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Fragilidade soturna

Artista paranaense mostra a delicadeza escondida nos detalhes da morte e do fracasso

Reprodução

O desenho é uma das linguagens de Carolina Panchoni

Independente da crença ou não crença, a morte é um assunto que inquieta e instiga. É difícil ficar impassível diante de velhas perguntas como “para onde vamos?”, se é que existe um destino para depois que a vida como a conhecemos acaba, ou o que acontece enquanto a consciência está se apagando. O mais inquietante é tentar entender o sentido da vida e da morte, questão que parece quase indissociável da razão acostumada a tentar enxergar linearidade em tudo.

É inconcebível imaginar algo que não comece e não termine, e mesmo assim, insistimos pelas religiões em acreditar em um recomeço ou continuação da vida. As grandes reflexões sobre esse assunto inspiraram e ainda inspiram o trabalho de vários artistas. Foi assim com a artista plástica paranaense Carolina Panchoni, que assina a exposição “Entre Pássaros e Fracassos”, uma composição de desenhos e instalações que ocupará a galeria do Sesc Pato Branco de junho a agosto.

Para ela, porém, pouco importam as questões existenciais da morte e da soturnidade do fracasso. É nos detalhes que estão os segredos, que podem até esconder algumas belezas.

“Procuro falar da morte, do fracasso, de coisas a meu ver fortes, doloridas através de imagens delicadas, frágeis e vice-versa. Acho importante estabelecer esses contrapontos. Costumo dizer que ‘Entre Pássaros e Fracassos’ é querer voar, mas ter a natureza de uma pedra.

Então dessa forma, a exposição pretende falar também sobre desejos impossibilitados, que no caso do pássaro, é o desejo de voo. Acho importante falar dessas coisas banalizadas no nosso tempo, tanto a morte quanto o ato de parar para observar o entorno, ter um tempo para olhar com cuidado as coisas tristes, sutis, delicadas e bonitas que encontramos.

As coisas dolorosas não são necessariamente feias”.O pássaro é um dos ícones visuais que Carolina usa para expressar essa ideia. A escolha veio de um filme, “As Horas”, sobre a escritora Virginia Woolf, e de uma coincidência.Em um dos diálogos do filme duas personagens, uma adulta e uma criança, divagam sobre o pré e o pós vida a partir do funeral de um pássaro morto.

A coincidência foi Carolina ter encontrado um filhote de pássaro morto poucos dias depois de ver o filme. “O diálogo das duas juntamente com as imagens do filme me comoveu. O questionamento da menina ainda criança sobre a morte, a observação dela sobre o animal, mesmo naquele estado, parecer sereno, sobre parecermos menores”, justifica a artista.

Estreia

“Entre Pássaros e Fracassos” é a primeira exposição individual da artista plástica e educadora que vive em Cambé, norte do Paraná. Ela diz que desde os tempos de estudante de arte seus trabalhos conversam com o tema da memória, elemento que para ela é o que sobra das coisas que tenham acontecido. “Entendo a memória como uma coisa que não está nem viva nem morta” diz ela. Daí é possível fazer a ligação com o luto.

Mas o minimalismo também serve para ilustrar outros sentimentos. Carolina também gosta de inserir o feminino em suas composições visuais. Na mostra que estará no Sesc isso está representado em uma estrutura feita com pequenas garrafas, cheias de água, onde estão mergulhados micro-vestidos costurados a mão. A inspiração veio de outro filme, “A Ostra e o Vento”, que conta a história de uma menina que vive presa em uma ilha.

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Instalação insere o elemento feminino na mostra

A água também é um elemento forte em algumas cenas de “As Horas”, fazendo assim uma ligação indireta entre os desenhos e as garrafas. Carolina conta que a ideia de fragilidade também é expressa no material escolhido para compor as obras, como por exemplo, o papel vegetal usado nos desenhos. “Se houvesse como mostrar o processo dos trabalhos isso (a fragilidade) seria ainda mais visível”, ilustra.

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