuiu com esse silêncio?

Não há negros no meio literário como não há no meio médico, no meio da engenharia, advogados, professores, não há negros na classe média. Isso é uma herança terrível que nós trazemos do nosso passado, e que fingimos não ser da nossa conta.É muito difícil ter uma literatura que faça uma reflexão a respeito dessas questões se elas não estão inseridas no meio. Dá pra contar nos dedos os escritores negros de sucesso aqui no Brasil.

Quanto às mulheres é um pouco diferente. Acredito que metade da literatura de hoje seja feita por mulheres. Mas, curiosamente, quando se analisa a lista dos escritores nacionais badalados você percebe que há poucas mulheres.Nas antologias de literatura brasileira, de nomes que representarão o Brasil no exterior ou mesmo em festivais literários, a presença feminina é sempre minoria. Ou seja, existe o preconceito dentro do meio literário, e temos muito caminho pra andar ainda.

Por que esse assunto te chama a atenção?

Eu tenho uma trajetória um pouco peculiar para um escritor brasileiro. Em geral, a grandessíssima maioria dos escritores brasileiros são filhos de classe média. Eles obedecem a certas categorias nas quais eu não me enquadro.Eu sou filho de classe média baixa, talvez baixíssima. Fiz um monte de coisas antes de ser escritor, e as humilhações que eu passei por ser de uma classe econômica baixa me permitiram ver as humilhações que as pessoas passavam por serem negras, por serem mulheres, por serem índios, uma classe que também sofre.

Pra mim o Machado de Assis é um dos maiores escritores que existiram em qualquer língua. Aquele olhar dele não é de uma pessoa de classe média. Era o olhar de uma pessoa negra em uma sociedade escravocrata, pobre, que subiu na vida com esforço próprio. Um olhar que chega a ser cínico diante daquela realidade brasileira.

Em seu discurso, na feira de Frankfurt, você diz considerar um avanço a redução da miséria no Brasil, mas que isso seria apenas uma etapa. De que forma a literatura pode contribuir para a diminuição de desigualdades?

Você foi uma das poucas pessoas que viu esse trecho, porque todo mundo só viu os outros. Acho que a literatura num país em que ninguém lê pouco pode ajudar. Mas ao mesmo tempo, acho que nos últimos anos houve uma novidade, que é a maior participação dos escritores na vida pública, como em feiras literárias, em palestras. Enfim, houve um upgrade da figura do escritor na sociedade.

E é uma pena, porque a grande maioria dos meus colegas não sabe aproveitar isso. Quando é convidada para esse tipo de evento a grande maioria quer falar sobre a sua obra, como se alguém lesse alguma coisa no Brasil. Seria ridículo eu chegar aqui e dizer: “vou falar sobre a minha obra”. Ninguém me conhece, ninguém me leu.

Então eu acredito que nós deveríamos usar esse espaço público para tentar participar de uma discussão mais ampla. Evidentemente eu não condeno aqueles que não o fazem, e nem acho que todo mundo tem que fazer. Cada um faz o que quiser da vida. Mas eu lamento realmente, porque é uma oportunidade excelente da qual estamos abrindo mão.

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