Opinião

Inteligência artificial: uma introdução

A evolução pertence aos domínios dos fatos amplamente conhecidos. Pouco ou nada adianta negar um fato quando ele assim o é. Nada pode aniquilá-lo, nada pode destruí-lo; a história o confirma, o presente se apodera dele e o futuro é um caminho aberto, com amplas perspectivas, para o bem ou para o mal. Os seres humanos jamais deixaram de se lançar à conquista de novos e inusitados espaços; Homero, em sua Odisséia e na Ilíada ou mais recentemente Umberto Galimberti, retratam isso com maestria. Assim, a humanidade fez uso de “uma fonte constante e inesgotável de força, e a produzir uma variedade quase infinita de objetos com um mínimo de esforço pessoal ou dispêndio de tempo. Isso permitiu uma mudança extraordinária”.

Os poderes atribuídos às máquinas nunca foram tão grandes como o são hoje. A Primeira Revolução Industrial produziu vários efeitos: a ação humana na natureza aumentou, bastaram poucos anos para que uma parcela considerável da sociedade londrina vislumbrasse suas consequências: “unidades de produção, engrenagens crescentemente sofisticadas e complexas, dejetos em expansão, crescimento incontrolável das cidades, entronização da ciência, predomínio de todos os valores vinculados às ideias de lucro e consumo”. Toda essa mudança procurou suplantar o passado; a ajuda mútua e as tradições caíram no esquecimento.

Graças às fábricas construídas, as transformações no campo foram rápidas, vigorosas e ambivalentes. Não é exagero afirmar que a história da Inglaterra foi marcada pela derrubada de praticamente todas as suas florestas. Disso se conclui que o malefício causado pelas novas cidades foi grande às diferentes formas de vida existentes. Essa Primeira Revolução Industrial teve, como estandarte ético, mobilizar todos os meios existentes até então para “destruir costumes e comunidades, regras novas de empregos, impor meios e modos de trabalho, entronizar a produção e o consumo, controlar ou ignorar as forças da natureza”.

Quanto a Segunda Revolução Industrial, é muito difícil precisar, com exatidão, quando exatamente ela iniciou-se. Há quem afirme que seja o ano de 1945; outros, entretanto, assinalam o ano de 1949, quando os Estados Unidos criaram uma nova espécie de nova ordem mundial; ou até mesmo o ano de 1951, quando se verificou, pela primeira vez, uma transmissão transcontinental de TV. Ou, ainda, em 1970, quando ocorreu, pela primeira vez, a síntese dos genes, a qual tornou possível, ineditamente a fabricação de uma bactéria sintética e a consequente recombinação do DNA, em 1973.

Mas, nada mais marcante na segunda metade do século passado que a criação do computador. Desse instrumento derivou-se um sem-número de outras invenções que, de um modo ou outro, passaram a comandar e/ou regular a vida em geral. Uma tempestade intermitente que vem varrendo todas as esferas da sociedade nas últimas décadas. Tais fatos que ocorreram por força da inventividade humana de modo veloz, produzindo, por sua vez, efeitos profundos, hoje ninguém se espanta mais ao constatar que sua vida e a da natureza é praticamente inviável sem algum tipo de tecnologia, tamanha é a ação humana no meio ambiente.

Todas as Revoluções Industriais abriram novas fronteiras para inovação. Estas, entretanto, permeadas por novos riscos e dúvidas quanto a sua exequibilidade e se estariam ao alcance de todos. Assim, a Terceira Revolução Industrial foi direcionada ao campo energético e está intimamente ligada ao mundo da computação, da comunicação e internet. A técnica presente na Terceira Revolução Industrial não afetou um ser humano em particular, mas sim atingiu praticamente tudo onde ela entrou e, nesse trajeto, é praticamente impossível distinguir a já presente, mas pouco comentada Quarta Revolução Industrial.

Esta nova modalidade de Revolução 4.0 está andando a passos largos. Segundo “estimativas”, em um período relativamente curto, aproximadamente milhões de pessoas poderão perder seus postos de trabalhos para uma máquina “pensante”. São mudanças profundas que, de um modo ou outro, já fazem parte das discussões bioéticas e filosóficas. Dentre as mudanças destacam-se: aplicações na biologia sintética, novos produtos farmacêuticos, nanosensores injetados em seres humanos, veículos autônomos não tripulados, soldados robôs, dentre muitas outras. Os estudos em Inteligência Artificial têm prosseguido, sem que sejam questionados ou avaliados os seus possíveis impactos na vida em geral. Essas “novas” soluções prometidas, se não forem devidamente analisadas, poderão colocar em risco o futuro, tanto da vida humana quanto da extra-humana.


Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR; é mestre em Bioética pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é mestre e doutor em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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