Pato Branco

Desafios e estratégias da educação são debatidos em Pato Branco

["O ciclo de palestras ocorreu na noite da \u00faltima quarta-feira (15)","",""] (Foto: Josi S. Milla/Sinepe/PR)

Na última quarta-feira (15) o Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR) promoveu, em Pato Branco, uma maratona de palestras sobre os desafios da educação, destinada a gestores, coordenadores e professores de instituições de ensino infantil e médio, aberta também ao público em geral.

A palestra “Desafios da educação para o século XXI - Comportamento dos perfis geracionais” foi ministrada pela psicóloga, psicopedagoga, professora de Ensino Médio e consultora na área educacional, Rocimar Santos Oliani. Segundo ela, a relação professor-aluno envolve diferentes gerações, estilos de vida e crenças. Para uma convivência positiva, que auxilie no processo de aprendizagem, é preciso entender o comportamento de cada perfil geracional e promover integrações e trocas de experiências.

Já a palestra “Método e estratégias para engajamento dos alunos” foi ministrada pelo professor, doutor em Educação, consultor de inovação e Google Certified Inovator, Paulo Tomazinho. Na sua explanação, ele apresentou um método para que os professores conquistem a atenção e o interesse dos alunos, além de técnicas de apresentação de conteúdo e estratégias didáticas simples e de fácil execução a fim de melhorar a aprendizagem e desenvolver habilidades socioemocionais nos estudantes.

O Diário do Sudoeste aproveitou a visita dos palestrantes a Pato Branco e os questionou sobre algumas abordagens da educação.

Diário do Sudoeste - Quais os métodos e estratégias que devem ser utilizados para um melhor engajamento dos alunos, apresentados na palestra?

Paulo Tomazinho – Na palestra respondi a quatro perguntas básicas, como: “Qual a melhor forma de ensinar?”, “Qual a melhor forma de aprender?”, “Qual a melhor forma de estudar?” e “Por que esquecemos o que já estudamos?”. Respondi com base no que há de mais relevante em termos de evidência científica na educação, com base nos melhores artigos científicos publicado no mundo sobre cada um desses temas.

Depois apresentei o que tenho chamado de Estratégias Didáticas Assimétricas, que são estratégias que todo professor pode utilizar em qualquer aula. Que, apesar de muito simples, gera um grande ganho de aprendizagem nos alunos. O que propus aos professores é que eles continuem fazendo o que sempre fizeram em suas aulas, mas que reserve 10% ou 20% do tempo da sua aula para utilizar uma das estratégias que apresentei. São estratégias simples, mas embasadas na neurociência da aprendizagem, psicologia positiva, psicologia comportamental e metodologias ativas de ensino, geram um resultado de aprendizagem muito mais significativo e para a vida toda.

Diário – A tecnologia, muito mais presente no cotidiano do aluno, representa um desafio maior para os educadores?

Tomazinho – A tecnologia é ferramenta. Pode ser utilizada para o bem ou para o mal. Em educação só faz sentido utilizar tecnologia com um propósito pedagógico claro.

Diário – O que devemos considerar sobre a distinção entre ensino e aprendizagem?

Tomazinho – Um ponto que chamo muita atenção nas palestras é a afirmação que “Ensino nem sempre significa Aprendizagem”, ou seja, o fato de o aluno ir para a aula, entender e até mesmo compreender o que o professore transmitiu de informação, não significa que ele aprendeu aquele conteúdo ou nova informação.

A aprendizagem se dá quando uma vez entendida e compreendida uma nova informação transmitida e explicada pelo professor, pela primeira vez, esse aluno consiga criar estratégias para armazenar essa nova informação na sua memória de longo prazo, e consiga, depois, recuperar essa informação no futuro para aplicá-la no mundo real. Por exemplo, resolver um problema. E ainda, depois de usar essa informação, tenha criticidade se ainda pode ou não melhorar a solução que foi dada ao problema.

Diário – Quais são os desafios da educação para o século XXI, apontados na palestra?

Rocimar Santos Oliani – Os desafios da educação para o século XXI vem de encontro com as várias transformações e mudanças que, num lapso de tempo muito curto, aconteceram. Internet, plataformas digitais, o mundo globalizado e os nossos jovens, cada vez mais, rápidos e imediatistas diante disso tudo. Assim, a importância da compreensão dos Perfis Geracionais e, desta forma, entender quem são nossos alunos de hoje. A escola precisa ter ações que acompanhem as nossas crianças e jovens, como sendo agentes motivadores para um ensino de qualidade.

Diário – Os desafios da educação privada são os mesmos da educação pública?

Rocimar – Os desafios de uma escola, de forma geral, sempre são os mesmos, ou seja, as relações professor x aluno, aluno x aluno, escola x família, dificuldades de aprendizagem, formação continuada aos professores e gestores, o cumprimento do projeto pedagógico e atos regulatórios, participação dos pais, enfim, são muitas as demandas e desafios em comum.

No entanto as realidades das escolas públicas e privadas e, principalmente no quesito gestão, são muito diferentes em virtude de ainda hoje apresentarem fragilidades de infraestrutura e, também, no que tange a ausência da participação dos pais na escola.

Diário – Como gerenciar a educação que temos hoje, com alunos pouco comprometidos, que agridem professores pouco valorizados, recursos congelados, sucateamento do sistema e desmotivação dos educadores?

Rocimar – As dificuldades encontradas na educação pública vêm se arrastando ao longo do tempo e, para que estas fragilidades e conflitos sejam minimizados, se faz necessária a implementação de novas políticas públicas, para nortear as escolas para que obtenham respaldos legais para ações que sejam eficazes e efetivas.

É importante verbas financeiras para trabalhos constantes de capacitação para o corpo docente e, principalmente, para os gestores educacionais das redes municipais e estaduais, pois a carência de gestão educacional qualificada para as escolas públicas do país ainda é uma realidade.

A fragilidade e o interesse do aluno estão meramente voltados ao trabalho realizado, seja nas redes de ensino pública ou privada. Planejamentos eficazes e atrativos aos alunos tendem a maiores resultados, inclusive nos quesitos disciplina, respeito e comprometimento.

Uma escola comprometida busca e promove metodologias de aprendizagem ativas para despertar o constante interesse de seus alunos. É importante a escola compreender que o envolvimento deverá ser constante e incansável, promovendo aproximação do aluno com a escola, assim como, da família em parceria com a escola. Ou seja, propostas norteadoras para a interação constante de todos os envolvidos no âmbito escolar. E, claro, o cuidado constante para que não haja o distanciamento do aluno referente a escola, levando-o a atos de agressividade e revolta.

Diário – Diante da atual realidade, as escolas precisaram se adequar. Essa nova forma, por ser mais dinâmica e permitir mais autonomia, não seria uma das responsáveis pela quase inversão de papéis dentro da sala de aula?

Rocimar - Importante reforçar que 70% da educação é de responsabilidade dos pais e 30% é de responsabilidade da escola. Ou seja, os pais são responsáveis pela educação de seus filhos e a escola é responsável pelo ensino de seus alunos.

Lembrando que a educação vem de casa, ou seja, valores, virtudes, crenças, orientações para a vida, etc. E o ensino acontece na escola, com profissionais especializados da área de Educação, e oportunizam ao aluno a aprendizagem de forma significativa, respeitando normas e diretrizes do Ministério de Educação.

Desta forma, a responsabilidade da escola é oportunizar, mediar a construção do conhecimento para a formação acadêmica do aluno, criando estímulos saudáveis para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das nossas crianças e jovens.

Vale lembrar que da Geração X a Gerações Y e Z houve maior permissividade por parte dos pais em virtude do ingresso da mulher no mercado de trabalho e, com isso, os pais das gerações passadas (Baby Bommer e Geração X) adotaram uma postura de educação centrada no filho e, com isso, houve a fragilização dos limites necessários frente a educação.

Desta forma muitos jovens cresceram não aprendendo com os erros e assumindo as responsabilidades, motivos dos vários conflitos existentes. Importante mencionar, ainda, que quando se deixa de aprender com a experiência, o indivíduo perde a capacidade de ver outros pontos de vista e não compreende outras posturas. Quando responsabilizados pelos atos passamos a entender a relação de causa e efeito e de responsabilidade social e, assim, a autoestima aumenta e desta forma o crescimento através da própria experiência vivida.

É importante que os papéis da escola e família estejam cada vez mais claros para não haver uma inversão de papéis na sociedade. A escola poderá ser uma extensão do trabalho de aprendizagem gerado dentro de casa, porém o foco da escola será oportunizar o processo de ensino e aprendizagem, competências e habilidades necessárias, socialização e interação, para o ingresso futuro no mercado de trabalho.

No entanto é dever da escola oportunizar aos pais informações, orientações, reflexões para gerar maior conscientização. Assim, ciclos de palestras oportunizados pelas escolas para as famílias sempre serão fundamentais, promovendo esclarecimentos importantes referentes as nossas crianças e jovens, com abordagens de psicologia, educação, comportamento, etc.

No que se refere as tecnologias, todas as transformações e inovações que possuímos através dos vários aparatos tecnológicos não há como voltar atrás. Os nativos digitais, como são chamados os pertencentes à geração Z, diante das várias transformações no mundo, em curto espaço de tempo, chegaram com tecnologias inteligentes e inovadoras onde a escola precisa de forma planejada e orientada mediar e inserir metodologias ativas e tecnologias dentro do processo de aprendizagem para maior motivação dos alunos da nova geração.

Cuidado, sim, para não engessar somente com o uso dos aparatos tecnológicos, porém reforço a importância de metodologias de aprendizagem ativas (salas invertidas, cases, projetos educacionais integradores, etc.) onde o aluno é o protagonista do conhecimento. No momento certo e oportuno, com certeza, as aulas expositivas, onde o protagonista é o professor, também são necessárias. No entanto, não mais aceitas de forma rígida, frente as exigências e rapidez de como os nossos alunos aprendem e investigam constantemente (perfil autodidata).

 

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