Entrevista

Em queda, ele sobe

O paraquedista Marcos Macagnan, 55, é paraquedista há 20 anos. São mais de 1.500 saltos no currículo, e paisagens inesquecíveis

Há 20 anos, a queda livre é o principal oxigênio de Marcos Antonio Macagnan, 55. É como se fosse um vício, uma adrenalina que volte e meia precisasse ser experimentada.

Desde jovem, Marcos se interessa por esportes de aventura. Começou com o skate, depois caiaque, até que conheceu o paraquedismo em 1995 – paixão que nunca deixaria de lado. Atualmente, ele também corre.

Em 20 anos, são 1.586 saltos – rigorosamente anotados em 9 livros. “Esse negócio que vai para o sangue, que chamamos de adrenalina, ‘vicia’. É como se fosse uma dependência química”, diz.

Arquivo Pessoal
Em 2015, completaram-se 20 anos que Marcos salta de paraquedas

Em cada salto, a mesma emoção, segundo ele. Antes, o barulho violento dos motores do avião. As portas se abrem. É preciso determinação para saltar da aeronave – a força do vento parece insistir no contrário. Depois, silêncio absoluto, e a solidão que une apenas dois elementos: o paraquedista e seu equipamento.

“É uma coisa absurda você comandar seu paraquedas há 1.000 metros de altura e ficar em queda livre por um minuto, aprendendo a voar, deslocando-se no ar, indo para frente e para trás, a 200 km por hora”.

Embora seja um esporte sensorial, Marcos afirma que o paraquedismo o ensinou a ser mais disciplinado – uma vez que, durante o salto, a lucidez tem de ser imperativo. É preciso controlar inúmeras variantes: antes, durante o salto e no pouso. “O esporte me trouxe seriedade e me ensinou a não fugir da regra. Se não, a vida está em risco”.

O pouso, aliás, é a especialidade de Marcos. Dentro do paraquedismo, a modalidade preferida dele é o salto de precisão, que desafia o atleta a saltar o mais próximo possível de um alvo pré-determinado.

Ele vê com ressalvas modalidades arriscadas, com paraquedas pequenos. “Sempre fui muito conservador em relação ao paraquedismo, desde que me tornei instrutor. Você começa a lidar com alunos e tenta preservar a integridade física”.

Marcos estima que mais de 1.500 pessoas já tenham saltado em Pato Branco. Regularmente, são em torno de 100. Uma das dificuldades para ter mais adeptos é o alto custo – além dos gastos com equipamento (um paraquedas custa em torno de US$ 10 mil), é preciso pagar as despesas do avião. Marcos, que também é técnico em eletrônica, tornou-se instrutor para viabilizar a atividade. E tomou gosto pela oportunidade de propiciar a experiência a outras pessoas. “Isso me fez continuar no paraquedismo. Esse esporte é maravilhoso. Todo mundo deveria fazer um saltinho ao menos uma vez na vida, para ter a sensação de queda livre”.

Mas apesar de a tecnologia ter evoluído bastante e os paraquedas utilizarem mecanismos quase 100% seguros, Marcos reconhece que há riscos, ainda que a prática esteja longe de ser um dos esportes mais perigosos, de acordo com ele. Um dos riscos é desmaiar em alta altitude, por causa da descarga de adrenalina, o que pode acontecer até mesmo com esportistas experientes. Existe um equipamento que abre o paraquedas automaticamente, medindo dados como variação de pressão e velocidade. Ainda assim, o pouso nessas circunstâncias é imprevisível.

Paisagens inesquecíveis

Com tantos saltos no currículo, Marcos cita três que mais o impressionaram pela paisagem paradisíaca: Ubatuba (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Florianópolis (SC). Entre os locais que ele pretende saltar, estão o Havaí, Nova Zelândia e saltos de montanhas.

Em queda livre, mas sempre em pé. O paraquedismo é também uma pílula da juventude para Marcos. “O paraquedista é um cara diferente, está sempre disposto e antenado”. Não poderia ser diferente. A mais de mil metros do chão, o buraco é mais embaixo.

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