Especial

Ivo Martini chegou a Pato Branco quando João Goulart estava na cidade

O escritor e historiador pato-branquense relembra este momento importante e garante que apesar de não ter vivido a revolta em sua essência, é preciso valorizar o movimento e criar uma semana de comemoração. “A revolta merece ser contada”
["Ivo Martini ocupa a cadeira 43 da Alap (Academia de Letras e Artes de Pato Branco) e sugeriu que a partir do ano que vem seja feita a Semana da Revolta no munic\u00edpio "] (Foto: Helmuth Kuhl)

O escritor e historiador Ivo Martini, 79 anos, chegou a Pato Branco em 1962, vindo de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Veio a passeio e acabou fixando residência no Sudoeste. “Na época, eu era contador, e havia pouca gente na cidade que tinha curso de contabilidade. Os empresários precisavam deste serviço e não me deixaram mais ir embora.”

Ivo Martini ocupa a cadeira 43 da Alap (Academia de Letras e Artes de Pato Branco) e sugeriu que a partir do ano que vem seja feita a Semana da Revolta no município. Foto: Helmuth Kuhl

Naquele tempo, como recordou Martini, nas rodas de conversa, em bares, restaurantes, varandas das casas e pelas ruas, o assunto era um só: a Revolta dos Posseiros. E mesmo não tendo vivido diretamente o conflito de terras da época, o pioneiro estava em Pato Branco num momento histórico: o governador Nei Braga e o presidente João Goulart vieram à cidade entregar o primeiro título de terra após os conflitos. [Mais precisamente em 17 de março de 62. Ambos visitaram a região e anunciaram a regularização da área, tornando cerca de 60 mil posseiros em proprietários de terras.]

O gosto pela leitura e pela história fez com que Martini mergulhasse no tema. O escritor, estudioso da imigração italiana, já tem vários livros publicados e irá participar do quinto concurso nacional, em Porto Alegre (RS).

“Em 1943, Getúlio Vargas criou a companhia Cango (Colônia Agrícola Nacional General Osório). O objetivo dessa colônia era colonizar a região com gaúchos, catarinenses, com pequenas propriedades. Eles começaram a vir para a região e se estabeleceram. A Cango oferecia aos colonos toda a estrutura, como terra, semente, material para plantar, ajuda médica, ferramentas, mas não dava o título da terra. Dava apenas a posse, porém a mesma não tornava o posseiro proprietário”, contou o escritor.

Foi isto que gerou o movimento da revolta. Segundo Martini, as pessoas recebiam a terra, mas não o documento por escrito. As áreas estavam sob judice do governo estadual e federal, e os colonos ficaram no meio dessa guerra. “Em 1951 os colonos começaram a se revoltar contra a situação. Em 56, entrou, além da Citla, uma colonizadora que se estabeleceu, vieram mais duas companhias: a comercial e a Apucarana. Elas começaram a pressionar os posseiros para que assinassem o termo de posse.”

Foi então que surgiram os jagunços, que eram enviados para as propriedades e obrigavam os colonos a assinar o contrato. Quem se recusava, sofria violência e era castigado. Segundo Martini, se iniciou um movimento de conscientização para que os posseiros não assinassem os documentos, visto que eram duvidosos. Em 9 de outubro daquele ano, o povo se reuniu na praça de Pato Branco e chamou a rádio. Foi o grande momento do levante.

História

Vindos do Rio Grande do Sul, a maioria das famílias que chegava ao Sudoeste tinha o sonho de construir uma vida melhor. Na boa fé, pegavam um pedaço de terra, e quando viam, estavam sem a documentação, correndo o risco de serem despejados.

“Na época quem morava no RS eram famílias numerosas, de dez, 15 filhos, e não tinham mais terra para trabalhar. A maioria dessas famílias veio ao Sudoeste para começar nova vida. Vinham dispostos a trabalhar, chegavam aqui, compravam um pedaço de terra e depois viam que não tinham título e não eram donos. Na época havia muitas mudanças, eram caminhões e caminhões carregados de mudanças, em busca de vida nova. E muita gente veio ao Sudoeste após a revolta dos posseiros.”


Semana Revolta dos Posseiros

Ivo Martini ocupa a cadeira 43 da Alap (Academia de Letras e Artes de Pato Branco) e disse que é preciso discutir mais sobre o tema da revolta, especialmente nas escolas. Por isso, com o objetivo de aproximar ainda mais a comunidade da história do Sudoeste, Martini sugeriu que fosse criada a “Semana da Revolta dos Posseiros”. A Alap aceitou e a ideia deverá ser amadurecida.

“Durante a semana, a programação seria ir aos colégios, levar pessoas que viveram a revolta, estudiosos, para contar a história aos alunos. O objetivo é divulgar o assunto, visto que hoje é uma história praticamente esquecida.”

Seu Ivo Martini tem um pequeno livro publicado, intitulado “Pato Branco Prosa e Verso”, que conta a história do município no ano de 62. “Fui professor de Português e, naquela época, não se comentava muito em sala de aula. Lembro que o Colégio Estadual Agostinho Pereira virou um ponto de encontro para conversar sobre a revolta. Conheci muitas pessoas que se envolveram na revolta naquelas conversas, até hoje há pessoas vivam que sofreram com os conflitos.”

De fato, uma história como esta merece ser imortalizada e mesmo que a diferença de idade e valores entre as gerações seja grande, vale a pena contar. “Um dia desses foi convidado para ir a um colégio. Falei para os alunos sobre como era Pato Branco quando cheguei aqui. Ouviram-me por duas horas e ficaram atentos. Pediam como eram as casas na época, as ruas, o povo, e assim por diante. As crianças têm interesse na história, e é nossa obrigação não deixar isso morrer.”

 

“Na época quem morava no RS eram famílias numerosas, de dez, 15 filhos, e não tinham mais terra para trabalhar. A maioria dessas famílias veio ao Sudoeste para começar nova vida. Vinham dispostos a trabalhar, chegavam aqui, compravam um pedaço de terra e depois viam que não tinham título e não eram donos.”

Ivo Martini

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