Vanilla

Do salão da bodega ao show apoteótico

Definir a country music é uma tarefa quase impossível, ainda mais quando ela desembarca no Brasil e se multiplica hibridamente entre o mainstream e o underground

Na década de 20, no Sul dos Estados Unidos — principalmente na zona rural de Tennessee, Virginia, Virginia Ocidental e Kentucky —, uma galera se reunia para fazer um som diferente utilizando instrumentos como a rabeca, o banjo, o bandolim e o violão. A influência direta vinha da classic old-time music — como o folk e bluegrass, gêneros musicais bastante populares no norte daquele país —, mas soava um pouco mais, digamos, caipira. Por isso era chamado de hillbilly music (ou música de caipira, numa tradução meio porca). 


Na medida em que o movimento foi se popularizando, o rótulo soava cada vez mais pejorativo, até preconceituoso. Afinal, quem quer ser caipira? E foi justamente no momento de rebatizar o gênero que surgiu, já na década de 40, o que seja talvez a cultura mais bairrista dos Estados Unidos: o country.

Avance para o final dos anos 60, início dos anos 70, e mude o cenário: agora estamos em um Brasil que vive paralelamente o Tropicalismo e a Jovem Guarda. O primeiro movimento valoriza toda a brasilidade de nossas raízes; o segundo é pura e simplesmente a importação da cultura americana, com pequenas adaptações aos nossos gostos. E entre ternurinhas e tremendões, uma figura se destacava por adotar um estilo incomum ao que nos era oferecido, mas que se tornava mundialmente popular. Eduardo Araújo aparecia de chapéu, camisa, bota, fivela, e mesmo que sua “Pode vir quente que eu estou fervendo” destoasse das canções rednecks, lá estava um brasileiro a flertar com o country— e não foi surpresa quando, a partir dos anos 80, o artista fincou as botas no gênero.

Aliás, foi nessa década que o country nos Estados Unidos (que já havia deixado o status de honky-tonk — de salão de bar — e se consolidado como grande vendedor de discos com o movimento outlaw — ou fora da lei, nascido em Johnny Cash e liderado por Willie Nelson, Waylon Jennings, Jessi Colter e Tompall Glaser) se tornou algo apoteótico, pirotécnico e universal, com lançamento das grandes estrelas mundiais. Garth Brooks, Alan Jackson, The Mavericks, ao lado das cowgirls ianques Shania Twain, Trisha Yearwood e Faith Evan, emplacaram os álbuns mais vendidos do início dos anos 90.

Também foi nos anos 80 que a nossa hillbilly music começou a ganhar novos acordes, influenciados pela explosão country no mundo. Da viola e letras em redondilha maior, a nossa moda caipira – ou pagode – foi ganhando elementos que, do sertanejo tradicional, aquele que admira o luar do sertão, passam bem longe. O principal expoente desta temporada certamente é a dupla Chitãozinho & Xororó, que trouxe para suas músicas o instrumental presente no caipirismo de Nashville.

O que era impensável se materializou: o bairrismo norte-americano estava se desconstruindo e se multiplicando hibridamente. E é neste exato ponto da história que o movimento country no Brasil se divide. De um lado, ele é muito popular, abrange a massa e é estudado e fabricado para arrebanhar multidões. Do outro, ele é intimista e se mistura a gêneros aos quais deu origem, como o rock e o blues. Há ainda quem procura não fugir das origens.

Mantendo a tradição
Para os puristas, country music em português seria como um samba-enredo em alemão: é possível, mas ruim. Por isso alguns artistas que se aventuram em apostar no gênero preferem fazer música em inglês.

O principal representante dessa linha no país é Rodrigo Haddad, que nasceu na zona sul da capital Paulista e conheceu a música country ainda criança. “Tive contato com esse mundo western porque meu pai sempre gostou de cavalos e importava fitas K7 e vinis de artistas do country norte-americano, e eu sempre gostei de música. Ele, ao lado da minha mãe, são meus grandes apoiadores nessa loucura que é viver de música country no Brasil”, diz.

Rodrigo Haddad é o principal representante do country tradicional no país e divide o palco com estrelas do sertanejo atual


Completando 22 anos de carreira, seu público não é bem o brasileiro, mesmo que regularmente encha as casas de shows de São Paulo e região. Influenciados por nomes como Alan Jackson, George Strait, Johnny Cash, Jim Laudardale, Dwight Yokam, Dale Watson e Merle Haggard, ele leva sua música para as rádios da França, Espanha, Holanda, México e Argentina, e até foi nomeado Embaixador da Country Music por uma entidade espanhola, a ICMDAY, pela determinação em levar a Country Music americana ao redor do mundo. 

Em 2014, o artista teve o “melhor show de country music”, avaliado pela British Country Music Awards, em Londres, e foi premiado pela Jeff Walker Global Country Artist Award, da CMA, pelo reconhecimento ser um artista de sucesso da country music fora dos EUA.

Com cinco discos gravados e muitas visitas ao Tenessee, em seus shows ele prioriza os clássicos, mas admite que é necessário variar. “Sempre tem aquela turma que não conhece muito o country norte-americano, então fazemos um pouco de country rock e folk, na linha de Simon & Garfunkel, Creedence e Dire Straits”, diz. Em outras oportunidades, se apresenta com um repertório só com canções de Johnny Cash.

Ao lado dele estão grandes nomes do sertanejo que têm influência do country, mas cantam em português, e descobriram a fórmula mágica da popularidade. O grande exemplo é Fernando e Sorocaba – o último, genial como empresário, criou uma teia onde leva milhares de pessoas ao show de artistas novatos aos quais agencia, dando-lhes notoriedade de gigantes.

Cena underground
Do purista ao mainstream sertanejo, o termo country é bastante difícil de ser definido por ser muito abrangente e ao mesmo tempo ter vertentes pouco conhecidas.

O mineiro Tarso Miller, que desde 2011 faz country music, hoje vive em Bratislava, na Eslováquia, e acredita que essa dificuldade de encontrar um único consenso acontece também nos Estados Unidos, devido principalmente ao lado mais pop e distante das raízes. “Não é à toa que existem sites como Saving Country Music e até outros movimentos que já desistiram de salvar o termo Country, como o caso da premiação Ameripolitan, de Dale Watson”, diz. Sendo assim, por que no Brasil seria diferente? 

Há uma possível semelhança com o sertanejo, já que o estilo é influência direta dentro deste mercado, mas por outro lado o country tradicional, aquele de salão de bar, acaba encontrando público dentro da cena roqueira e alternativa. “Tanto que esse ano quase tivemos a versão brasileira do festival Muddy Roots, que é referência quando se trata desse lado mais underground da música country”, lembra.

Tarso Miller encontrou público rockeiro no country de salão de bar


A proximidade do rock com o country é tanta que Tarso chegou a nomes como Johnny Cash e Willie Nelson— e a partir deles descobrir todo o universo do gênero —, através do punk rock, quando fez o último ano do colegial no Texas. “Passei pelo alt-country de Ryan Adams e Ben Kweller, mas foi só quando descobri JustinTownes Earle que percebi que era possível produzir algo nessa linha”. E aí voltamos ao honky-tonk (Dale Watson And His Lonestars), outlaw (Whitey Morgan And The 78’s), western swing (Hot Club Of Cowtown), rockabilly (Big Sandy And His Fly-rite Boys) e bluegrass (Doc Watson). 

Sua banda, a Tarso Miller And The Wild Comets, se enquadra no que ele chama de underground country, “que é essa cena relacionada ao público alternativo e que sem dúvida existe”. Para citar outras bandas nacionais que fazem parte deste cenário, ele cita Mary Lee And The B-side Brothers, Them Old Crap, Tiro Williams And The Wild Cowboys, Hillbilly Rawhide, Condado Caramujo, e nomes que não param de surgir.

Do punk ao metal
Precursora do estilo no underground nacional, a curitibana Hillbilly Rawhide tem 16 anos e presencia uma certa explosão de bandas fazendo um estilo próximo ao seu, definido por Ricardo ‘Mutant Cox’ Huczok (guitarra, violão e vocal) como um country com mais influências de rock and roll. “Não sei exatamente por que, mas talvez a gente até tenha ajudado um pouco. Foi depois do Hillbilly Rawhide ter começado que apareceram mais bandas”, observa. 

Influenciado principalmente pelo psychobilly e rockabilly, que são estilos que Ricardo escuta e toca desde a adolescência, é que foi conhecer o country mais a fundo, e por isso não identifica seu som em nada com o sertanejo. “Além de que não tem como rotular ou definir nosso público. Temos fãs desde crianças a velhinhos, passando por roqueiros, cowboys, punks, headbangers, psychobillies, rockabillies, todo tipo de gente, o que é muito bacana pois podemos nos encaixar em praticamente qualquer tipo de ambiente”, acredita.

A banda curitibana Hillbilly Rawhide é uma das precursoras do estilo no underground brasileiro


Mesmo que a principal influência seja o country americano de raiz, passando pelo bluegrass e outlaws, a banda também tem “obviamente uma influência fortíssima de blues e rock, desde o rockabilly anos 50, psychobilly, punk rock até o metal mais extremo”, revela.

O elemento surpresa são as letras em português. “É um pouco mais difícil, não só pela questão de rima, mas tem que soar legal e também ter um sentido bacana. No meu caso, sempre prefiro optar por um assunto verdadeiro, algo que realmente aconteceu, pois isso tem muito mais força para criar identificação nas pessoas”.

Também foi através do rock que Wagner Creoruska Junior, há 7 anos à frente da banda O Bardo e o Banjo, teve acesso à country music. “Sempre gostei de rock, e descobri uma nova paixão no country, na música de raiz norte-americana, através de bandas como Lynyrd Skynyrd, Creedence, que misturavam o rock com essa música de raiz”, fala.

Ele se orgulha de fazer um som mais relacionado ao de raiz brasileira do que ao sertanejo mainstream, “que se distanciou muito da música country que a gente reverencia. Tocamos com instrumentos clássicos do estilo, como o banjo e o violino, e as pessoas associam nosso som com o sertanejo de raiz, a moda de viola, isso é ótimo”, admite.

Com O Bardo e O banjo, Wagner diz alcançar diferentes públicos. “Vemos muitos fãs que chegaram até a gente através do rock clássico e do heavy metal, já que temos versões de músicas desses estilos que tocamos do nosso jeito. Também tem a galera do folk, que é um estilo em ascensão, com bandas como o Mumford & Sons. E, claro, temos a galera do country, que gosta do que fazemos porque buscamos essa sonoridade mais raiz do estilo”.

O Bardo e o Banjo: “Sertanejo mainstream se distanciou muito da música country que a gente reverencia”


Para se aproximar ainda mais do público, o próximo disco da banda será quase todo com letras em português. “Estamos adorando o resultado, e já vemos o reflexo disso nos shows, com as pessoas cantando e curtindo mais as músicas por sentirem uma familiaridade maior com elas. Eu sei que muita gente discorda e diz que country tem que ser em inglês, mas eu acho que não, que é e sempre vai ser como o rock: vão ter as pessoas a favor e as contra”.

Bairrismo e preconceito
Principal representante do country no sudoeste paranaense, a banda Tiregrito mistura ainda o rock e elementos do tradicionalismo gaúcho. 

Rafael Barzotto, vocalista, conta que estava de saco cheio de tocar hard rock e com um interesse gigante pelo blues. “Comecei a identificar que muito das raízes da música tradicionalista do Rio Grande do Sul eram compatíveis com o country. Ao mesmo tempo vi que a galera se vangloriava muito de ouvir Johnny Cash, mas ninguém conhecia o Teixeirinha. Achava brega ou antiquado. Algumas músicas do Cash são extremamente parecidas com músicas do Teixeirinha. A diferença é que, aqui no Brasil, tudo o que é nacional é taxado de ruim: da música aos políticos. E tudo o que vem de fora já vem com esse ‘selo de garantia’ imaginário. Pega uma música do Teixeirinha e põe uma letra em inglês que vão achar lindo”, raciocina. 

Foi daí que surgiu a Tiregrito, para mostrar que música boa é música boa, independente de rótulo. E, na época, eles acreditaram que não tinha nada melhor que o country para escancarar essa hipocrisia. É claro que todas as letras de suas músicas autorais são em português. “E tem outro tipo de letra pra fazer? Quando você vai à padaria, você fala: ‘one loaf, please’ ou fala ‘me vê um pão’? Tem que escrever letra em português. E não só português. Tem que falar, cantar, respeitar, o dialeto de cada região”, acredita.

Tiregrito acrescenta elementos regionais no country. “Música boa independe de rótulos”


Por isso, negar a proximidade do country com o sertanejo, para ele, chega a ser uma heresia. “Outro dia estávamos ouvindo Big & Rich na festa de um amigo. E estava todo mundo balançando a cabeça. Fiz uma experiência: botei uma música com um instrumental, logo de início, meio longo, do Fernando e Sorocaba. Até aí, tudo certo. Quando começou a letra, em português, todo mundo torceu o nariz e pediu pra tirar a música. Mas é igual! Os últimos dois discos do Fernando e Sorocaba têm o instrumental country muito bom. Mas o rockeiro acha o Fernando e Sorocaba ruim porque é sertanejo. Não venha me dizer que é por causa dos conteúdos das letras, porque Big & Rich também fala de festa, bebida e balada”, avalia. 

Barzotto conta que, por causa dessa mistura, a Tiregrito já ouviu de dono de bar que era muito sertanejo para tocar em um bar de rock e muito rock and roll pra tocar em um baile. “Mas o nosso público hoje, na região Sudoeste do Paraná, é bastante amplo. Não tem como a gente limitar isso. Tem aquelas pessoas que vão ao show porque gostam e cantam todas as músicas próprias da banda e tem também aquelas pessoas que vão para ouvir Criado em Galpão. E todos são importantes”. 

Seja no salão do bar ou no palco interagindo com hologramas de última geração, com influência do punk ou do tradicionalismo, o country, ao menos no Brasil, é música para se divertir. Logo, uma boa música country é aquela que faz todo mundo, no mínimo, marcar o ritmo batendo os pés no chão, independente do estilo que mais se aproxima.

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