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Completa com água

Era um dia de aula qualquer, quando um estudante do curso de engenharia civil da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco, perguntou ao professor Rogério Blanco se seria possível tornar motores menos poluentes com a ajuda da eletrólise da água, processo químico que usa a eletricidade para gerar os gases hidrogênio e oxigênio.

Possível é, já que o conceito não é necessariamente novo, mas seria trabalhoso. O aceno positivo do professor foi o suficiente para que um grupo de alunos do curso se debruçasse sobre o projeto.

Com a ajuda de Blanco, várias horas de pesquisa, cálculos e suor, os jovens João Vitor Chimello, Julio Cesar Cardoso, Douglas Reck e Marcos Henrique da Trindade desenvolveram o protótipo do equipamento necessário para o projeto ganhar vida, uma célula eletrolítica.

O dispositivo é um conjunto de placas em forma de cubo. A água entra e a energia elétrica faz a mágica de quebrar suas moléculas gerando os gases que são usados na combustão do motor. A ideia foi implantada pela primeira vez em um quadriciclo, exposto no estande da faculdade na Inventum, feira de ciência, tecnologia e inovação de Pato Branco que aconteceu em novembro de 2013.

O veículo que funciona à base de água atraiu vários curiosos, porém, Blanco explica que o líquido da torneira não é o único combustível que faz o motor funcionar. Os gases produzidos pela eletrólise se associam a gasolina como fonte de energia, e juntos tornam possível um passeio de quadriciclo. Dessa forma o veículo precisa queimar menos gasolina, e consequentemente polui menos, já que o hidrogênio e o oxigênio são fontes limpas de energia, explicou João Vitor Chimello.

“As peças (do motor) não ficam tão desgastadas, pois a gasolina deixa resíduos e os gases não” diz Julio Cardoso, sobre os benefícios do sistema para a manutenção do carro. Um quadriciclo foi legal, mas a equipe queria alimentar motores mais potentes, e foi aí que um novo parceiro abraçou o projeto.

O Opala
Rodrigo Martins é professor de artes e dono de um Opala 1980, quatro cilindros, preto. É o sonho de muitos admiradores de carros antigos e o pesadelo da eficiência energética. Ele percorre de seis a sete quilômetros com um litro de combustível, “Pisando um pouquinho, até 5”, diz o proprietário.  Uma média bem baixa se comparada a dos carros populares mais modernos, que percorrem pelo menos 10, dependendo do modelo, terreno, motorista e outros fatores.

Martins conheceu o projeto e ofereceu seu carro como cobaia para a próxima etapa do experimento. Ele conta que ajustou o motor para injetar menos gasolina, falta que seria compensada pelo gás produzido na célula eletrolítica. No teste, o Opala fez 12 quilômetros com um litro de gasolina, mas nem tudo saiu perfeito. A bateria do carro, que alimentou a eletrólise, ficou comprometida, e a temperatura do motor aumentou muito. Mesmo assim, o time está comemorando o resultado.

Sustentabilidade
Para Blanco, melhorar o desempenho do Opala foi um grande passo para o projeto, que até então foi tocado com poucos recursos e sem dedicação exclusiva dos envolvidos. Agora o objetivo é aprimorar o que já está feito, deixando o dispositivo mais leve, e contornar o problema do consumo da bateria, o maior desafio na avaliação da equipe.

Não está descartada a construção de um carro inteiro, leve o suficiente e com características ideais para o funcionamento do sistema. A médio prazo é mais provável que a célula seja usada em um motor menor, como o de um cortador de grama.

“É um sonho, mas se conseguirmos associar isso a um motor a diesel dentro de uma casa já será um baita resultado. Estamos batendo na tecla do poluir menos, e esse é o principal benefício dessa tecnologia”, comenta o professor.

Os testes estão acontecendo em veículos, mas a intenção da turma de futuros engenheiros civis é aplicar o conceito na sua área. “Podemos utilizar em equipamentos com motor, como as betoneiras. E quem sabe para casas sustentáveis, aplicando a aquecedores e ar condicionados”, explica Douglas Reck. Estão no caminho, a bordo de um opalão.

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