Vanilla

Catálogo dos santos remedinhos

Exposição explora o universo dos almanaques de farmácia; livretos que vendiam remédios, ideologia e ajudaram a letrar uma geração de brasileiros

Reprodução

Produtos viraram lendas nas capas de almanaques

“Um livreto, um simples caderno que sirva de vehiculo (sic) para propalarmos as qualidades de nossos productos (sic) e um punhado de conhecimentos uteis (sic), de historietas e curiosidades interessantes”. Era assim que Alvim e Freitas abriam o texto de apresentação de seu almanaque para o ano de 1931, em uma página que trazia abaixo a lista de todos os eclipses, datas de solstícios e equinócios, feriados e outras datas importantes entre janeiro e dezembro daquele ano.

Mas a época, os valores, a língua portuguesa e a mídia eram outros. O período entre as décadas de 30 e 50 foi a era de ouro dos almanaques de farmácia no Brasil, uma livreto do tamanho de um gibi, publicado por indústrias farmacêuticas para divulgar seus produtos, que se tornaram tão populares a ponto de se tornar ferramentas de alfabetização e educação sanitária.

Foi a partir deles que marcas como o Biotônico Fontoura, Sadol, Licor de Cacau Xavier e pomada Minancora ganharam visibilidade e fizeram parte do imaginário de várias gerações.

Parte da história e das curiosidades desse meio de comunicação são apresentadas na exposição “Tempo de Almanaque”, aberta gratuitamente de 31 de março a 22 de maio no Sesc Pato Branco. A mostra, que já percorreu várias regiões do Brasil, disponibiliza ao público dezenas de fac-símiles de almanaques do acervo particular da doutora em literatura e escritora mato-grossense Yasmin Nadaf.

Desde criança Yasmin coleciona os livretos, dos quais diz ter 350 exemplares criados por mais de 40 laboratórios diferentes; apenas parte de uma coleção que inclui ainda gibis, livros raros e outros periódicos.  “A dona de uma farmácia que ficava ao lado de uma banca onde eu comprava gibis me mostrou o almanaque do Biotônico Fontoura, que continha histórias em quadrinhos do Jeca Tatuzinho. Eu achei aquilo super legal, e comecei a colecionar”, conta Yasmin.

Mesmo sendo essencialmente uma peça publicitária, os almanaques foram por muito tempo a principal fonte de informação e entretenimento para uma parcela considerável da população, sobretudo as mais pobres de um Brasil ainda rural. Distribuído gratuitamente, as publicações traziam informações sobre os produtos dos laboratórios, dicas de cuidados com a saúde, piadas, passatempos, ilustrações, informações sobre períodos de colheita e vários outros conteúdos.
Publicados com periodicidade anual, os almanaques eram feitos também para servir como calendários, e não raro eram pendurados em portas de armários ou paredes para facilitar a consulta. “Alguns laboratórios já entregavam o almanaque com uma cordinha, para que as pessoas pudessem pendurar”, conta a colecionadora.


Educação
O exemplar mais antigo da coleção de Yasmin é o Almanaque Bristol, de 1902. De lá até o início do século 21, quando os periódicos de farmácia praticamente desapareceram, poucas coisas mudaram além dos projetos gráficos. As capas dos mais longevos continuaram estampando fotos de mulheres sorridentes, e o conteúdo seguiu servindo aos mesmos propósitos, de acordo com a “linha editorial” de cada veículo.

Segundo Yasmin, alguns laboratórios priorizavam a publicação de jogos e ilustrações para crianças que estimulavam a alfabetização, enquanto outros valorizavam a medicina caseira. O Renascim Sadol, de 2010, o mais recente da coleção, estimulava a prática de exercícios físicos.

Reprodução

Calendários, humor e horóscopo. Publicação tinha de tudo um pouco

O Biotônico Fontoura usou um personagem icônico, criado por Monteiro Lobato, para falar de saneamento básico. Jeca Tatuzinho ensinava no almanaque da marca cuidados com a higiene, e dialogava diretamente com as populações rurais, na época, um dos grupos mais carentes do país e também um dos mais afetados pela falta de saneamento básico. “Esses periódicos atuaram como um importante veículo ideológico, estampando uma escancarada ´cruzada civilizatória´, cujo objetivo era transformar o Brasil num território culto e imune das doenças endêmicas e epidêmicas”, disse Yasmin, em entrevista para a revista do Sistema Fecomércio.

Com tiragens gigantescas, os almanaques chegavam aos confins do país através dos correios, sendo consumidos por praticamente todas as classes sociais em um curioso fenômeno de comunicação de massa.
Dona do lar

Muita gente já foi capa de almanaques. Santos, Jesus Cristo, Xuxa Meneghel, fabricantes de elixir, índios, famílias e até um elefante cruzando uma ferradura como se fosse um portal. Mas a mulher foi a grande protagonista da publicação.

Até por volta dos anos 40, a figura feminina que predominou foi a mãe de família, que cuida da casa e zela pela saúde dos filhos e do marido. Yasmin acredita que apesar disso a mulher não era vista como submissa. “Ela era a grande interlocutora dos escritos presentes nesses impressos. Considerada a “rainha do lar” cabia, portanto, a mulher a escolha dos cuidados médicos domésticos da família e os laboratórios conscientes dessa realidade, dirigiam-se a ela como pessoa responsável pela escolha dos medicamentos a serem ministrados”.

Reprodução

O Pharol da Medicina de 1908. Um dos primeiros almanaques do Brasil

Com o sufrágio e abertura do mercado de trabalho para as mulheres as coisas mudaram. Aparecem os corpos delineados e exaltação dos cuidados também com a beleza. Nos anos 60, as capas voltam a colocar a mulher no centro do núcleo familiar, mas dessa vez como a esposa bonita e bem sucedida.

Os biquínis e a nudez causaram polêmica nos anos 70 e 80, principalmente nas cidades do interior. Foi a partir daí que o culto a beleza do corpo e os estímulos ao exercício físico passaram a ser o grande assunto.

Yasmin acredita que a popularização de outros meios, como a televisão, ajudaram a sepultar os almanaques de farmácia. Ela diz não ter conhecimento de algum laboratório que ainda os edite. Muita gente deve sentir saudades.

Classificados