Entrevista

“É um ano com perspectiva de melhora. Porém, há interrogações”

Darci Piana, presidente do Sistema Fecomércio, analisa cenários da economia e da política em 2018
Darci Piana, presidente da Fecomércio-PR (Foto: Assessoria/Gilson Abreu)

Nos últimos meses, a economia do Brasil tem passado por um momento de crise. Apesar disso, o comércio do Paraná começou o ano apresentado cenários de melhora, que mesmo sendo discreta, já é vista por Darci Piana como um sinal de recuperação.

presidente da Federação do Comércio do Paraná (Fecomércio-PR) diz estar otimista, mas também afirma ter consciência de que fatores como as eleições e até a Copa do Mundo devem ser encaradas com cautela pelo setor. Nesta entrevista para o Diário, Piana analisa o pleito, as projeções do setor para 2018, fala sobre as recentes reformas debatidas no país, entre outros assuntos.

Diário - Como o senhor avalia o trabalho do sistema Fecomércio no ano de 2017?

Darci Piana - Apesar de um ano com grandes dificuldades, tanto na questão política como na questão ética e econômica do país, os nossos resultados foram muito bons. Nossos recursos foram determinados no início do ano, nós conseguimos manter o volume de nossas receitas equilibradas, mantivemos e realizamos todos os projetos que tinham sido projetados, ou seja, os nossos investimentos foram realizados tanto na Federação do Comércio, na questão de custos, na questão de palestras, na preparação de qualificação do empresariado de modo geral, como também na questão do Sesc, do Senac.

Segundo uma pesquisa da Federação, entre janeiro e outubro de 2017, as vendas foram 0,24% maiores do que no mesmo período de 2016. Apesar do aumento discreto, foi a primeira vez que esse percentual foi positivo desde 2014. A quais fatores o senhor atribui esse resultado?

O primeiro deles foi desvincular a economia da política. Isso foi fundamental, apesar de todas as dificuldades, de modo geral o país conseguiu desvincular esses aspectos políticos da economia. Então com isso criou-se um ânimo no comércio, de onde a gente começa a sentir que as coisas começam a tomar um rumo; não como a gente precisa, gostaria que fosse, mas que ele começa a ser positivo.

Então esse crescimento, apesar de ser bastante pequeno, demonstra a confiança que o empresário do comércio e serviço tem colocado na economia brasileira. Apesar de estarmos falando de 0,24% até outubro, de lá até dezembro, ele foi superior a isso. Nós estamos falando de 1.46% de crescimento, ou seja, já deu salto até maior do que este da pesquisa comparativa anual. Então isso demonstra a confiança que o empresariado está tendo.

Para 2018, qual é a expectativa para o comércio e qual deve ser a postura da Federação diante de um eventual cenário de instabilidade?

Nós temos um ano atípico, porque teremos Copa do Mundo e eleições. Em outras épocas, uma eleição trazia o investimento de recursos, sejam gastos de partido, de gráficas, de veículos, consumo, tudo isso uma campanha puxa. Agora com as despesas dos partidos reduzidos, não tem mais isso.

E ainda temos uma situação complexa, que são os candidatos que podem ou não estarem no pleito por conta de decisões jurídicas. É evidente que a expectativa é de crescimento. Mas ela está ao alcance de uma eleição que a gente gostaria que fosse tranquila. Mas ela também pode trazer algum aborrecimento com relação a algumas expectativas que não correspondem aos anseios do empresariado. Se por exemplo, algum partido de esquerda ou de extrema direita começarem a crescer, as bolsas que hoje têm recursos do exterior, em função dos juros brasileiros, esse dinheiro poderá sumir, e os próprios investimentos dos empresários podem parar em função de problemas políticos. Então é um ano com perspectiva de melhora, porém, há interrogações.

Na sua opinião, quais devem ser as posturas das próximas lideranças, tanto do ponto de vista nacional quanto estadual?

A gente gostaria de ter candidatos que se preocupassem com investimentos, com infraestrutura, com ética, com responsabilidade social. Que o governo gastasse menos e produzisse mais.

E a grande expectativa que temos é que apareçam esses candidatos, porque com toda essa dificuldade, da maior parte dos partidos com as suas lideranças mais expressivas envolvidas em problemas de ética, se torna bastante difícil ter uma renovação bastante acentuada. Então a gente pode ter uma decepção grande na medida em que as possibilidades de mudança, ou de alternativa de candidatos novos não aconteça.

A reforma trabalhista foi um assunto que esteve em debate em 2017. Quais são os efeitos da reforma que já estão sendo percebidos no comércio?

Nossa entidade foi favorável à reforma trabalhista, como também é favorável com a reforma da previdência. A reforma trabalhista, apesar de não ser profunda, trouxe a expectativa grande de poder contratar novos funcionários.

Porque com a liberdade de horários, dessas alternativas que foram colocadas à disposição, de prevalecer o negociado sobre o legislado, isso que está começando a aumentar as vendas, a economia do país está crescendo um pouco em cima dessas expectativas e possibilidades que se criaram.

Por exemplo, hoje uma pessoa que trabalha como garçom, se ele tiver que trabalhar das oito às 18h, como é que fica para servir o jantar? Ele não pode passar de duas horas extras. Ter uma nova equipe não se consegue, então se arrisca a criar um passivo trabalhista enorme.

Hoje ele pode contratar essas pessoas pelo espaço de tempo que precisar, e essa pessoa pode até ter mais que um emprego, desde que seja em horários diferenciados. Essa flexibilização que houve na questão trabalhista, trouxe uma expectativa positiva para o mercado. Como também a questão da reforma da previdência. Agora, se não tiver alguma mudança, a gente teme pelo que possa acontecer daqui quatro, cinco anos, quando o pais não tiver condições de pagar os aposentados de hoje, quanto mais aqueles que virão.

Além da reforma trabalhista e da previdência, quais outras reformas ou medidas que o senhor considera urgentes?

Uma reforma política e também uma reforma tributária. Como nós temos custos enormes da máquina administrativa, a gente não tem expectativas que possa reduzir a carga tributária. Mas se ela for simplificada, se ela for facilitada, para que o empresariado não gaste grande parte dos seus recursos para os pagamentos dos encargos que são inerentes aquilo que ele faz, já seria um grande processo.

Com relação ao Sesc e ao Senac, é possível adiantar algum projeto ou projeções para o ano de 2018?

Nós temos hoje, no Sesc e no Senac, compromissos assumidos com os interesses do Paraná, dentro do comércio. Nós temos que preparar a mão de obra para o crescimento. Então nós temos agora para inaugurar (unidades) em União da Vitória, Rio Negro, nós temos projetos que encaminhados de Irati, Arapongas, Nova Londrina, Palmas. Temos um hotel em Cascavel, temos a reforma do nosso Sesc de Maringá. De acordo com o planejamento, estão previstos em torno de 170 mil matrículas no Senac e em torno de 50 milhões atendimentos no Sesc em 2018.

Seu nome veio sendo ventilado para uma possível candidatura à presidência da Confederação Nacional do Comércio. Há de fato alguma articulação nesse sentido?

Vai existir uma eleição em 2018 em todas as federações estaduais. Depois vai existir a eleição da confederação, então qualquer articulação que existir hoje evidentemente poderá a vir mudar de acordo com os presidentes eleitos nos estados. Eu não posso negar que o meu nome tenha sido lembrado, mas essa eleição será no mês de agosto. Então qualquer coisa que for ventilada hoje é mera especulação. Hoje se comenta em eventuais quatro candidatos, mas isso tudo ainda são especulações.

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