Vanilla

Exploradores da América - Parte 2

Fotógrafos viajam de carro para registrar as belezas naturais do interior da Argentina

Vanderlei Godoy

Catedral de La Inmaculada Concepción, em La Plata

Certos destinos são tão paradisíacos que parecem estar em outro planeta, ou em algum lugar muito distante. Assim são algumas das paisagens argentinas, como a Península Valdés, um refúgio natural para várias espécies de animais, tão longe de Pato Branco quanto o Nordeste brasileiro. Mais perto do que parece, portanto.

São destinos como esse que motivam viajantes a explorar as estradas do país e de outras nações da América. Na última edição de Vanilla, contamos a história de uma dupla de motociclistas que viajou do Alasca a Pato Branco. Nesta segunda e última matéria da série Exploradores da América, dois fotógrafos amadores percorrem de carro o interior da Argentina para clicar as belezas do caminho.

“A Patagônia é um dos lugares mais belos da América do Sul, e eu gosto muito de fotografar a natureza”, diz Vanderlei Godoy, sobre a famosa região onde fica a península. Profissionalmente Godoy é publicitário, mas a fotografia é um passatempo antigo.

As belezas naturais de fácil acesso por rodovias o motivaram a planejar a viagem, além do fato de seu ídolo, Sebastião Salgado, já ter fotografado aquelas bandas.

Tudo começou em Chapecó, onde mora Marco Antonio Stello, também publicitário. De lá eles embarcaram em um utilitário equipado com barracas e sacos de dormir, uma precaução para os longos trechos onde há pouca civilização, além dos equipamentos exigidos pelas leis de trânsito argentinas, como um saco mortuário, ou lençol branco, para o caso de um acidente com vítima fatal.

Percorreram o Rio Grande do Sul até Uruguaiana, por onde entraram em território “hermano”. Logo em frente, perto de Nogoyá, província de Entre Rios, o pneu furou, e a dupla teve contato com a primeira peculiaridade cultural da viagem. Segundo Godoy, a região carece de estrutura, apesar das boas estradas. “É possível ficar um bom tempo sem encontrar um posto de combustível ou um posto policial”

Com um certo custo eles acharam uma borracharia, que parecia também ser uma casa agrícola. Mas era domingo. “O rapaz que estava lá ligou para o borracheiro, que andou quilômetros a pé para nos atender”, lembra Godoy. Uma dose extra de azar não deixou que o compressor de ar da borracharia funcionasse, e os aventureiros tiveram que seguir viagem com o pneu reserva, torcendo para que mais nenhum furasse.

Estrada

Até Rosário, na província de Santa Fé, a paisagem é quase um pântano. Com mais de 1 milhão de habitantes, a cidade é uma das grandes metrópoles argentinas, comparável a capital Buenos Aires, na opinião de Godoy. O patrimônio histórico e potencial  intelectual da cidade  é notável.
A área urbana desenvolvida contrasta com o interior mais pobre visto adiante, afetado na opinião dos viajantes, pelo clima seco.

Vanderlei Godoy

Moinho para extração de água, no caminho para Rosário

“É comum ver moinhos eólicos, que os agricultores usam para retirar água do solo de profundidades de até 100 m”, lembra Godoy.

O que não falta nas margens das rodovias do país são animais silvestres, que obrigam os motoristas a dobrar a atenção para evitar acidentes. Cordialidade dos nativos também é muito comum, exceto quando o assunto é futebol. Stello conta que, em Puerto Madryn, um vendedor de uma loja de pneus disse que não havia pneus na loja. A dupla acredita que a recusa veio porque Stello estava vestindo uma camiseta da seleção brasileira.

Culturalmente o povo dos pampas argentinos é muito parecido com o povo interiorano do sul do Brasil. “(Eles) comem muita carne, gostam do campo, têm o cavalo como parceiro e meio de transporte, e são muito naturalistas, extraindo da terra o essencial para a sobrevivência”, lista Stello.

“Nos hostels também se aprende muito, culturalmente”, completa Godoy. Consultando uma agência de viagens ele definiu os locais de pernoite, onde conheceram viajantes de vários países, como França, Estados Unidos e Uruguai. Em um hostel também provaram o Fernet, bebida alcoólica à base de ervas e raízes, que quando misturada com Coca-Cola se transforma em um dos drinks mais tradicionais da Argentina.

Valdés

Depois de Santa Rosa, a 1800 Km do ponto de partida, a paisagem e o clima começam a mudar. O frio e as montanhas aparecem, e também há muitos lagos. Godoy: “É lindo de se ver. Há aves enormes pousadas na beira da estrada e nas árvores”.

Marco Antonio Stello

Leões marinhos, na península Valdés

Assim foi até Puerto Madryn, o município mais próximo da Península Valdés, o principal destino da viagem. Valdés é uma área de proteção ambiental, declarada Patrimônio Natural da Humanidade, que serve de refúgio para espécies como lobos, aves marinhas, pinguins, orcas, golfinhos, e onde também vivem animais terrestres como os guanacos, uma espécie de lhama.

Mas as grandes estrelas são as baleias francas e as orcas, que migram para a região da península no período de acasalamento. A dupla teve sorte de avistar, em dezembro, uma família de orcas, vistas na região geralmente a partir de março. Também conheceram a ponta norte, onde ficam as focas, leões marinhos e outros animais. “Os pinguins caminham praticamente do teu lado”, conta Godoy.

Bariloche

Conhecer a península exigiu um dia inteiro de viagem. Os aventureiros seguiriam ainda mais ao sul, até Punta Tombo, antes de voltar e percorrer o caminho até Esquel, região de montanhas rochosas de picos nevados.

Para Stello, a região de Bariloche foi o apogeu da aventura. “Foram as paisagens mais lindas da viagem, com lagos e muitas montanhas”. Godoy continua: “a visão do Cerro Campanário é espetacular. Você caminha mais de uma hora e meia, até chegar a um local com uma vista fantástica, que traz uma tremenda paz de espírito”.

Vanderlei Godoy

vista do Cerro Campanário, região de Bariloche

A volta pra casa aconteceu por uma rota litorânea, passando por Bahia Blanca e Mar del Plata. Em seguida, os fotógrafos pegaram o rumo do norte, passando por La Plata, Buenos Aires e Concordia, de onde partiram até Uruguaiana e mais além, Chapecó.

Foram 15 dias de viagem, entre dezembro de 2014 e janeiro de 2015. Segundos eles, viajar de carro tem suas desvantagens, como o cansaço e o risco de problemas mecânicos com o veículo. Porém, as vantagens compensam. Tanto Godoy quanto Stello concordam que o caminho pode ser tão bonito quanto o destino. Nesse caso, era.

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