Saúde

Envelhecimento ativo

Há alguns anos, a Organização Mundial da Saúde utiliza o termo “envelhecimento ativo” para incentivar oportunidades de saúde, participação social e segurança aos idosos. Com a longevidade cada vez mais alta, é importante cuidar dos mais velhos, assim como adotar atitudes para que chegar à terceira idade com qualidade de vida.
["Lurdes Kalinke em seu anivers\u00e1rio de 70 anos"]

Nos dias atuais, se alguém morre aos 54 anos, lamentamos uma morte precoce. Mas essa era a expectativa média de vida do brasileiro nos anos de 1960.  Passados quase 60 anos, a longevidade em nosso país ganhou 22 anos, e, em 2018, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), chegou a 76 anos, a maior da história.

Atualmente , a população mais de 60 anos representa 13,44% dos 208,4 milhões de habitantes, mas, até 2060, com a desaceleração do crescimento demográfico e aumento da expectativa de vida, ela deverá dobrar, chegando a 32,1% do total de brasileiros.

Conforme a Organização Mundial da Saúde, se quisermos que o envelhecimento seja uma experiência positiva, deveremos adotar o termo “envelhecimento ativo”, que é o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas.

 

Envelhecimento ativo

 

Conforme o livro “Envelhecimento ativo: uma política de saúde”, publicado pela OMS, a palavra “ativo” refere-se à participação contínua nas questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis, e não somente à capacidade de estar fisicamente ativo ou de fazer parte da força de trabalho. As pessoas mais velhas que se aposentam e aquelas que apresentam alguma doença ou vivem com alguma necessidade especial podem continuar a contribuir ativamente para seus familiares, companheiros, comunidades e países. O objetivo do envelhecimento ativo é aumentar a expectativa de uma vida saudável e a qualidade de vida para todas as pessoas que estão envelhecendo, inclusive as que são frágeis, fisicamente incapacitadas e que requerem cuidados.

O termo “saúde” refere-se ao bem-estar físico, mental e social. Por isso, em um projeto de envelhecimento ativo, as políticas e programas que promovem saúde mental e relações sociais são tão importantes quanto aquelas que melhoram as condições físicas de saúde.

Manter a autonomia e independência durante o processo de envelhecimento é uma meta fundamental. Conforme a médica geriatra, Giana Daclê Telles, autonomia é a habilidade de controlar, lidar e tomar decisões pessoais sobre como se deve viver diariamente, de acordo com suas próprias regras e preferências, quanto independência é a capacidade de viver independentemente na comunidade com alguma ou nenhuma ajuda de outros.

Autonomia e independência não faltam à Lurdes Kalinke, de 71 anos, que é viúva a 20, tem três filhas e até bisneto. Mesmo com o corpo não respondendo mais com a mesma agilidade, conforme ela mesmo define, sua cabeça ainda pensa igual a quando tinha 40 anos.

“Sempre me identifico e dou risada quando lembro uma frase do Ronaldo Fenômeno sobre quando se aposentou. Ele disse que, quando via a bola, achava que ia alcança-la, mas ela estava sempre correndo na frente. É bem isso que acontece quando ficamos mais velhos: a cabeça funciona do mesmo jeito, mas o corpo demora mais a responder. A gente acha que vai conseguir, mas as vezes não consegue”, diverte-se.

Ainda que com mais lentidão, Lurdes não para. Ela faz parte da segunda turma da Unati (Universidade Aberta à Terceira Idade), de onde “nunca voltei para casa sem aprender alguma coisa”. Além das aulas e palestras, ela diz ter feito muitas amizades.

Aliás, seu circulo de amigos é bem grande, a começar pelos companheiros das aulas de alongamento, que faz duas vezes por semana, uma vez no CAS da Unimed, outra no Largo da Liberdade. “São mais de 200 pessoas. Nós damos 10 voltas na pista e depois nos alongamos”, conta.

Outra atividade que adora são os jogos de canastra, quando se reúne duas noites na semana, cada uma com um grupo de amigos diferente, para a jogatina. Um desses grupos já se reúne há 17 anos.

Lurdes também faz cucas, e sempre participa da Feira da Cuca. “Agora dei uma parada por causa de um problema no braço”, conta.

 

Autonomia e independência

Assim como aconteceu com Lurdes, o envelhecimento ocorre dentro de um contexto que envolve outras pessoas – amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros da família. Esta é a razão pela qual interdependência e solidariedade entre gerações são princípios relevantes para o envelhecimento ativo.

Giana lembra que a criança de ontem é o adulto de hoje e o avô ou avó de amanhã e, por isso, a qualidade de vida que as pessoas terão quando avós depende não só dos riscos e oportunidades que experimentarem durante a vida, mas também da maneira como as gerações posteriores irão oferecer ajuda e apoio mútuos, quando necessário.

Conforme trecho do livro já citado, qualidade de vida é “a percepção que o indivíduo tem de sua posição na vida dentro do contexto de sua cultura e do sistema de valores de onde vive, e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. É um conceito muito amplo que incorpora de uma maneira complexa a saúde física de uma pessoa, seu estado psicológico, seu nível de dependência, suas relações sociais, suas crenças e sua relação com características proeminentes no ambiente”. Ou seja, à medida que um indivíduo envelhece, sua qualidade de vida é fortemente determinada por sua habilidade de manter autonomia e independência.

Expectativa de vida saudável é uma expressão geralmente usada como sinônimo de “expectativa de vida sem incapacidades físicas”. Por isso o  termo “envelhecimento ativo” foi adotado pela Organização Mundial da Saúde no final dos anos 90, para transmitir uma mensagem mais abrangente do que “envelhecimento saudável”, e reconhecer, além dos cuidados com a saúde, outros fatores que afetam o modo como os indivíduos e as populações envelhecem.

O livro diz ainda que a abordagem do envelhecimento ativo baseia-se no reconhecimento dos direitos humanos das pessoas mais velhas e nos princípios de independência, participação, dignidade, assistência e auto-realização estabelecidos pela Organização das Nações Unidas. Assim, o planejamento estratégico deixa de ter um enfoque baseado nas necessidades (que considera as pessoas mais velhas como alvos passivos) e passa ter uma abordagem baseada em direitos, o que permite o reconhecimento dos direitos dos mais velhos à igualdade de oportunidades e tratamento em todos os aspectos da vida à medida que envelhecem.

 

 

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