Saúde

Expedicionários da Saúde levam centro cirúrgico até aldeia

O oftalmologista Guilherme Pires passou sete dias operando indígenas no Maranhão, e nos relata como foi a experiência
O oftalmologista Guilherme Pires operando com a ajuda de auxiliar (Foto: Arquivo pessoal)

Estamos habituados a ver, na TV, propagandas bastante emotivas sobre ONGs médicas, como Médicos Sem Fronteira e Amigos do Bem, mas todo aquele universo de carência parece estar bem distante de nós.

No entanto, aqui, pertinho da gente – ok, nem tão perto, porque o Brasil é um país de dimensões continentais --, a organização não governamental (ONG) brasileira Expedicionários da Saúde reúne uma equipe de voluntários e a leva, junto com um centro cirúrgico móvel, até as aldeias indígenas mais precárias, oferecendo tratamento aos moradores que nunca tiveram acesso a médicos ou a saúde.

Sem fins lucrativos, ela foi fundada em 2003 por um grupo de médicos da cidade de Campinas (SP), com a missão de levar atendimento médico especializado, principalmente cirúrgico, às populações geograficamente isoladas da região Norte, em sua maioria, como já dissemos, indígenas.

No mês de setembro, a ONG fez a sua 41ª expedição, de 7 a 15 de setembro. O local da ação foi entre as tribos do Maranhão, e os números impressionam: 34 mil atendimentos a indígenas de diversas etnias, 304 olhos que voltaram a enxergar, 242 cirurgias de hérneas e outras necessidades cirúrgicas operadas, 4.857 pessoas diagnosticadas e medicadas pelas especialidades ofertadas, 11.776 exames e procedimentos realizados e 418 óculos doados.

A equipe dessa expedição contou com, entre médicos de diversas especialidades, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos e outros profissionais da saúde, cerca de 200 voluntários. Entre eles o médico oftalmologista de Pato Branco Guilherme Pires, que foi convidado por amigos que fez na época de sua residência, em São Paulo.

“Fiquei muito em dúvida se ia ou não porque meu filho acabou de completar quatro meses, e eu ficaria ausente por uma semana, longe da minha família, tomando banho frio, dormindo longe de casa. É um empenho, mas no final vale a pena, a sensação é muito boa”, confirma.

O médico conta que a ONG recebe apoio do Exército do Brasil para montar todo o acampamento e concentração, e ajuda Federal, principalmente na logística, como transporte aéreo para as tribos mais afastadas.

“Fiquei sete dias na Aldeia São José, do povo Krikati, que fica a mais ou menos 100 quilômetros da cidade de Imperatriz, no Maranhão”, diz.

O Centro Cirúrgico é uma estrutura móvel de lona, separada em diversas salas, todas com ar-condicionado. São divididas em triagens, salas de cirurgia, pós-operatórios e tem até uma sala de conforto médico.

Toda a equipe dorme em acampamentos e precisa levar sua própria barraca. Os indígenas levados até a concentração dormem em redes.

Essa é uma estrutura bastante parecida com a do Médico sem Fronteiras ou de atendimentos em zonas de guerra.

Guilherme achou a base muito bem montada, com equipamentos de última geração, tanto para os médicos poderem trabalhar quanto os oferecidos aos pacientes. “Contei com os mesmos equipamentos que uso para atender aqui, então me senti em casa. É tudo de primeira linha”.

Experiência

Essa foi a primeira expedição de Guilherme, e ele, que nunca havia dormido em barraca, disse ser uma bagagem fantástica. “Tanto como experiência de vida quanto do voluntariado. A gente realmente atende pessoas que têm muita necessidade”, afirma.

Durante os sete dias de atendimento, o médico relembra que algumas tribos os indígenas nem ao menos falavam português. “A maior parte do tempo havia um intérprete nos acompanhando. Era ele quem dava orientações básicas, como olhar para a luz para realizar os exames”, diz.

Guilherme observou que o indígena é muito reservado, e quase nunca reclama de um problema. “Vemos muitos deles andando de bengala e dizendo que está tudo bem, que estão enxergando, quando na verdade apresentam catarata hiper madura, coisa que é difícil ver por aqui”.

Logística

O médico falou que a equipe de oftalmologia contava com seis profissionais. Dois deles passavam o dia fazendo cirurgias, três fazendo o primeiro atendimento na concentração e um deles ia até as aldeias para fazer a triagem. “O médico que estava na tribo fazia em torno de 150 atendimentos por dia”. Os indígenas que necessitavam de cirurgias eram levados por ônibus até o Centro Cirúrgico.

Em sete dias, foram realizadas mais de 300 cirurgias de catarata e mais de 1.100 consultas. Ele mesmo fazia cerca de 15 cirurgias por dia. “Acordávamos às 6h, tomávamos café e começávamos o atendimento até umas 18h, com uma hora de almoço. A noite, estávamos todos cansados, dormíamos cedo. Foi bem cansativo. Eu sou de dormir mais tarde, mas umas 21h30 já estava dormindo”.

Catarata

Guilherme explica que o índice de índios com catarata nas tribos é muito grande, porque esse é um problema causado pela idade. “O tipo de catarata mais comum é a senil. A partir dos 60 anos todo mundo tem um grau. A chance de você examinar um indígena depois dessa idade e ele apresentar o problema é bem grande. Mas como eles não vão em atendimento, quando chegam até um médico, o problema já está avançando. Eles vivem bastante, até os 90 anos. Tive paciente de 106 anos”, comenta.

Isso não acontece em locais com atendimento em saúde porque, quem tem acesso a médicos, descobre o problema no início, e logo já faz a cirurgia corretiva. Lá isso não acontece. “Como eles não têm atendimento e não falam muito, ela vai evoluindo, evoluindo até chegar à fase final, quando eles estão bem cegos, enxergando somente vultos. Por isso eles têm um benefício bem grande quando são operados: já saem enxergando”.

O médico disse que também se deparou com muita catarata traumática. “Como eles trabalham muito no campo, sempre tem acidentes”, explica.

 

Novas expedições

Por reconhecer a validade da experiência, Guilherme diz que pretende voltar outras vezes. “Se houver uma fase da minha vida que consiga ir novamente, por que não? Foi uma experiência bem legal. Nós médicos precisamos ter um pouco disso, de ajudar a quem precisa. Apesar de ajudar por aqui também, acho que lá o pessoal é mais carente, não há médicos na região das tribos. Por isso dá mais gosto ainda em ajudar”, finaliza.

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