Entrevista

Ex-ministro visita Pato Branco e fala sobre a saúde no Brasil

Borges da Silveira morou por 14 anos em Pato Branco (Foto: Paloma Stedile)

Natural do município de Lapa/PR, em 21 de abril de 1940, o médico Luiz Carlos Borges da Silveira morou por 14 anos em Pato Branco, entre os anos de 1965 e 1979.

Durante este período, foi médico-chefe do 7º Distrito Sanitário da Secretaria de Saúde do Paraná, região Sudoeste; sócio e diretor-presidente da Policlínica Pato Branco, em 1973; e assumiu o cargo de vice-prefeito, em 1976, na gestão com o prefeito Roberto Zamberlan.

Dois anos depois, Borges da Silveira foi eleito deputado federal, cargo que ocupou por três mandatos. Entre 1987 e 1989, por sua vez, foi Ministro da Saúde.

No último fim de semana, o ex-ministro esteve em Pato Branco e visitou inclusive o Diário do Sudoeste. Em entrevista, ele comentou sobre a saúde no Brasil e relembrou algumas das medidas que tomou durante o período que ficou responsável pelo ministério.

Diário do Sudoeste – Doutor, qual é a sua visão sobre o SUS (Sistema Único de Saúde)? Ele é essencial para o Brasil e o que precisa ser melhorado?

Borges da Silveira – Antes de ser ministro, na câmara dos deputados, fui presidente do Simpósio Nacional de Saúde, que foi o início do debate da municipalização da Saúde; e que depois se transformou no SUS.

O SUS, no meu entendimento, é o maior programa público de Saúde do mundo. Sem dúvida nenhuma, ele realiza um trabalho fantástico. Tem deficiências? Tem. Mas é o melhor serviço público de saúde que existe no mundo, com todas as deficiências. Existem coisas que precisam ser adaptadas, mas acho que o SUS trouxe ao Brasil uma nova visão. Eu, que fui médico aqui no tempo que não tinha SUS, sei a dificuldade das famílias, quando tinham que pagar alguma coisa no hospital.

Atualmente, existem algumas exigências da justiça, que é um tema que precisa ser debatido. Hoje, por exemplo, os medicamentos são caríssimos. Também não há a exigência do médico da família, o que acredito que precisaria voltar, ter aquele contato com o médico clínico-geral. Isso porque, ele tem condições de resolver 60% a 70% dos casos sem exames.

Além disso, atualmente se pede exame para tudo, inclusive em casos de gravidez, que não é doença. Você poderia ter uma ecografia no começo da gravidez e outra no fim. Hoje se faz ecografia a cada 15 dias. Isso tudo está encarecendo muito o SUS. Mas, apesar disso, o SUS sem dúvida nenhuma foi e é um sucesso.

Quais pontos poderiam ser melhorados?

A prevenção da saúde. Quando eu fui ministro, por exemplo, tomei algumas decisões que marcaram, como o Zé Gotinha. Aquilo representou um ícone na vacinação e a mudou no Brasil.

Também àquela frase “O Ministério da Saúde adverte...”, contra o fumo, foi minha. Naquele tempo, os fumantes eram a maioria. Hoje, por sua vez, depois de 30 anos, se comparado àquela época, houve uma diminuição em 43% do número de fumantes.

Outro ponto foi a rede de hemocentros, que nós criamos, com o intuito exatamente de prevenção. Porque naquele tempo, 10% das doenças eram causadas por transfusão de sangue. Não se examinava o doador, se ele tinha alguma doença. Principalmente na época que surgiu a Aids. Então aquilo lá me apavorou, e criamos os hemocentros.

Por isso, acho que precisa ter, cada vez mais, a prevenção à saúde. Ao lado disso, acho que o poder público não tem condições de construir e manter hospitais. O melhor seria acertar com convênios, tanto na iniciativa privada, como os filantrópicos, dando assistência a eles.

Mas com a tabela que está hoje, esses hospitais estão deixando de atender, porque eles não suportam. Porque, se for ver a tabela do SUS hoje, não há condições de manutenção de um hospital. E, com isso, estamos perdendo leitos, piorando a gestão, o atendimento à população. Então é preciso que haja uma revisão, inclusive, dessa tabela. Para que possa ser melhor atendida a população.

Como o senhor avalia a gestão do atual governo em relação à saúde pública, que tem sido bastante criticada?

Veja bem. Quando fui ministro, a gestão da saúde pública era feita pelo Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social), responsável pela assistência médico-hospitalar. Depois, passou tudo para o Ministério da Saúde.

O Brasil é um país que está ainda em crescimento, sendo difícil para o governo conseguir atender a todas as necessidades. Seja com estradas, escolas e hospitais em todas as regiões. Isso porque surge uma cidade por dia em Mato Grosso, em Rondônia.

E isso é diferente de um país que está solidificado, que as pessoas moram no mesmo lugar, que já tem tudo estruturado. Então o Brasil está ainda nessa evolução e isso dificulta em qualquer setor. E na saúde, as críticas vem há muito tempo; e não é só no Brasil.

Se você observar os Estados Unidos, está uma briga pela saúde. Na França e na Inglaterra, o mesmo problema. Porque é muito difícil. Hoje está muito cara a saúde.

Aquilo que falei antes, você tem que voltar a ter um pouco mais de assistência do médico diretamente. Porque a confiança no médico já resolve muito. Hoje o que nós vemos? Muitas especialidades, e que você fica passando de consultório para consultório. E cada um pede um tipo de exame. Isso vai encarecendo muito e fica muito difícil.

Então tem que haver outra condição, para que exista mais o contato direto médico/paciente. Isso vai conseguir deixar mais barato o atendimento de saúde e, consequentemente, o recurso vai conseguir suprir as necessidades.

Como o senhor enxerga as declarações do ministro da saúde, que sugeriu que planos de saúde mais baratos poderiam ser uma alternativa ao SUS?

Acho que poderia até ser. Porém, tenho receio de um plano desses no Brasil, porque o brasileiro gosta muito do ‘jeitinho’ e boicotaria esse plano. Teve tantos programas bons no Brasil, que foram bem intencionados, mas foram boicotados. Então esse poderia ser um também, pois poderia beneficiar os prestadores de serviço, que daí poderiam utilizar melhor, saber como usar o que precisava e tal.

Então eu acho que deve ter uma regra estabelecida. Talvez seja preferível você ter uma participação do contribuinte. Por exemplo: uma consulta a R$ 1. Um valor simbólico, mas que valoriza o atendimento. Isso porque há casos em que o trabalhador vai consultar às vezes sem necessidade. Até para não trabalhar aquele dia.

Então o meu receio de um projeto como esse é que seja depois transformado em negócios por aí. Por esse motivo, não sou favorável.

Alguns países de primeiro mundo, que têm sistemas públicos de saúde, possuem modelos mais eficientes, como é o caso da Inglaterra e da Austrália. O que falta para o SUS chegar a um patamar de primeiro mundo? E qual o papel dos médicos nesse processo?

Na Inglaterra tem o sistema de distritos. É por região e o médico atende lá. Quando ministro, fui à Cuba a convite do próprio governo, e naquela época eu achei o melhor que tinha. Havia o médico de família, sendo que a cada 600 pessoas tinha um médico que morava naquele local, em um sobrado, sendo que ele morava em cima e embaixo era o consultório. E ele fazia visitas. Com isso, diminuía muito o internamento nos hospitais, porque havia atendimento em casa. É um sistema bom.

Além disso, na Inglaterra o sistema há um médico regional. Funciona bem, porque daí o paciente conhece o médico. A família sabe quem é o médico.

É diferente de você consultar um dia com um médico; na reconsulta ele não pode atender e você consulta com outro; e começa tudo de novo. Isso tudo prejudica o atendimento, a qualidade do atendimento.

A saúde pública não deveria ser priorizada a partir dos cursos de medicina, com mais foco à saúde pública e estágios no SUS?

Defendo isso. Acho que isso faz com que o médico seja mais humano. Ele está ficando muito mais máquina, depende só dos exames. A maioria já não examina mais o paciente, o que vale são todos os exames.

Então essa foi uma das causas que aumentou muito o custo da medicina. Isso vai para o currículo. Hoje o que nós vemos? O estudante de medicina, a partir do segundo ano, já se encaminha para uma especialidade. Ele não fica tendo a formação geral do médico, inclusive o tratamento até psicológico. Porque toda doença, 50% é psicológica.

Então isso precisa ter do médico, e não está tendo. Então eu acho que uma das coisas básicas é a reformulação do currículo do curso de Medicina.

Como o senhor vê o programa Mais Médicos? Existe, de fato, uma resistência da área médica à democratização da medicina?

Na verdade, eu acho que houve um erro das entidades médicas, quando foi criado o programa. Foi um grande programa, importantíssimo. Porém, houve um boicote da Associação Médica, do Sindicato dos Médicos, para não comparecer brasileiros. Daí vieram os cubanos.

Agora, os últimos só tem brasileiros. Porque eles viram que o programa continua, que existe e que pagam bem. Então isso foi um erro lá no início. Não adianta reclamar depois, porque boicotaram lá, por ter cubano aqui. Mas é que os brasileiros não quiseram ir. Agora, sou favorável a esse modelo, porque é melhor você ter um médico, do que não ter nenhum. Então esse médico atende lá e a formação desses cubanos, é uma formação de clínico geral. Então no município que não tem médico, sou favorável.

Então essa é uma maneira do governo federal ajudar a levar assistência nos municípios do Brasil. Dos 6.000 municípios brasileiros, creio que pelo menos 5.000 tem menos de 20 mil habitantes. São municípios pequenos, que não têm estrutura. Então eles precisam ter esse atendimento da saúde, por isso o Mais Médicos está preenchendo exatamente isso.

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