Vanilla

Exploradores da América - Parte 1

Dupla de aventureiros de Pato Branco embarca em uma jornada audaciosa: viajar de moto do Alasca ao Paraná, conhecendo as paisagens, climas e culturas do caminho

Acervo pessoal

Alasca

O continente americano é a maior extensão de terra no sentido norte e sul do planeta. Nele vivem mais de 950 milhões de pessoas em uma rica miscelânea cultural, linguística, política e econômica. Nas Américas também é possível sentir na pele todos os climas possíveis e ver de desertos a cordilheiras nevadas.

Um grande território explorado por aventureiros de várias partes do mundo, inclusive de Pato Branco. Dois deles são os empresários Márcio Zanella e Luiz Bianchi, que viajaram de moto do Alasca ao Paraná. Inspirada por essa aventura, Vanilla inicia uma série especial de duas matérias sobre grandes viagens pela América.

A primeira delas conta a história do trajeto entre o extremo norte do continente e Pato Branco. Na segunda, mostraremos uma viagem que começou no Sudoeste e foi até a Península Valdez, na Argentina.

Zanella planejava uma viagem pelas Américas desde 2007. Foi a paixão pelas motocicletas e a curiosidade de conhecer a cultura underground do continente que o fez colocar o projeto em prática. Bianchi é outro aficionado por motos, que topou embarcar na aventura.

Tal empreitada exigiu planejamento, mas o improviso também foi fundamental. “Tivemos ótimas surpresas que vieram de sugestões no meio do caminho. O Parque de Jasper, no Canadá, por exemplo, não estava na rota original” lembra Bianchi. A dupla chegou ao consenso de que não seria viável deixar os negócios e a família para fazer todo o trajeto de uma vez só. Dividiram o caminho em até três etapas, determinaram um trajeto e partiram para a primeira leva. Isso foi em 2011.

Norte

Prudhoe Bay fica acima do círculo polar ártico, onde no verão o sol praticamente não se põe e no inverno praticamente não aparece. “Quando estivemos lá pegamos dias com três horas de penumbra, não chegava a anoitecer”, lembra Zanella. Foi de lá que a expedição partiu, percorrendo estradas lisas de gelo margeadas por campos de neve, apesar do verão local.

O Alasca é um dos 50 estados dos Estados Unidos, mas já foi território da Rússia. Segundo Zanella, a cultura russa ainda aparece em nomes de cidades, linhas de ônibus, escolas e nos costumes de alguns descendentes. A população nativa esquimó também é muito presente.

Mesmo relativamente isolado e com clima rigoroso, a região é muito desenvolvida economicamente. Em boa parte do trecho, a estrada acompanhava o traçado de um grande oleoduto, que transporta em média 1 milhão de barris de petróleo por dia.A dupla panejava o trajeto e os recursos dos próximos dois dias de estrada.

Acervo pessoal

Seattle, Estados Unidos

Imprevisível eram as paradas para conhecer pontos turísticos, admirar a paisagem, as surpresas da natureza, a culinária e as curiosidades locais. Ainda no norte viram um urso perto da pista e abasteceram as motos em bombas de combustível self service. Pagaram com cartão, no meio da paisagem boreal. Cruzaram a costa oeste do Canadá, região famosa pelas belas paisagens montanhosas e parques naturais, como o de Jasper. Segundo cálculos próprios, os aventureiros passavam em média 11 horas na estrada. Algumas das maiores pausas aconteceram em cidades importantes como Vancouver e Seattle.

Seguiram pela costa oeste americana, onde encontraram, próximo a Portland, um museu sobre aviação onde está o H4 Hércules, o hidroavião gigante de Howard Hughes, popularizado pelo filme “O Aviador”. A pacific 1, São Francisco e o Vale do Silício também estiveram no roteiro. Em San Luis Obispo, a dupla fez a curva, saiu da região costeira dos Estados Unidos e seguiu em direção ao vale do morte, uma região desértica que fica a mais de 70 metros abaixo do nível do mar.  “O vento era quente como o de um secador de cabelo. Era impossível deixar a viseira aberta”, conta Zanella.

Acervo pessoal

Costa da Califórnia

À frente, Las Vegas, o Grand Canyon e a represa Hoover, tradicionais cartões postais do país. Na rota 66 viram cidades históricas, com hotéis cujos quartos imitam cabanas indígenas. Chegaram a El Paso, Texas, onde do hotel puderam ver o muro que demarca a fronteira com o México. Do outro lado, Juárez, a cidade mais violenta do mundo.De lá foram a Atlanta, onde deixaram as motos e voltaram para o Brasil, encerrando a primeira etapa da viagem.

Centro

Três anos depois, em setembro de 2014, Zanella e Bianchi decidiram retomar a aventura. Tiraram as motos da garagem, em Atlanta, e partiram rumo ao trecho latino da viagem. Entraram no México por Nova Laredo, onde puderam perceber os efeitos da guerra ao narcotráfico deflagrada no país. “Havia muita polícia, exército, todos fortemente armados”, conta Bianchi.

No trecho conheceram um motociclista mexicano, que sugeriu caminhos com belas vistas e ofereceu pouso na Cidade do México. Acabaram conhecendo mais motociclistas na capital, inclusive um arquiteto, fã das motos BMW, que criou um clube em homenagem à marca.

Frutas estranhas e comida esquisita eram um chamariz para os aventureiros, que no México e na América Central provaram pêssegos gigantes, uma salada de frutos do mar, temperada com limão e cebola, fruta de cacto e descobriram que fora do Brasil abacate se come com sal.O comércio de rua, segundo eles, é muito forte em toda a América Latina.

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Zanella, no Grand Canyon

Supermercados são raros, e em várias ocasiões os aventureiros compraram queijo de um ambulante e completavam a refeição com o pão do vendedor vizinho. Burocracia e transporte público improvisado também são comuns. Bianchi e Zanella lembram da papelada necessária para cruzar as fronteiras entre os países centro americanos, das camionetes com mais de 10 pessoas na caçamba, tuc tucs e ônibus carregados de gente e produtos agrícolas.“Na Guatemala, vimos muita variedade de milho, de várias espécies, que são usadas pra fazer muita coisa, como biscoitos e quejadillas”, diz Bianchi.

A dupla passou também por El Salvador, Honduras, que vive tempos de insegurança pública em algumas grandes cidades; Nicarágua, onde há muitos animais soltos nas margens das estradas; Costa Rica e Panamá.

Em aspecto de desenvolvimento, Bianchi compara a capital panamenha a Dubai. Por lá há muitos arranha-céus e edificações que ilustram o poder econômico da cidade, abastecido pela movimentação do canal do Panamá. De lá até a Colômbia a viagem foi feita de avião. Por terra, a rota passa por uma área controlada pela guerrilha colombiana.

Sul

Bogotá foi o ponto de partida para a etapa final da viagem, cidade com muitas docerias e gente culta, segundo os viajantes. Rumo ao sul, as paisagens se transformam em penhascos que adaptaram a vida e a agricultura local. Planta-se em áreas quase íngremes, cercadas por pedras, onde é impossível utilizar máquinas. Zanella: “É tudo no braço. Vimos senhoras carregando cargas de lenha, pastoreando. Maquinário agrícola só apareceu a partir da Bolívia”.

No Equador viram o Chimborazo, o vulcão mais alto do mundo, e o Peru estava em obras, sobretudo de rodovias sendo duplicadas. Sobrevoaram as linhas de Nazca, os desenhos gigantes que só podem ser vistos do alto, e conheceram a arquitetura Inca em Cusco, com muros feitos de enormes tijolos de pedra, lapidadas milhares de anos atrás com muita precisão.

A principal parada na Bolívia foi no salar de Uyuni, a maior planície de sal do mundo, com mais de 10.000 quilômetros quadrados e cerca de 20 metros de profundidade. Um mar que secou e deixou sua herança, com ilhas de terra no meio do sal, que serviu de material de construção para uma igreja.Da Bolívia, a dupla seguiu para o norte da Argentina, foi a Bernardo de Irigoyen entrando no Brasil por Barracão, há pouco mais de 100 quilômetros de casa.

Memória

Viajar de moto é uma experiência introspectiva, analisa Zanella. São vários e vários quilômetros de paisagens acompanhadas do ronco da moto e de pensamentos. “De moto, você contempla mais, sente mais as diferentes temperaturas, os diferentes ambientes”. Para Bianchi, a riqueza do passeio em duas rodas são as experiências fora do eixo turístico, poder conhecer a realidade e as pessoas dos interiores.

Acervo pessoal

Bianchi e Zanella. De moto, do Alasca ao Paraná

A expedição terminou no início de novembro de 2014. Foram 70 dias e 28 mil quilômetros percorridos nas duas etapas somadas da viagem, sem problemas mecânicos sérios, acidentes, problemas de saúde ou com autoridades. “Fomos muito bem recebidos em todos os lugares”, resume Bianchi.

É claro que a dupla tomou suas precauções, como procurar locais seguros de pouso, evitando dirigir à noite. Eles também pintaram nas motos logotipos de famosos canais de televisão, um blefe para afastar perigos dando a impressão de que havia alguém os acompanhando.Por pernoitarem em hotéis, roupa limpa não era problema.Estradas ruins também não. Segundo eles, mesmo nos confins da América Latina as rodovias estão em boas condições, muitas vezes duplicadas e com acostamento na maioria do caminho.

No bagageiro havia material de primeiros socorros, ferramentas básicas, fita adesiva, arame, compressor de pneu, saco de carregar combustível, lanterna. Quanto mais perto do Brasil, mais souvenires aumentavam o peso da moto, e mais histórias eram colecionadas, mas essas não ocupam espaço.

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