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Eles querem colorir o Sudoeste

Com uma lata de spray na mão e um ideal na cabeça, jovens fazem arte na beira da estrada para abrir mentes

Helmuth Kühl

Arte na PR-493, em Verê

Não há muito o que se ver na estrada que liga Verê a Dois Vizinhos. São vários quilômetros de rodovia ladeada por lavouras de soja, até perto da ponte do rio Lageado Grande, que divide os dois municípios, onde um ponto de ônibus grafitado mostra uma vaca holandesa sendo abduzida em uma noite enluarada.

Mais à frente, os dois rostos que se confrontam na capa do disco “The Division Bell”, do Pink Floyd, aparecem em outro ponto, e até chegar ao perímetro urbano de Dois Vizinhos é possível encontrar o Mario, do game “Super Mario Bros.”, o Chapeleiro Maluco e o Coelho Branco, da versão de Tim Burton para o cinema do clássico literário “Alice no País das Maravilhas”.

As pinturas são trabalho de um grupo independente de artistas que tem uma porção de propostas e de ambições, como transformar o rotineiro hábito de esperar a condução em uma intervenção artística, se possível em todos os acinzentados pontos de espera de ônibus nas estradas do Sudoeste do Paraná.

Além disso, a intenção do coletivo Alquimia é fazer a cabeça das pessoas, uma proposta meio ideológico-filosófica de estimular um pensamento além do óbvio. “A ideia é tentar estimular uma alquimia interna nas pessoas, fazendo com que elas alcancem uma evolução por meio da síntese de espírito, ciência e arte”, explica Eiguel Ribeiro, publicitário (31) e pai do projeto.

Helmuth Kühl

Ponto e cenário recriam capa do disco "Division Bell", do Pink Floyd

Para isso, o grupo procura fazer mais do que grafitar um desenho escolhido aleatoriamente. Cada arte é pensada para que haja alguma forma de interação, seja com as pessoas ou com o ambiente, desde a criação até a contemplação. O Alquimia não tem razão social, sede fixa formal ou hierarquia.

É um grupo aberto a participações voluntárias que já mobilizou cerca de 50 grafiteiros e artistas de outras vertentes, e criou outras manifestações como o “Uma Arte por Dia”, desafio que propõe a criação de uma obra de arte diária por pelo menos 100 dias, de preferência, consecutivos. “A intenção é conectar cada vez mais pessoas”, projeta Ribeiro.

Embrião

Foi em uma viagem à vizinha Cruzeiro do Iguaçu que apareceu o estalo de colorir paradas de ônibus. No caminho, Ribeiro e seus amigos viram vários pontos pichados e sujos com garrafas de bebidas. A comitiva usou algumas latas de spray para melhorar a aparência de um deles. Escolheram pintar Homer Simpson, do seriado “Os Simpsons”.

O resultado fez sucesso nas redes sociais. Com potencial para agradar, a ideia foi aprimorada, e de meros desenhos aleatórios surgiram trabalhos mais complexos e com propósitos. A vaca abduzida, desenho da estudante Débora Oliveira, fica em frente à casa de uma família de agricultores, criadores de vacas de leite. “Eles vieram, pediram licença e pintaram em uma tarde.

Reconheci o meu paiol”, disse a moradora, se referindo a um armazém da propriedade. Ribeiro conta que o paiol e mesmo a vaca não foram coincidência. O ambiente em volta da tela influencia na escolha da arte. Os pontos de ônibus grafitados pelo Alquimia são basicamente dois blocos de concreto alinhados lado a lado.

Helmuth Kühl

O pássaro, já em Dois Vizinhos

Cada uma das cabeças de Division Bell, por exemplo, está reproduzida em um dos blocos, que estão separados, possivelmente por causa de um acidente de trânsito ou movimentação do solo. Ribeiro explica que a separação ajuda a relacionar o grafite com alguns temas do disco, como o isolamento, a falta de comunicação e os conflitos.

Nos fundos há uma plantação de soja e grandes silos de estocagem de sementes. Em tempos de colheita, o amarelo do chão, os silos e o ponto compõem um cenário que faz lembrar a capa do disco completa. Algumas quilômetros antes, há o grafite de um pássaro verde pousado em um galho. No entorno estão grandes araucárias, e é possível ouvir muitos cantos de aves. As paradas onde estão o Chapeleiro e o Coelho estão em lados opostos da estrada, passando a impressão de que um personagem está mostrando o relógio para o outro.

É com essas subjetividades mais ou menos explícitas que o grupo pretende cutucar mentes e promover sua revolução. “O negócio é participativo. Os espaços estão lá para serem usados e cada quadro é interativo. Ou ele conversa com o ambiente ou as pessoas podem interagir com ele”, explica o mentor do Alquimia.

Tudo indica que algo está acontecendo. O estudante de direito André Koerich está investigando os efeitos do projeto para uma possível proposta de mestrado. Interessado em filosofia e religiosidade, Koerich escolheu o Alquimia por sua proposta além da arte. “Eles têm uma filosofia de que a arte está dentro de cada um. Assim como na religião há a caridade, percebo que através do grafite eles pretendem gerar algo parecido, oferecendo algo de bom”, justifica.

O estudante está acompanhando os artistas na criação de trabalhos e entrevistando moradores para perceber reações, que na maioria das vezes são boas. Em uma das observações, Koerich saiu de ônibus de Francisco Beltrão, onde mora, até Dois Vizinhos, coletando opiniões dos passageiros. Segundo ele, os únicos pontos que causaram alguns estranhamentos foram os de figuras de rock, como o do mascote da banda Iron Maiden.

Helmuth Kühl

Eiguel Ribeiro, criador do Alquimia

A princípio, o estudante diz ter concluído que a reação positiva acontece porque a arte desvia as pessoas da rotina, gerando uma espécie de alívio. “As pessoas não têm tempo, e mesmo quem não se interessa pelas artes é atraído pelo diferente. Eu vi um taxista, de uma certa idade, sair de uma expressão séria para uma alegre enquanto via um quadrinho sendo pintado. No fim, ele acabou levando o quadro embora”, relata Koerich.

Arte diária

Ribeiro conta que o coletivo já coloriu 25 paradas, a maioria entre Dois Vizinhos e São Jorge D´Oeste. Só não fez mais por falta de recursos. Ele calcula que cada trabalho consome de R$ 300 a R$500 em latas de spray e outros materiais, investimento que sai quase sempre do próprio bolso.

Entre um trabalho e outro, o grupo já foi convidado para fazer arte em outros lugares, como o Sesc e a pista de skate do Complexo Esportivo, ambos em Pato Branco. On-line, porém, o efeito das ações do coletivo é constante. O desafio “Uma Arte por Dia” começou como uma provocação entre as amigas Débora Oliveira e Lee Schmoller.

Arquivo pessoal

Débora Oliveira. Desafio estimula artistas a criarem diariamente

Débora conta que ambas se desafiaram a criar uma obra de arte por dia durante o maior período de tempo possível.A ideia vingou, e o desafio foi aberto a quem tivesse interesse. As artes criadas são postadas na página do Alquimia no Facebook, que até o fechamento dessa edição tinha cerca de 3.200 seguidores. Lá tem de tudo. De desenhos a pulseiras, de fotografias a camisetas customizadas, feitas por participantes de estados como São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Débora conseguiu completar o desafio com sua técnica principal, a ilustração, e com incursões pelo artesanato e pela fotografia. Para ela, a graça da brincadeira é perceber a evolução do próprio trabalho e trocar experiências com outros artistas. “Eu conhecia 19 modelos de pulseiras, até receber um link com centenas de outros”, diz o estudante e artesão Rai Rech, de Dourados, Mato Grosso do Sul.

Segundo ele, o desafio o colocou em uma rede colaborativa de artistas de várias correntes, que colaboram e se incentivam.“Às vezes você perde a vontade. Mas sempre tem alguém pra cobrar o seu trabalho novo”, conta. Rech já publicou desenhos, camisetas e fotografias pensadas por ele e clicadas por um amigo.

Ele diz que, entre outras coisas, a inspiração vem da possibilidade de oferecer algo de bom a alguém e se desafiar.A artesã Viviane da Rosa, de Dois Vizinhos, participou do desafio por 40 dias. Ela fabrica bonecos de tecido, e lhe pareceu uma boa ideia ter um motivo extra para criar.

Um boneco pode levar de 10 min a 3h para ficar pronto. Viviane conta que usava a última meia hora antes de dormir para cumprir a cota do dia.  “(O desafio) ajudou bastante na técnica, porque é como estudar; você tem que fazer todo dia pra ficar bom. Mas ajudou ainda mais a ter disciplina, não só no trabalho, mas na vida pessoal”.

Eiguel Ribeiro conta que a intenção é homenagear os artistas que completarem o desafio com algum tipo de intervenção, como uma grafitagem reproduzindo a obra do artista. A contar pelo número de desafiados, podem faltar paradas de ônibus.

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