Saúde

Desabrochar

O corpo vai mudando devagarinho e, de repente, de menina se faz mulher. Pode parecer bonito quando a gente poetisa deste jeito, mas a puberdade é uma fase complicada e cheia de tabus, principalmente para as meninas

A puberdade é uma fase difícil e confusa tanto para meninos, ainda mais para as meninas.

Com o corpo infantil se transformando para a reprodução, falar sobre a sexualidade com meninas que ainda não são adultas continua sendo um tabu para algumas famílias, mas extremamente necessário para a integridade da saúde física e psicológica.

Por mais que os pais neguem, um dia essa menina vai iniciar sua vida sexual, quer eles tratem isso com naturalidade ou não. Abrir os olhos para essa transformação, dar suporte emocional e informação para aquela criança que está se despertando mulher é muito importante para sua autoestima dentro das relações que surgirão ao longo do tempo.

Conforme a médica ginecologista Carolina Teixeira Obrzut, a adolescência é um período longo, no qual as alterações não se restringem ao corpo, mas também aos campos psíquico e social. Já a puberdade é um período em que acontece o amadurecimento sexual da menina para torná-la capaz de reproduzir. “Geralmente são mudanças facilmente notadas sob o ponto de vista físico: pelos pelo corpo, menstruação, ovulação, seios maiores e quadris mais largos”, explica.

A idade do início da puberdade, diz a especialista, varia muito. “Observa-se que geralmente ocorre de 8 a 14 anos, dependendo de uma série de fatores. E, entre estes, podemos lembrar o fator socioeconômico, a nutrição, a raça, o ambiente e a genética”.

Carolina fala que meninas bem-nutridas e com boas condições socioeconômicas tendem a iniciar a puberdade precocemente. “A transição para a maturidade reprodutiva é a mudança mais marcante. Ela abrange o aparecimento dos caracteres sexuais secundários -- pelos, crescimento das mamas na menina e do pênis no menino -- e a aquisição da fertilidade --menstruação e ejaculação, respectivamente”.

A primeira modificação importante, e que marca o início da puberdade, é o desenvolvimento das mamas, que se chama telarca. Ela começa com uma pequena elevação, chamada broto mamário, e ocorre por volta dos 8 aos 10 anos de idade. Normalmente as mamas ficam completamente desenvolvidas somente aos 16 anos.

Já a primeira menstruação é um marco na vida de toda menina. E, como toda novidade, traz muitas dúvidas. “O nome da primeira menstruação é menarca, e ela ocorre por volta dos 12 anos de idade. Como não há uma data fixa para chegar, algumas meninas podem começar a menstruar aos 8 ou 9 anos, devido a fatores hormonais, ao estilo de vida e à alimentação”.

É importante lembrar ainda que o tempo entre o inicio do aparecimento das mamas e a primeira menstruação é de aproximadamente 2 anos, podendo, em alguns casos, chegar a 5 anos. Paralelamente a todas estas alterações, a menina púbere sofrerá um grande impulso em sua estatura, o chamado estirão puberal, quando ela cresce de forma mais rápida até chegar à estatura final.
 

Puberdade precoce

A puberdade precoce acontece quando a criança se desenvolve antes dos 8 ou 9 anos. Isso pode afetar e até mesmo limitar o seu desenvolvimento e crescimento.

Para esclarecer as dúvidas sobre este problema, Carolina recomenda uma consulta com médico ginecologista ou endocrinologista pediatrico. “Nesta consulta, realiza-se uma avaliação clínica, exames laboratoriais e de imagem. Assim, conseguimos descobrir se a puberdade é verdadeira ou periférica e se é ou não progressiva”, indica.

A segunda providência, diz a médica ginecologista, é determinar as intervenções necessárias. “Em alguns casos, basta acompanhar a criança em intervalos de três meses. Em outros, é preciso tratar as doenças de base. E, se a puberdade precoce for verdadeira, é possível utilizar um medicamento conhecido como agonista de GnRH, capaz de bloquear o processo que culmina na produção de hormônios sexuais”, descreve.

Carolina diz que a medicina já avançou o suficiente para poupar as crianças desse tipo de sofrimento, mas ainda está nas mãos dos pais a responsabilidade de detectar os primeiros avisos do corpo e, diante deles, correr para buscar ajuda médica. “Esse olhar atento e cuidadoso tem o poder de devolver a infância e acertar o compasso do crescimento, assegurando um futuro com mais autoestima e equilíbrio”, reforça a médica. “Falar em prevenção significa ensinar seu filho a adotar uma dieta saudável, privilegiando itens naturais aos industrializados, gordurosos e açucarados; a praticar atividade física, que auxilia no controle do peso e combate o estresse; a dar preferência a produtos orgânicos e a armazenar alimentos em recipientes de vidro, alumínio ou plástico livre de bisfenol”.

 

Primeira consulta

Muitos pais acreditam que levar a filha ao ginecologista é acelerar o processo de sexualidade, mas Carolina diz que a primeira consulta é, basicamente, uma conversa para o médico conhecer a adolescente e, assim, estabelecer a confiança em quem está cuidando dela.

“Se a menina estiver nervosa e não souber o que perguntar, lembre-se de que o médico é um profissional e pode tirar todas as dúvidas, principalmente sobre doenças, sexualidade e transformações do corpo”, tranquiliza.

Para a ginecologista, a ideia de que uma menina vá começar, em algum momento de sua história, a ter vida sexual ativa é algo que dá arrepios em muitos pais, por isso adiam a primeira visita ao ginecologista. Porém, esse é um erro que pode custar caro.

Mesmo sem uma vida sexual ativa — e até longe de começá-la —, a menina deve ter um acompanhamento especializado com um médico ginecologista.

“A idade talvez seja uma medida pouco precisa para estabelecer quando deve ser essa a consulta. O ideal é que a menina tenha seu primeiro encontro com o especialista assim que tiver a menarca (primeira menstruação)”, reforça.

 

Início da vida sexual

A partir do momento em que a menina inicia sua a vida sexual, é importante que ela tenha responsabilidade, e a prevenção deve vir em primeiro lugar. Além da pílula anticoncepcional, Carolina diz que existem outros métodos contraceptivos para evitar uma gravidez indesejada. “E não se pode esquecer que eles não são o suficiente para estar segura: a camisinha é fundamental para evitar doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Aproveite os momentos em consulta, pois o médico poderá apresentar e explicar cada um deles melhor do que ninguém”.

Para a médica, o método contraceptivo ideal deveria ser de fácil aplicação, possuir 100% de eficácia, risco zero e ausência total de efeitos colaterais, mas infelizmente algo que reúna todas essas qualidades não existe.

Por isso, na adolescência Carolina indica a associação de métodos na tentativa de se aumentar a prevenção da gestação não-planejada e reduzir os efeitos colaterais. “A associação mais comumente utilizada é o condom (camisinha) e o anticoncepcional hormonal combinado oral, que é a pílula, a mais conhecida”, sinaliza.

Ela lembra ainda que os profissionais de saúde que trabalham com adolescentes devem possuir conhecimentos sobre os diversos métodos disponíveis e saber quais os mais utilizados nessa faixa etária. Esses métodos podem ser divididos em comportamentais, de barreira, hormonais, dispositivos intra-uterinos e cirúrgicos.

Na decisão sobre o método contraceptivo a ser usado, Carina fala que devem ser levados em consideração os seguintes aspectos:

1. conhecimento das características específicas da adolescência, do contexto social e familiar da adolescente;

2. adequadas orientação e transmissão das informações sobre o método, para perfeita compreensão pela adolescente;

3. acompanhamento e assistência médica e ginecológica contínua durante o uso do método contraceptivo.

Vacina contra o HPV

Muitos pais também acha que a faixa etária mais indicada para a imunização de meninas contra o vírus HPV, entre os 9 e os 14 anos, é muito baixa, visto que meninas nesta idade em um contexto ideal aos familiares não deveriam ainda ter inicializado a sua vida sexual.

No entanto, a médica diz que essa é a faixa de idade mais indicada para que a menina tome a vacina, antes de começarem a praticar o ato sexual. “Sexualmente transmissível, o HPV é a maior causa do câncer de colo do útero, quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil”.

O Ministério da Saúde adotou a vacina quadrivalente, que protege contra o HPV de baixo risco (tipos 6 e 11, que causam verrugas anogenitais) e de alto risco (tipos 16 e 18, que causam câncer de colo uterino). A população-alvo prioritária da vacina HPV é a de meninas na faixa etária de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, que receberão duas doses (0 e 6 meses) com intervalo de seis meses, e mulheres vivendo com HIV na faixa etária de 9 a 26 anos, que receberão três doses (0, 2 e 6 meses).

“Outro aspecto relevante é que a vacina HPV quadrivalente é segura e os eventos adversos pós-vacinação, quando presentes, são leves e autolimitados. Eventos adversos graves são muito raros”, finaliza.



 

Carolina Teixeira Obrzut é ginecologista e obstetra da Clínica Obrzut Serviços Médicos. CRM 22000 - TEGO 093/2007 – TEUS-GO 666/2009

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