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Ensina-me a Viver: Duas gerações e a descoberta da alegria de viver

Nada como o tempo para recolocar certas obras em perspectiva. Quando estreou nos cinemas, em 1971 - há quase 50 anos -, Ensina-me a Viver (Harold and Maude, no original) foi tratado a pontapés pela maioria da crítica, que não apenas não entendeu como ridicularizou o ponto de vista do diretor Hal Ashby. Imaginem: um garoto de 20 anos, com tendências suicidas, descobrindo a alegria de viver - e até os prazeres do sexo - com uma idosa de 79 anos.

O que Ashby estava querendo dizer? Afinal, os anos 1960 haviam visto triunfar a juventude contestadora, até o célebre Maio de 68. Os jovens fizeram a revolução de Woodstock, celebraram o sonho hippie de paz e amor. E aí veio o ex-montador de Norman Jewison - recebeu o Oscar da categoria por No Calor da Noite - com seu jovem tão de mal com a vida, e sem perspectivas futuras, que o filme se inicia com ele tentando diversas formas de suicídio.

Tentando tornar esse personagem verossímil para o público, Ashby selecionou um ator esquisitão, Bud Cort, aquele que quis voar com os pássaros num dos primeiros filmes de Robert Altman, Brewster McCloud. Face a esse jovem tão 'velho', colocou uma velhinhas sacudida, a grande Ruth Gordon, que recebeu o Oscar de coadjuvante por O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, em 1969, e isso depois de uma carreira como roteirista, com o marido Garson Kanin, em que ambos escreveram comédias sob medida para celebrar o protofeminismo de Katharine Hepburn nos anos 1940.

Hoje ficou incorreto dizer que o humor do filme é 'negro', mas a questão que fica no ar: a gente ri/ria de quê?

De forma até um tanto premonitória, o roteiro assinado por Colin Higgins, que passou à direção e morreu precocemente de aids, em 1988, antecipa os tempos sombrios que se abateriam nos 1970 sobre a América. A Guerra do Vietnã se intensificava, logo viria o escândalo de Watergate. O público percebeu, e reagiu.

Só bem depois Ensina-me a Viver ficou cult, virou até musical - encenado no Brasil. A única coisa que sempre foi grande, já na época, era a trilha - de Cat Stevens, que se converteu ao islamismo e virou Yusuf Islam. Wild World, canta Cat.

O filme - que será exibido nesta quinta, 12, às 22h, no Telecine Cult - é sobre isso, o mundo selvagem que ia enterrar, no concerto de Altamont, documentado em Gimme Shelter, o ideal hippie. Ashby, que morreu em 1988, aos 53 anos - debilitado pelas drogas e por um câncer de fígado -, ainda fez uma fábula belíssima. Muito Além do Jardim, com Peter Sellers, em 1979.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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