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Feijão no prato

Está na agenda: O terceiro sábado do mês é dia de comer feijoada no Lar dos Idosos. Combinado. Visitamos a cozinha e provamos o sabor do prato e da solidariedade de um dos eventos beneficentes mais tradicionais de Pato Branco

 

Wellynton Pizato

Voluntários preparam a feijoada do lar dos idosos

 

Ainda é de manhã cedo e o cheiro de fome já circula pelas ruas do bairro Pinheiros, em Pato Branco. Hoje é um sábado, dia de esticar o sono até mais tarde e o aroma de comida no fogo indica que alguém madrugou para cozinhar. Para ser exato, mais ou menos 30 pessoas.

Mensalmente esse grupo de cozinheiros e auxiliares - na maioria voluntários - se reúne para preparar um dos pratos mais apreciados da culinária brasileira, a feijoada. O motivo é uma causa nobre.

A comida será vendida, e toda a arrecadação ajudará a manter o Lar dos Idosos São Vicente de Paulo. A feijoada beneficente dos idosos acontece há cerca de 20 anos, e acabou se tornando um dos eventos gastronômicos mais tradicionais do município.

O terceiro sábado de cada mês, quando o prato é geralmente servido, já está circulado no calendário de muita gente. De acordo com Antonio Telmo Magdabosco, presidente da entidade, a feijoada corresponde a 20% da receita do Lar, que é completada com a renda de outros eventos e com doações.

Atualmente, o Lar dos Idosos garante moradia, alimentação e outros cuidados para cerca de 40 pessoas, que por algum motivo precisam da boa vontade de terceiros para viver dignamente sua velhice.

Para Telmo, a solidariedade é o combustível da equipe que começa a trabalhar dois dias antes cortando laranjas e batatas, que prepara o fogo as 4h30 e se dispõe a passar por outros sacrifícios. “Eu sou o chorão da turma, passo a manhã chorando sozinho”, brinca um rapaz que tem a função de picar uma pilha lacrimogênica de cebolas.

Mão na massa

É preciso muito ingrediente para atender a demanda dos 600 ingressos vendidos antecipadamente e das eventuais almoços e porções vendidos pouco antes da feijoada ser servida. “São 120 Kg de feijão; de 350 a 370 Kg de carne, 70 Kg de arroz, sem contar os legumes, farofa, vinagrete e outros acompanhamentos”, lista Telmo.

Tudo isso é organizado e preparado em uma linha de produção, onde cada um tem uma tarefa. A cozinha é dividida em duas alas: Uma para o preparo das carnes, do arroz e do feijão, e a outra é reservada para o corte e preparo dos legumes.

Valdira Guares e Angela Grando são as responsáveis pelas panelas de arroz. Elas começaram a trabalhar por volta das 5h30 e só deixarão a cozinha por volta das 14h, uma rotina que não as incomoda. “É bom demais participar disso aqui. É cansativo, mas eu descanso amanhã”, conta Angela.

Há 20 anos na cozinha da feijoada do Lar dos Idosos, Nathalia Matos já passou por vários setores. Naquele sábado estava cortando tomates.

Aos 76 anos com cara de 60, ela diz esbanjar disposição quando o assunto é ajudar o próximo, esta que é a principal missão da Comunidade Vicentina, grupo ligado à igreja católica do qual ela e boa parte dos envolvidos na feijoada fazem parte.

Receita

Telmo e Nathalia ajudaram a fundar o evento e contam que a receita foi pensada pelos organizadores. Mas a lembrança do motivo de terem escolhido o prato se perdeu.

É provável que tenha sido pela sua universalidade. No país onde o acarajé e o churrasco delimitam fronteiras, a feijoada é patrimônio nacional, agradando paladares de qualquer estado.

A versão do Lar dos Idosos vem com generosos nacos de carne e bacon e um tempero alinhado com seus 20 anos de existência. O combo é composto ainda de arroz, pãezinhos, vinagrete, farofa, couve e laranja.

Os anos de experiência também organizaram o trabalho de servir. Por volta das 11h30, a fila começa a aparecer do lado de fora de Lar dos Idosos. Do lado de dentro, uma equipe é preparada para repor a comida e servir as marmitas e vasilhas.

Há ainda um senhor que vende ingressos na hora, antes de se entrar na fila. Com todas as etapas delimitadas a espera na fila dura apenas poucos minutos.

Elvira

A falta de espaço suficiente faz com que a maioria das porções vendidas seja levada para casa. Telmo calcula que apenas 10% do público que compra o ingresso almoça no Lar dos Idosos, tendo assim uma oportunidade de também interagir com seus moradores.

Elvira Antunes de Oliveira é uma delas. Ela contribui com o evento limpando o refeitório. “Faço de tudo, só não gosto de cozinhar” confessa.

A senhorinha, cuja altura não passa do ombro dos meus 1,63 de altura, não sabe sua idade e estava com mais fome de conversa do que de feijoada.

Limitada a convivência com os voluntários e os colegas, Elvira demonstra que poderia passar horas degustando bate papo com um estranho.

Elvira viveu em um sítio no Rio Grande do Sul, onde fazia de tudo – menos cozinhar, reforça – e conta ter ficado sozinha com a morte gradativa da família.

Depois de morar em um abrigo, em Joinville, pediu para ser transferida para um lugar com mais pessoas, e desde então está em Pato Branco.

Quando me despedi, ela agradeceu pela conversa e pela compra de uma porção da feijoada. “Espero que esteja boa”. Estava.

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